ELE É VELHO, FEIO, CHATO, MAU E SEM-VERGONHA.

Coluna do Comendador Baltazar

Estas aventuras são ambientadas em Curitiba. Verídicas ou não, aí estão. Então preparem-se, pois começa agora (30/04/2003,1h30) a COLUNA DO COMENDADOR BALTAZAR, As histórias do nosso herói serão publicadas semanalmente. Portanto, confiram!!!
Seja bem-vindo àColuna do Comendador Baltazar bloghome | comend_baltazar@pop.com.br
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Sexta-feira, Junho 30, 2006

ESTE BLOG MUDOU-SE PARA:

WWW.COMENDADOR_BALTAZAR2.BLOGGER.COM.BR

ACESSE E TENHA UMA BOA LEITURA... SE PUDER.

Mario Bourges 13:29 [+]
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Sábado, Abril 01, 2006

Mario Bourges 17:34 [+]
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Sexta-feira, Março 24, 2006
EM BREVE UM NOVO ENDEREÇO PARA A COLUNA DO COMENDADOR BALTAZAR ESTARÁ DISPONÍVEL. AGUARDEM.
Mario Bourges 14:51 [+]
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No boteco da esquina estava eu e o velho Beleléu no limiar de uma longa e chata conversa sem fundamentos ou interesses. E por que estávamos começando algo tão insólito quanto um assunto inútil, modorrento e enfadonho? Que saberia eu dizer àquela hora tão alcoolizada do dia? Bom, só sei que estava eu, segurando com a mão esquerda, uma garrafa de cerveja quase vazia, e na mão direita uma colher de sopa que peguei não sei de onde, e que também não sabia o motivo de eu estar segurando aquele negócio. Curiosamente o Beleléu também segurava com a mão esquerda uma garrafa de cerveja, porém a dele já estava vazia, e na mão direita uma outra colher de sopa. Por quê? Que sei lá eu sobre isso?

Continuando; lá pelas tantas, como por impulso, nos levantamos rapidamente e começamos a duelar e a desferir vários golpes de colher um no outro. Coisa de bêbado, claro. O proprietário do bar? Logicamente que saiu de trás do balcão com outra garrafa de cerveja na mão esquerda... Porém, na mão direita não tinha colher de sopa como nós, e sim uma toalha molhada e enrolada que era agitada de maneira que lembrava um chicote. Por quê? Não sabia dizer até o momento que ele desferiu uma toalhada daquelas na minha perna. Logo de cara eu bambeei, a ponto de ter que me escorar na cabeça de um sujeito que dormia na mesa. Já o Beleléu saiu correndo para fora, mas também não se deu bem, pois trombou com um outro velho que cambaleava na calçada sob os efeitos do álcool. E por que seria diferente? Afinal velhos vão aos botecos para encher a cara.

Contudo, pensei que fossemos apanhar mais, coisa que, aliás, nem sabia o motivo da toalhada nas minhas pernas, nem na orelha do Beleléu, que levou enquanto tentava se desvencilhar do bêbado que o agarrou no chão depois de terem trombado. E também não fiquei contente com tal atitude. Penso que isso não se faz com ve... Pessoas com experiência. Pura falta de respeito. Só por isso não paguei a conta, deixei a minha, pelo menos, para o bêbado que dormia na mesa. Quem era o bêbado? Ah, sei lá. E isso também não fazia a menor diferença, nem para mim quanto para o sujeito que estava largado na mesa como se fosse um pedaço de papel amassado. Bom... Azar o dele.

Um outro motivo que me fez sair de lá do boteco. Foi a chuva que começou a cair, coisa que aliás me deixou preguiçoso. Ainda mais depois de algumas doses de álcool no sangue, no estômago, na cara, nos sapatos e na roupa. E tem uma outra coisa nesta história que, de certa forma, me obrigou a sair de lá e rumar para um outro lugar, a minha casa, por exemplo. O que era esta coisa? Sabe, naquele instante lembrei que a Olga iria fazer, para acompanhar o café da tarde, um bolo de milho, mais um pudim de leite, para a sobremesa do dia seguinte. Obviamente não deixaria de comer o bolo para ficar lá, naquele lugar insólito cheio de velhos, e bêbados, e moscas roendo nossas orelhas, e baratas que ficam zanzando por lá apenas para tomar de nossas bebidas enquanto estivermos babando sobre as toalhas encardidas de vômito, ou algo parecido. Bom, depois desta experiência agitada, e ao mesmo tempo enfadonha, voltei a ter uma vida normal, ou seja, estagnada.


Aqui, emoções variadas. Primeiro: salve-se quem puder, depois disso: cada um por si.
Mario Bourges 14:42 [+]
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Domingo, Março 19, 2006


Após horas andando sem rumo e sem um sentido lógico para tal ação entrei em um prédio no centro da cidade. Posso dizer que também não vi lógica para isto, mas como avistei umas poltronas da calçada através das portas de vidro adentrei no edifício para descansar um pouquinho. Era um lugar muito bonito, cheio de pessoas bonitas e bem vestidas e corteses para com os outros que lá circulavam. Resumindo um pouco; era coisa de outro mundo, ou coisa de sonho, pois na maioria das vezes quando entramos em algum lugar público nos sentimos ameaçados pelos olhares dos atendentes, por mais que as palavras ditas por eles não pareçam assim.

Bom, deixe-me continuar. Depois que entrei e me sentei confortavelmente naqueles sofás de couro veio uma bonita moça perguntar se eu gostaria de algo, como: chá, ou café, ou água, ou cerveja, ou whisky. Eu, surpreso por saber que poderia escolher qualquer coisa desse tipo pedi, ainda que um pouco tímido, um singelo e não muito exagerado copo de whisky. Porém, se não fosse pedir demais, que fosse de no mínimo 12 anos de envelhecido, além das três doses no capricho e duas pedras de gelo. Mas isso se não desse trabalho, claro.

Contudo, lá pelas tantas, apesar de embalado pelas infindáveis doses de whisky, que ainda não descobri por que resolveram me servir, eu conseguia ainda perceber os acontecimentos ao meu redor. Que era um tal de recepcionista se estapeando com o porteiro, por quê? Não sei. Consecutivamente este se estapeava com o gerente, que se estapeava com os pedestres que resolviam entrar para pedir qualquer coisa. E o resto se estapeando entre si pelos longos corredores que não levavam à lugar algum daquele imenso ambiente. Quanto a mim, bebendo meus whiskies sem problemas naquele sofá que deixa qualquer um pra lá de preguiçoso.

Sei que está parecendo uma loucura sem fim tudo isso. Mas foi o que aconteceu. No entanto, quando pensei em me levantar do sofá para ir embora, pois eu sentia que as coisas estavam ficando um tanto quanto perturbadoras no sentido das relações interpessoais, veio a moça que me oferecera os whiskies anteriormente pedindo para que eu mantivesse no sofá porque traria uma outra garrafa desta bebida, porém, a outra garrafa seria de dezoito anos de envelhecida. Sabe que até quis ficar para degustar da bebida, mas naquele instante já nem sentia minhas pernas direito. Então, assim que consegui me levantar sobre minhas pernas moles que se dobravam em cinco partes, aproveitei a situação onde todo mundo se estapeava incessantemente na recepção daquele prédio e sai me escorando pelas paredes do local até a outra garrafa de whisky que estava exposta na ponta de um balcão. Daí então rolei com a garrafa apertada em meus braços até a calçada lá fora. Parece mentira ou algo assim. Sei disso. Mas foi verdade.

Agora o mais importante; apesar dos pequenos machucados nos braços, pernas, costas e cabeça, por eu ter rodopiado feito um pião com aquela garrafa nos braços, sai de lá sem ser agredido por aquele pessoal maluco, e ainda, com uma bela bebida. Se bem que, no dia seguinte a este caso inédito eu reparei que naquela confusão toda de tapas que foram distribuídos mutuamente entre funcionários e qualquer pessoa que por lá circulavam, foi descobrir que a tal garrafa de whisky que peguei enquanto rodopiava não era bem uma garrafa de whisky, e sim um vaso de flores multicolorido. Consecutivamente o que trouxe para casa não daria para beber. Bom, pelo menos não levei tapas... Se bem que, há esta altura dos fatos nem sei se chegaram mesmo a se estapearem como presenciei naquele momento. Mas quanto a isso também nem me incomoda mais saber se era verdade essa história toda ou não. O que importava era saber que cheguei em casa. Só restava saber que casa era aquela que acordei no dia seguinte, porque de resto, sem problemas.


Era assim que eu via as pessoas no tal prédio fazendo. Agora se estavam mesmo se estapeando não posso confirmar, ainda mais depois de ter acabado com uma garrafa inteira de whisky... ou depois de meia garrafa desta bebida apenas, sei lá.
Mario Bourges 14:59 [+]
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Quarta-feira, Março 15, 2006


Normalmente costumo ir dormir cedo, após a meia-noite. Ã... Veja: a coisa toda aconteceu no meio da madrugada. Estávamos todos dormindo... Bom, pelo menos eu estava... E também não tenho certeza era madrugada, mas isso não vem ao caso agora. Então, quando tudo era tranqüilidade naquele sonho maluco que eu sonhava no momento, escutei:

-- Dorotéia! Gritou alguém com uma voz sofrida, melancólica, e ao mesmo tempo demonstrando impaciência. Agora eu, que não tinha nada haver com essa história, pensei: que se dane. Contudo, a história não parou por aí.
-- Dorotéia! Gritou mais uma vez com a voz sofrida e até um pouco trêmula. Foi aí que comecei a imaginar algumas coisas. A princípio pensei na volta de uma alma penada que veio assombrar esta tal Dorotéia. Depois pensei que poderia ter me enganado quanto ao nome, e que no lugar de Dorotéia poderia ser gonorréia, e a pessoa que gritou estava com este problema. Puxa vida! Que dureza para ele se for isto mesmo, continuei pensando.

Então, quando tudo já estava calmo, e eu quase conseguindo retornar ao meu sonho maluco de gatos brancos malhados de cor-de-rosa que subiam pelas paredes, e eu, que estava grudado no teto de uma sala toda branca, e que acabara de atirar com uma escopeta em um urso polar, acordei com mais um pavoroso grito vindo não sei de onde.

-- Dorotéia! Ô Dorotéia! Acorda sua dorminhoca. Acorda e vem limpar minha bunda que eu estou todo cagado! Gritou assim o sujeito com uma voz sofrida, e ainda, impaciente, revoltado, melancólico, tremendo de cólera, e para completar; cagado. Depois disso a tal Dorotéia foi ao quarto deste infeliz para limpar suas partes nadegosas. Pelo menos foi assim que pensei, porque não ouvi mais nada. Contudo, algo ativou meus pensamentos. Após este episódio pra lá de estranho comecei a ouvir os cachorros da vizinhança latirem feito desesperados. Não sei se tem alguma coisa haver, mas como não escutei mais reclamações do sujeito que estava cagado, tenho a impressão que esta tal Dorotéia, ou limpou mesmo o sujeito e o colocou para dormir, ou o lançou janela a fora... Sei lá. De qualquer forma... Tanto faz. Já perdi o sono mesmo.


Depois de tudo isso fiquei pensando com que quantidade ele poderia estar cagado... Mas procurei esquecer disso logo também.
Mario Bourges 16:18 [+]
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Terça-feira, Março 07, 2006


Para mim foi difícil, digo, estava difícil. Na verdade é difícil. Aconteceu tudo sem pensar. Estavam todos lá, em volta de mim, gritando, me pressionando, pedindo aos berros para que eu largasse a faca, aquela faca com uma lâmina grande que comprei para fazer churrasco, e que, nunca soube ao certo como usava. Mas na hora H eu a usei com violência e de maneira inconsciente. Confesso que estava com a cabeça não sei onde. Meu instinto animal me dominou depois daqueles intermináveis goles extra grandes de cachaça e outras coisas que nem me lembro mais.

Foi horrível, tudo estava horrível. Na verdade é horrível. Pediram, imploraram para eu parar. Tinha até gente chorando entre os sofás vomitados depois que um líquido vermelho, que parecia sangue, esguichou pelo chão da sala. E no auge do massacre, eu, peguei novamente aquela faca que nunca soube usar, mas naquele momento eu a manipulava como um samurai, então segurei-a com firmeza, olhei bem para os olhos e arranquei um deles. Se bem que, a sala já parecia um mar de olhos onde, de vez em quando eu pisava em alguns deles, e em outro momento eu os liberava para o cachorro e o gato comerem.

E isto, acreditem ou não, foi dando em mim uma vontade incontrolável de fazer o mesmo que os bichos, e enquanto, eu preparava a boca para chupar um olho, para ver como era, aconteceu a coisa que eu mais temia:
-- Largue já esta nojeira seu velho maluco! Gritou assim comigo a Olga antes de desferir uma vassourada na minha cara.
-- Hum? Perguntei assim, todo indignado à ela.
-- Porco! Você é um porco, nojento. Já vou te ensinar a não fazer mais isso. Está certo que ajudou a me livrar dessas pragas, mas fazer picadinho das moscas e depois chupar os olhos delas... Argh!... Assim já é demais.

Mario Bourges 19:47 [+]
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Quinta-feira, Fevereiro 23, 2006


Nesta semana, como não tinha nada para fazer, para variar, resolvi me aventurar em andar de ônibus e coisa e tal, só para ver onde iria parar. Sabe que meu senso de direção não está dos piores, pois até que fui direitinho para o centro da cidade. Só não me lembro que ônibus era, mas isso não me preocupou porque como teve um que me trouxe para o centro deveria ter alguns outros tantos que me trariam de volta. Então, com este pensamento sai caminhando pelas ruas a fim de me deparar com alguma diversão. Você não imagina qual foi minha vontade de entrar num teatro onde estava tendo uma apresentação de um grande pianista internacional, do qual não lembro o nome... Mas o que estou dizendo? Nem sei quem é o sujeito até hoje. Nunca ouvi falar dele em toda a minha vida. E também não fiquei preocupado em saber o nome dele... Não gostei da música que ele tocava. Era muito chata. Mas também só entrei por que não precisei pagar ingresso.

O tal pianista tinha jeito de ser malucão, e era um sujeito eclético na maneira de se vestir. Além de estar enfiado num punhado de roupas coloridas tinha no dedo mínimo da mão direita um baita de um anel que chamava mais a atenção do que o resto de suas vestimentas. Pois bem; logo na primeira música ele se mostrou ser um virtuose. Tocou como poucos, mas foi tudo indecifrável. Ninguém entendeu porra nenhuma. E creio que nem ele nem o pessoal que lá estava para prestar assessoria a ele deva ter entendido o que foi tocado. Enfim, deixe-me continuar; ao término desta música, que no meu ponto de vista nem poderia ser considerada música, todos aplaudiram, inclusive eu. Não quis parecer um ignorante no assunto. Embora todos que lá estavam devem ter pensado o mesmo que eu.

Mas veja, ainda era o fim da primeira música, e pela a empolgação de todos que aplaudiram esta quase música o sujeito tocaria por toda a noite como se estivesse ligado na tomada. Como sinal de agradecimento talvez. Bom; após alguns segundos virado para o piano, provavelmente para adquirir novamente a concentração, começou a executar uma outra pseudomúsica. E lá estavam todos, inclusive eu, olhando, como por atração do movimento que ele fazia, e ouvindo, como por falta de opção. Contudo, a vida não estava perdida à toa naquele salão pelo resto do dia. Tive o prazer de apreciar uma cena no mínimo estapafúrdia para compensar minha entrada gratuita no teatro. Não que não goste de teatros, não foi isso que disse. Eu apenas me dei mal com este dito espetáculo, que, por azar, estava sendo apresentado no teatro. Só isso.

Ah! Quase tinha esquecido do que aconteceu. Veja; enquanto ele se acabava no piano com suas mãos já inchadas, seus dedos se entrelaçavam e também se batiam de quando em quando. Porém, durante a execução da... Música, e após um soco que ele mesmo acertou em seu próprio rosto pelos movimentos, que, de tão descoordenados que me pareciam, mostravam-se, ao mesmo tempo, harmoniosos. Agora vá entender o que eu acabei de dizer agora. Mas por incrível que pareça era isso aí. Bom; assim mesmo não se sentiu intimidado com o tal soco, apesar de ter arrancado seu próprio sangue com a pancada. Mas isso só o deixou mais maluco. Só sei dizer que o piano quase pegou fogo de tanto malabarismo feito com aquelas mãos doentias. Ah! Quase esqueci de novo. O anel gigante dele, depois da auto-porrada, começou a escorregar e a escorregar até que escapou miraculosamente do dedo e voou longe. Depois que isso aconteceu a apresentação parou completamente, pois ele se levantou do banquinho e foi atrás de sua preciosidade. Então pensei: é a minha deixa... E deixei o lugar junto com mais uma dúzia de pessoas loucas para dar o fora de lá.

Respirando ar puro, ou quase puro, e olhando um punhado de carros passar por onde eu estava, fiquei pensando em aproveitar o resto do tempo que tinha reservado para ficar andando pelo centro. Claro que antes tive de me desvencilhar dos outros sujeitos que saíram do teatro junto comigo. Eles também eram chatos. Então, depois de tudo resolvido era o momento da diversão. Resolvi que seria bom dar uma passadinha no Odil, ver como é que estava o bar dele, pois fazia um tempo que não ia lá. Chegando lá me deparei com uma multidão fazendo a maior festa ao som das marchinhas de carnaval. Claro que foi no maior estilo polaco de ser, ou seja, sem nenhuma ginga. Então foi aí que pensei: estamos em época de carnaval... Que otário que fui ter ido ver um maluco se debulhando em cima de um piano ao invés de ter vindo aqui direto. Mas tudo bem. Cheguei a tempo de me divertir. Assim mesmo me pergunto como foi que esqueci do Primeiro Grito de Carnaval que o Distinto organiza todos os anos. Enfim, por mais algumas horas eu me acabei de beber, de dançar, mesmo eu não sabendo dançar, de falar, de gritar, e o que mais tivesse para fazer com meus amigos, conhecidos, desconhecidos, e o resto que estivesse passando na calçada no momento. Mas é isso, agora vou descansar um pouco porque a bebedeira mais os pulos que dei foram demais para mim.


Veja se isso não parece divertido. E eu lá no teatro perdendo grande parte dessa festa só para ficar vendo um maluco, que se não fosse o pessoal da produção segurar o sujeito, ele certamente subiria no piano, feito um doidivanas, e sapatearia nele, feito um louco varrido. Mas tudo bem, já passou.
Mario Bourges 16:14 [+]
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Sábado, Fevereiro 18, 2006


Com a cabeça atarraxada entre os ombros e largado na minha velha e encardida poltrona pus-me a assistir aos horríveis programas na televisão. Como não sabia o que ver fiquei na inércia, apenas observando a movimentação de imagens, e, logicamente, com o controle remoto nas mãos trocando de quando em quando de canal. Porque mesmo com o olhar perdido e sem prestar atenção em nada do que passa no televisor acaba cansando se ficar em apenas um único canal. Então, lá pelas tantas acabei por encontrar uma coisa que talvez fosse menos chata. Concordo que foi tolice minha pensar assim, pois o tal programa era xarope, mas de certa forma fiquei me distraindo com ele mesmo porque tal coisa tinha lá seu lado irônico, e até engraçado em alguns momentos.

Person. 1: Onde está o pessoal daqui? Perguntou o sujeito com uma voz sinistra.
Person. 2: Hum? Que pessoal? Perguntou a pessoa que estava sentada numa cadeira velha enquanto coçava a parte de baixo de sua barriga.
Person. 1: Fez movimentos com as mãos sem saber qual pessoal era o que ele procurava, mas fez um sinal com a cabeça, projetando seu protuberante queixo inflamado por uma espinha para frente, em direção a uma outra pessoa que estava ao lado desta outra que sentada na cadeira velha coçava a barriga. Tal movimento era intimidatório, para que essa terceira pessoa desse uma resposta que lhe agradasse.
Person. 2: Então minha velha; diga alguma coisa para este moço... Sabe que pessoal é esse? Diga logo antes que ele fique irritado e faça explodir aquela espinha horrível em nós.
Person. 1: Diga logo mulher antes que eu faça o que este pançudo aí acabou de dizer. E tem mais... Se não disser o que quero saber vou, além de estourar minha espinha cavalar, trarei duas esquifes para cá, uma para cada um de vocês.
Person. 2: Ô mulher; diga logo porque nem estou querendo saber o que é esse tal de esquife. Disse isso enquanto se ajeitava na cadeira, pois algo o cutucava na bunda.
Person. 3: E por um acaso você sabe se eu quero saber o que é esse negócio, é? Mas antes que eu diga alguma coisa... Por um acaso você viu onde foi parar minha agulha de tricô meu velho?
Person. 2: Olha; na verdade não sei não, mas espere um pouquinho... Opa! Parece que a encontrei. Porém, apesar de conhecer muito pouco dessas coisas, ela está quebrada, digo, ela se quebrou há pouco, porque até cheguei a ouvir um som de coisa se quebrando... E o problema é que nem sei onde é que foi parar a outra parte. Disse assim a pessoa da cadeira enquanto enfiava uma das mãos na bunda por dentro das calças.
Person. 1: Assim não dá, porra! Venho aqui para pegar uns caras e vocês ficam aí, fazendo onda; empatando meu lado. Enquanto vocês ficam enrolando e quebrando agulhas de tricô, e fazendo sei lá mais o quê, eu fico aqui, em pé, cansando. Só por isso vou enfiar os dois, de uma vez só, dentro de uma única esquife apenas. Vão ver. Há, há, há e há! Gargalhou o sujeito forçadamente para que os outros se sentissem intimidados.

Porém, não consegui me agüentar. Senti a necessidade de trocar de canal. Aquilo estava muito, mas muito chato. Estava pior que novela mexicana. Bom, talvez estivesse a mesma coisa, sei lá. Só sei dizer que estava chato. Ninguém decidia nada. O sujeito que no começo parecia ser o malvadão não passava de um banana. E os outros que contracenavam com ele pareciam estar indiferentes aquilo tudo, e ainda por cima, quebrando agulhas de tricô. Assim não dá, preciso fazer outra coisa para ocupar a minha mente. Pensei isso enquanto cutucava o dedão do pé com um palito de dentes para tirar uma sujeirinha que tinha se alojado num dos cantos da unha. Que depois acabei descobrindo que era um resto de cocô do cachorro que pisei horas mais cedo. Mas tudo bem, eu esfreguei o palito com bosta nas costas do gato... Ele nem liga mesmo.


Nós perdemos um tempão assistindo porcarias na tv, e quando percebemos a cagada que fizemos já é tarde.
Mario Bourges 15:08 [+]
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Domingo, Fevereiro 12, 2006


Sempre que possível procuro me especializar em alguma coisa, qualquer coisa, ou pelo menos conhecer. Só para ter o quê falar com o pessoal, mas isso depois que consigo me encontrar neste bairro, para daí, bem mais tarde, encontrá-los, ou no café, ou no Odil, ou em qualquer outra localidade. Bom, o assunto do qual resolvi tratar não tem nada haver com o que comecei a contar. A idéia original partiu das várias formas de se alimentar que possuímos aqui em casa... Não! Espere um pouco. Era outra coisa. Na verdade começou com um sintoma, um sinal da idade que está levemente avançada, mas muito pouco avançada também. Coisa que, aliás, nem merecia ser tratado neste momento, mas agora que comecei a falar vou contar logo de uma vez.

Porém, antes que eu me perca novamente no assunto, deixe-me dar o motivo pelo qual estou contando esta bobagem camuflada de assunto sério. Dia desses estava eu vendo a Olga fazendo um negócio para comer. Para ela comer. Coisa da qual não fazia parte de meus planos, em se tratando de alimentação. Mas como as mulheres têm um jeito todo especial de nos persuadir acabei comendo a coisa, mesmo que contra gosto. Na segunda colherada percebi que era um mingau de alho. Horrível por sinal. Não! Não estava mal feito o mingau, na verdade tenho asco desta coisa. Mas o jeito especial da Olga me convenceu a comer aquela nojeira algumas vezes mais. Bom, só sei que lá pelas tantas, além de ficar com o estômago mareado pelo gosto do alimento, senti, a princípio, um de meus dentes ricochetear em minha boca, e depois pular para fora de seu receptáculo original como se estivesse feliz pela liberdade conquistada. Que tolo, de pensar assim.

E veja só como são as coisas; mesmo odiando aquela porcaria com alho e sem um dente eu ainda sorria e tinha a petulância de dizer que estava gostando, mesmo que as evidências denunciassem o contrário. E todo este sofrimento para convencê-la de que tudo estava bem tinha um único propósito: de que ela fizesse um pudim de leite para mim. Coisa que faz tempo que não vejo em casa. Posso dizer com segurança que depois que nos mudamos para este prédio nunca mais comi um doce deste tipo. Que maldade da parte dela, me privar desta iguaria. Pelo menos penso que seja. Então, continuando; chegou um momento que não consegui disfarçar toda a minha irritabilidade, mesmo que isso comprometesse a feitura do meu pudim. Fiz voar pela janela a fora o conjunto: prato e mingau. Obviamente que as coisas não ficaram boas para mim em nenhum sentido. Levei uma bronca por ter jogado pela janela toda a bagulhada, e por ter jogado fora a comida que ela fez. Segundo a Olga, poderia ter avisado que não queria simplesmente. Mas como a conheço muito bem ficaria magoada com minha atitude exclusiva quanto a este fétido pseudo-alimento.

Contudo, eu continuava sem o maldito dente, e tinha de consertá-lo o quanto antes, pois isto estava comprometendo meu sorriso. Se bem que nem costumo sorrir, e certamente as pessoas estranhariam se eu sorrisse, mas não podia abrir minha boca porque revelaria um vácuo dentário. Se bem que... Tanto faz. Poderia ser que isso até se tornasse um charme... Uma marca registrada minha. Sei lá. Tudo é possível nesta vida. Bom, mas eu pensei melhor e decidi ir ao tal dentista para consertar a arcada dentária. Nunca se sabe se isto já não foi um aviso dos outros dentes, que, entre um planejamento maluco e outro, já estariam querendo se rebelar contra a boca, maldita por sinal, e cairiam fora dela assim, sem mais nem menos. Não sei quanto a vocês, mas prefiro ir ao dentista ver como é que posso consertar a bocarra. E depois deste episódio me dedicarei mais e melhor às escovações. Sem dentes não somos nada, quero dizer, até somos, mas banguelas. Agora você vem perguntar o que aconteceu com o prato que atirei para fora não é mesmo? Responderei então. Os vizinhos já estão acostumados com as coisas que arremessam no terreno do prédio deles. Nem ligam mais. Satisfeito com a resposta? Ótimo! Porque mesmo que não tivesse gostado não teria outra para substituir esta.


Mesmo sem razão para abrir a boca, eu abri. Mesmo sem razão para sorrir, eu sorri. E, mesmo sem razão para falar, eu falei... bosta, logicamente, mas falei.
Mario Bourges 18:42 [+]
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Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006


Ultimamente não tenho feito outra coisa senão reclamar da vida e coisa e tal. Decidido por fazer algo diferente resolvi comprar alguns livros para assim poder ampliar meu leque literário. Além do quê, meu estômago começou a dar sinais de ardência... Dor, sei lá, durante a semana que passou. Casos que decidi dar um tempo para as bebidas. Tudo bem, isso é até válido. Mas quanto à parada repentina, é momentânea, sei disso, e creio que todos vocês também sabem disso, em breve voltarei com força total para esta atividade. Porém, agora, deixe-me continuar com minha narração.

Depois de horas parecendo uma palmeira plantada no meio de uma livraria consegui, e ainda meio que sem ter certeza se era isso mesmo que queria, comprar três livros para uma semana cultural regada com livros. E só os livros serviriam para incrementar meus dias. Pelo menos desta semana. Então, feliz com minha aquisição resolvi mostrar meus novos passa-tempos à Olga, para ver o que ela falava, talvez esperando uma segunda opinião. Ou ainda, quem sabe, esperando um elogio ou qualquer outra bobagem que enaltecesse meus atos insólitos. Só por desencargo de consciência. No entanto, teria uma outra coisa a se fazer antes de começar com a leitura desenfreada, comprar uma lâmpada mais forte para colocar na luminária da cabeceira da cama. Coisa que também já tinha feito depois da compra dos livros. Sujeito prevenido eu, heim! Também penso assim.

Contudo, veja só você, sinto dificuldades no momento de me concentrar. Ater-me à leitura requer um árduo exercício de esquecimento do mundo exterior. Um problema para mim, no meu ponto de vista, pois assim que decidi me aninhar na cama e me dedicar à leitura a um dos livros de Hemingway o telefone tocou. Não atendi, claro. Depois veio o gato pular em meus pés, e, de imediato levou uma pesada que o fez parar longe. Em seguida veio o cachorro, todo lambão, me perturbar. Mas que também foi fácil de tirá-lo da cama, e com o próprio livro desferi uma porrada na cabeça do bicho, que saiu assustado para debaixo do sofá... Assim penso.

Quando pensei ter dominado meus devaneios em assuntos que nada tinham haver com a leitura, que até hoje nem sei o que o livro conta, o pessoal do apartamento vizinho ao meu começou falar alto, batucar no fogão ou coisa assim. Pronto, pensei. Estou aqui, novamente, com os olhos perdidos em cima do livro. Daí resolvi que iria esperar todos dormirem para que eu pudesse ler o raio do livro. Muito bem. O problema foi que quando eles pararam com a algazarra já passava das duas da madrugada. Meus olhos, que estavam lacrimejando, não enxergava mais nada além do travesseiro e do lençol, que faziam movimentos semelhantes às ondas do mar, que, de maneira hipnotizante me atraiu para uma ligeira nadadinha. Obviamente que não recusei a tais apelos, pois já até conseguia ver uma sereia rebolando aquela bunda cheia de escamas sobre meu colchão.

De manhã, ainda tonto e molhado de suor, acordei todo embolado no lençol e segurando o livro com as duas mãos. Nem me lembro o que sonhei, e também nem faço questão disso. Mas tenho a impressão de que estava bom. Todavia, não havia nem começado a ler o livro, e isso porque os vizinhos não me deixaram exercitar o prazer da leitura. Vizinhos estes que são proprietários de um jornal... Melhor dizendo; um pasquim, que almeja ser um jornal um dia. Muito cultos que são, assistem aos telejornais e ficam satisfeitos com as notícias que recebem. Depois tecem um comentário estúpido, dizem amém para o que ouviram e depois dão boa noite para o jornalista e vão dormir. E durante esta besteirada toda ficam com o som do aparelho de tv alto e batucando pelas paredes de seu apartamento, e que toda essa bagunça acaba passando para meu apartamento. Depois dizem que eu é que sou chato ou coisa parecida.

Quanto ao livro... Vejamos; eu ainda não comecei a ler, nenhum dos três. Primeiro porque sou desatento, perco-me facilmente na leitura. Segundo porque os bichos aqui de casa insistem, digo, adoram me atrapalhar, faça o que for fazer tem sempre um animal desses querendo me atrapalhar. Bom, pelo menos ainda gostam de mim, mesmo que seja do jeito deles. E para finalizar, o terceiro item desta lista estúpida, porque meus detestáveis vizinhos não me deram trégua uma só noite desta semana. Ficaram tecendo seus comentários nada pertinentes aliados às notícias quase nada inteligentes da tv. Pensando bem, até que eles se combinam. Um pasquim que observa o jornalista da noite dar sua notícia, depois eles, os donos deste maldito pasquim elaboram suas idéias um tanto quanto reacionárias, e depois põe a notícia como eles gostam de dar; cheio de opiniões próprias. E daí, no outro dia os leitores deste jornaleco irão ler e certamente irão dizer: "Mas bah, tchê! Tu viu esta?" Ah! Este meu atual bairro me deixa com os cabelos em pé e o estômago ardendo.


Nos livros é que encontro a maneira para manter minha memória funcionando deste jeito que todos vocês já conhecem. Infelizmente não tenho a capacidade de imersão total neste mundo de leituras, me perco facilmente disso tudo quando escuto ruídos. Principalmente quando esses ruídos vêm do vizinho.
Mario Bourges 14:38 [+]
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Sexta-feira, Janeiro 27, 2006


Lá estava eu, pronto, mesmo não querendo estar, para ir ao supermercado. Droga! Odeio mercados, ainda mais quando são super. Mesma coisa quando escuto alguém dizer que tal coisa é super bonito de se olhar, ou super caro. Isso já me faz lembrar de mercados. Creio até que pessoas que adoram falar "super" adoram também ir a mercados. Por isso são chamados supermercados. E tal teoria barata me faz pensar que pessoas que já adoravam falar a palavra super antes mesmo dela existir foram os criadores deste tipo de comércio... Sei lá. É tudo suposição, e tola por sinal. Mas de uma coisa tenho certeza, tanto este tipo de comércio quanto a própria palavra são horríveis.

No entanto, não tinha como escapar deste martírio, pois, sempre sou convocado, mesmo que a contra gosto, a participar desta atividade grotesca e tão cheia de vácuos emocionais. Mas o que poderia fazer para aliviar meu corpo e minha mente desta agressão? Nada oras. Então o negócio era relaxar e tentar esquecer o que viria pela minha frente. E nada melhor que uma seleção de boas músicas - que uma rádio nova aí estava tocando - para distrair meus pensamentos escorregadios e propensos a induzir meu corpo, que se induz facilmente, a cometer barbaridades pelos ambientes variados afora. Mas tudo isso, até então, estava servindo para esperar minha senhora a se aprontar com seus quilos de maquiagem, e mais, penteados estrambólicos, e ainda, decidir qual o par de brincos viria a calhar com a roupa adequada para a estúpida prática das compras desenfreadas no estúpido comércio chamado: mercado.

Pois bem; depois de tudo decidido era hora de se perder momentaneamente no tal mercado. Por sorte, minha... Sempre minha, a sobrinha iria ajudar a Olga nas compras. Ótimo! Pensei. Assim poderei fazer qualquer outra coisa que não seja empurrar carrinho. Continuei pensando. Porém, de tanto pensar em fazer isso ou aquilo, ou mesmo não fazer nada, acabei me perdendo do caminho das compras. E o pior de tudo que não foi de propósito. Foi um típico caso de acaso. Coisa perfeitamente aceitável, se partido de mim é claro.

Lá pelas tantas, quando todas aquelas coisas já não faziam a menor diferença para mim, como se algum dia tais coisas fizessem alguma diferença, resolvi procurar um banco ou cadeira para me sentar. Sabe, estava começando a ficar tudo uma bosta só. Eu cansado, com dores pelo corpo todo e louco por algum doce para comer, além é claro, de uma bebidinha, pois com o calor que fazia, mais a aglomeração desmedida de pessoas em um mesmo lugar estava me deixando com um mal-humor daqueles. Então, fora o banco ou a cadeira para sentar, não tinha mais nada o que fazer. A não ser que, logicamente, ficasse apenas a olhar as bundinhas das meninas que trabalham no infeliz do mercado enquanto liquidava com a lata da cerveja mais um pacote de bolachas.

Contudo, era hora de ir embora. Coisa que já estava em tempo de acontecer. Na verdade eu queria sair daquele lugar a qualquer custo porque um engraxate maldito já estava de olho em meus sapatos. Eu podia ver isso, eu podia sentir isso em sua respiração suada e ofegante que exalava à graxa. E, felizmente, assim que vi a Olga e a sobrinha pagando a bagulhada no caixa fiquei em pé como se ainda fosse um militar na ativa, parecia até um mastro com uma bandeira em dia de ventania, e não menos louco para cair fora daquele lugar horripilante... Como é? Quer saber como é um mastro com uma bandeira em dia de ventania? Oras, só me faltava esta. Quer saber como é isto? Então procure um negócio desses e fique observando a porra toda balançar com o vento. E tem mais uma coisa: não me encha o saco porque não estou muito bom para conversa mole. Então ficamos assim; até a próxima semana.


Quando estou no meu canto não gosto que ninguém chegue perto de mim... muito menos engraxates, pois eles me aborrecem profundamente.
Mario Bourges 23:05 [+]
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Segunda-feira, Janeiro 23, 2006


Nesses dias da semana calor excessivo imperou por estes lados do mundo. Pensei que fosse virar uma geléia pelo calor fora do comum. Juro que cheguei a me sentir como uma recepcionista de alguma repartição pública ou de algum hospital público de tão mole que fiquei. Com meus olhos no fundo e a boca pendendo para um lado qualquer do rosto eu ia me arrastando pelas ruas quase que por instinto. Simplesmente porque não queria, digo, não conseguia ficar dentro de casa. De tão abafado que estava lá. Para você não pensar que estou exagerando; num dia desses aí eu cheguei em casa tombando de cansado, e nem era por caminhar muito ou coisa parecida, pois fiquei embaixo de uma sombra de marquise de um bar por quase toda a tarde. Continuando; então cheguei e me deparei com uma cena bizarra, o vira-lata com a bunda virada para a janela para ver se refrescava um pouco. O gato tentando abrir a geladeira com a ajuda de duas cadeiras. Juro que até me deu vontade de ver como ele faria isso, mas estava sem paciência para tal coisa. Agora o que mais me impressionou foi um bando de insetos sentados na beira da janela da área de serviço mamando, entre um gritinho e outro de felicidade, em uma lata de cerveja que eles próprios carregaram. Não sei como isso é possível. Mas que vi, ah! Isso eu vi. E também posso garantir que eu não estava bêbado, mesmo que as evidências fossem claras de que eu estivesse.

Bom, de qualquer forma, o calor estava tão grande nesses últimos dias que alguns cozinheiros malucos de alguns restaurantes também malucos resolveram, como sendo uma maneira maluca de incrementar ainda mais seus pratos malucos, preparar a comida nas calçadas em frente aos estabelecimentos. Logicamente que a idéia não foi assim tão boa quanto eles pensavam, mas valeu a tentativa... Para eles, claro. Porque para mim, nem de graça comeria uma comida daquelas feita em um chão onde todos pisam, cospem, mijam ou sei lá mais o quê. Sei... Agora você quer saber o que fiz quando vi os insetos bebericando minha cerveja não é mesmo? Oras! Fiz o óbvio; deixei cair um gole onde eles estavam para satisfazer essas criaturas, que, mesmo sabendo que são umas pragas dentro de nossos lares, ainda têm senso de humor e bom gosto... Talvez não tenha assim tão bom gosto quanto penso, mas de qualquer forma tentei satisfazer a vontade dos bichinhos. Porém, depois que derramei um pouco da cerveja acabei afogando todos eles. Mas também, quem foi que mandou ficar ali, de bobeira. Se fossem espertos de verdade levariam a lata da cerveja para um lugar mais seguro. Então, me sentei na minha horripilante e fedorenta poltrona, mas não sem antes pegar mais uma lata de cerveja, pois aquela dos mosquitos já estava acabando. Ah, que calor! Pensando bem, seria melhor pegar mais uma lata de cerveja... Sei que já peguei mais uma, mas o calor estava de lascar. E além do mais era só por garantia, nem iria tomar esta outra cerveja... Está bem, eu menti, tomei tudo sim. Até a próxima.


Aqui, como disse há pouco, está um dos insetos bêbados que estava matando minha cerveja. E depois de ficar doidão resolveu comer umas folhas para quebrar o efeito do álcool, talvez. Sei lá, que entendo eu de insetos oras.
Mario Bourges 22:26 [+]
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Segunda-feira, Janeiro 16, 2006


Puto da cara acordei por esses dias, e veja se não tenho razão; após uma pequena, mas maravilhosa temporada que passei na Ilha do Mel aproveitando o que a natureza tem de melhor, chego no bairro onde moro e vejo tudo como estava antes; barulhos, gritos, som alto e peidos barulhentos... Êpa! Este é meu. Bom, esqueçamos os peidos barulhentos. Continuemos então. E para melhor situar vocês neste contexto quero narrar como foi uma de minhas manhãs. Primeiro de tudo foi o incômodo de rolar na cama grudado nos lençóis da cama, devido ao calor excessivo logo de manhã cedo. E depois, acordar oficialmente, com um carro velho que anunciava as várias qualidades de sonho que tinha para vender. Além das várias maneiras de se efetuar a tal venda.

Então, ainda deitado e envolvido em lençóis fiquei prestando atenção na voz cansada e aborrecida que saía dos autofalantes. Objetos estes que estavam localizados acima do carro, que também estava cansado e aborrecido por estar vendendo alimentos ao invés de estar na praia carregando a mulherada. Bom, mas a voz dizia assim:
"Atenção, atenção! É o carro do sonho que está passando. Temos sonho com recheio de nata, de creme, de creme de leite, creme de avelãs, creme de aspargos e de creme de crème. Temos ainda, se preferir, com recheio de morango, de chocolate, de chocolate suíço, belga, e de chocolate aerado. Além é claro do tradicional doce de leite, que poderá ser acompanhado por um queijo Minas para dar um toque especial. Opa, opa! Mas o queijo Minas só acompanha o sonho com recheio de goiabada cascão. Há, há! E veja só que facilidades existem para quem quiser adquirir estas iguarias; você poderá pagar com todos os tipos de cartões de crédito, além de cheques pré-datados. Aproveitem! Aproveitem todos, e logo também, pois o carro está desde cedo nas ruas, e isso quer dizer que não quero nem saber se esses doces começarem a derreter devido a este sol do cassete que já está me queimando aqui dentro deste carro de merda".

Com essas palavras fiquei tomado por uma vontade quase infantil de querer comprar umas coisas dessas para comer, mas estava um tanto quanto difícil para efetuar a compra daqui de cima. Então saí na janela; gritei, farfalhei, esgoelei-me até ficar sem voz. E numa tentativa desesperadora arremessei um pé de chinelo lá para baixo na esperança de chamar a atenção do vendedor. Porém, tive de tomar cuidado para não acertar o carro em cheio, este ato poderia ser danoso à lataria do automóvel, isto certamente poderia desmanchá-la por completo. No entanto, ao arremessar o tal chinelo eu errei feio. Joguei-o tão longe que foi parar dentro de um outro apartamento do outro lado da rua. Penso que deveria ter filmado isso até, acredito na hipótese de que não é todo dia que alguém faz este tipo de coisa.

Toda via, isso não tinha me intimidado. Eu ainda continuava desesperado por um daqueles doces. E estava disposto a descer, se fosse realmente necessário, até lá para comprar uns sonhos. Mas veja só que ironia; no apartamento que eu acertei o chinelo apareceu um gordão na janela, semi-nu, com cara de furioso segurando o calçado em uma das mãos e gritando algo que não consegui entender. E pensando bem, nem fiz questão de entender, pois, pela cara e a aparência do sujeito certamente não seriam coisas boas. Olha; de certa forma foi muito bom ter acontecido isso. No bom da verdade nem estava com vontade de comprar essas coisas mesmo. Porque lembrei que não gosto de sonhos. E depois porque o chinelo, pelo que pude perceber, estava com marcas de bosta e mijo de gato. Coisas fedidas por sinal. Sendo que também joguei o outro pé, mas aí foi pelo modo mais conhecido: no lixo. Mas tudo bem.


Mario Bourges 15:29 [+]
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Terça-feira, Janeiro 10, 2006


Depois de toda essa baderna de início de ano resolvi carregar a todos da minha família para um lugar onde tivéssemos tranqüilidade. A praia seria um ótimo lugar. Sabe, sempre carrego eles para o litoral... Quando estou de boa vontade, claro. Então, munidos das velhas tralhas tradicionais para essas localidades partimos, socados, no velho fusquinha, rumo à praia de... Qualquer praia servia, pois eu queria esquecer de todos esses vizinhos que nem conheço ainda, mais aqueles meus conhecidos. Afinal de contas é preciso dar um descanso para a situação de vez em quando. E, amontoados com tudo quanto é tipo de porcaria no carro seguimos caminho.

Depois de algumas horas queimando o braço e o pescoço no sol, mais uma sacola que vinha equilibrando em cima de minha cabeça, de tão apertada que estava a situação dentro do fusca, decidi parar no primeiro lugar que parecia ser agradável. Mas isso também depois de ficar perdido por um tempo. Então paramos diante da barca que nos levaria à Ilha do Mel. Tudo bem, sei que estava fedendo alguma coisa naquilo tudo, mas parecia ser muito bom depois que saísse daquele lugar de embarque. Por sorte minha escolha foi acertada. Isso queria dizer que minha intuição ainda funcionava, e meus sentidos, que nunca soube defini-los de maneira adequada, ainda estavam lá. Mesmo que um pouco atrofiados.

Pois bem, meia hora mais tarde estava nós, procurando algum lugar para ficarmos. E, entre tantas pousadas existentes ficamos numa lá que nos deixou aterrorizados pela desorganização existente. Além das brigas que volta e meia aconteciam. Mas como fomos com a intenção de nos divertir quase não ficamos naquele lugar abominável. A prova do que estou falando pode ser percebida facilmente em meu semblante magro, por falta dos freqüentes quitutes que estava acostumado a comer, e esturricado pelo sol excessivo que não me deixava em paz um só instante. Por minha felicidade não fui privado das minhas latas de cerveja. Coisa que era fácil de ser encontrada por lá.

Bom, lá pelas tantas, após uns dias andando ao léu, ora no meio do mato e ora tropeçando pelas areias das praias, e com a mente arrotando cerveja com pepino e camarão com gosto de qualquer outra coisa que não fosse camarão, resolvi sentar na água, no rasinho, para pensar um pouco na vida e coisa e tal. Porém, creio que nem preciso dizer que acabei adormecendo enquanto observava umas ilhas no meio do mar. Mas só percebi que tinha dormido depois que acordei num vai e vem constante de... Não! Não era só das ondas que iam e vinham sem parar, era de mim mesmo também. Que rolava para o fundo e para o raso em movimentos descontrolados. E isso aconteceu por um bom tempo, pois não tinha ninguém lá além de mim.

Minha sorte, por incrível que pareça, e acreditem nela ou não, foi aparecer um bando de urubus no local. Como eles pensaram que eu era um bicho morto vieram para me devorar. Então eles me puxaram para a areia para melhor beliscar minha pele levemente flácida. Porém, o que não eles não esperavam aconteceu, eu me levantei peguei um punhado de areia nas mãos e taquei em todos esses malditos animais agourentos. E depois desta história fantástica corri o máximo que pude para perto da Olga e das crianças. Mas isso claro, entre um tombo e outro, porque minhas pernas não têm tanta firmeza assim a ponto de correr pela areia fofa sem cair um único tombo sequer. E depois disso tudo fiquei mais calmo. Andei apenas por onde tinha gente circulando, e ainda pela sombra, pois não queria me queimar. Mas, assim mesmo, não deixei de tomar minhas cervejas. Êta vida boa essa.


Aqui, enquanto eu rolava de um lado para outro, eu vi, mesmo não acreditando no que via, essas moças fazendo coisas de moças, porém, no fundo do mar. Ai, ai, essas bebedeiras ainda vão dar o que falar.
Mario Bourges 14:53 [+]
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Segunda-feira, Janeiro 02, 2006


Todo o começo de ano é bacana, e ao mesmo a mesma encheção de saco. Encontramos sempre as mesmas pessoas e comemos sempre as mesmas coisas, e o pior, coisas que não condizem com a época do ano para nós brasileiros. Mas não é disso que quero tratar agora. Com tantas mesmas coisas acontecendo, e ao mesmo tempo, não acontecendo numa época só... Hum... Teria de acontecer algo novo... Digo isso todo ano também. Bosta. É sempre uma bosta tudo isso, quase nada de novo é possível ter nesta data, mas é melhor prosseguir com a narrativa, porque senão me aborreço de uma vez e não conto mais nada.

Veja; creio que me enganei sobre uma coisa. Para este ano tem coisas novas acontecendo sim. Primeiro porque me mudei de bairro, e que meses morando aqui ainda não consegui me achar por completo. Vivo me perdendo pelas ruas. Depois acabei enco trando o Coronel Beleléu... Sei que não foram lá grandes coisas tudo que contei até agora, mas hei de melhorar daqui por diante. Lá pelas tantas comprei um dito computador. Sei também que a retrospectiva do meu ano está um tanto chocha, mas até agora foi o melhor que consegui. Sendo assim, passamos adiante.

Todos de casa, para variar, estavam animados, inclusive o cachorro e o gato. Bom, este último não estava tão alegre assim porque se encontrava com diarréia. Era possível ver em sua cara chocha que o dia para ele também estava chocho. Mas também querem o quê? Deram aquele monte de coisas do Natal para os bichos comerem, e aí, deu no que deu. Por que o cachorro não passou mal? Oras! Porque ele é acostumado a comer de tudo, o bicho é lambão demais. Mas tudo bem. Prossigamos então; com a casa limpa e perfumada, no duplo sentido, pois a onde ia o gato um cheiro estranho surgia. Mas isso também poderia ser muito bem por conta de meu cunhado, aquele pseudo-inglês. Durante todo o ano ele se comporta como um britânico, mas quando vêm as festas de fim de ano ele desconta tudo o que não fez.

Então estavam lá em casa para a passagem de ano a dupla esquisita, o Azambuja e sua esposa, que ambos conseguem atormentar a todos com seus atos irritantes e incessantes de perfeccionismos, o Pereirinha com sua nova namorada e o filho espoleta, que não pára um só instante, o Adalberto e seu fantástico rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves, que nos brindou com uma seção de czardas húngaras, o Beleléu e suas vontades incontroláveis de querer tirar vantagem em tudo, minha irmã e seu marido naturalmente gaseificado, a Olga fazendo milhões de doces, salgados, além das coisas moles, duras, azedas, amargas, líquidas, gasosas, grudentas e outras inutilidades que ninguém quer saber de comer, os netos que sempre não fazem nada, e a minha linda sobrinha que vai no embalo deles e acaba não fazendo nada também. Ah, claro, o cachorro lambão e o gato esguichando merda para tudo quanto é lado. Quanto a minha filha... Estava tentando tirar meu genro de uma delegacia qualquer no interior do Paraguai. E logicamente eu, acompanhado de minha barriga, minha fiel companheira.

Quando deu meia-noite todo mundo quis subir na mesa pra festejar, e aquela besteirada toda. Quase afundamos a mesa e o prédio inteiro com esta ação. A vizinha do andar de baixo e o vizinho de baixo desta vizinha ligaram para reclamar da zona que estávamos fazendo, pois eles não conseguiam ouvir a maldita contagem regressiva naqueles estúpidos programas de tv, e também não conseguiam prestar atenção naquela imbecil chuva de fogos na beira da praia. Não contentes com os telefonemas resolveram bater à minha porta. Todos, eu disse todos eles, ficaram de prontidão na frente da minha porta. Porém, assim que abri a porta para atender essa gente toda caíram fora rapidinho. O aroma que exalava da sala onde estávamos, por causa do gato e sua diarréia, meu cunhado que tira essas épocas para aliviar sua barriga, e falando em barriga... A minha também quis se aliviar naquele momento. Sendo assim, todos, eu disse todos, que estavam ali fora se mandaram. Os de dentro de casa não fizeram nada porque já estavam acostumados ao cheiro.

Então, depois de beberem e comerem bastante os convidados e auto-convidados foram deixando o apartamento em direção às suas casas. Pelo menos é assim que penso. Bom, deixe-me ver, o Azambuja certamente iria para casa, mas se bem conheço ele provavelmente deixou que sua esposa dirigisse o carro enquanto voltaria para casa a pé contanto os postes, ou arrumando as garrafas que foram jogadas nas ruas de uma forma que facilitasse os garis do caminhão de lixo. O Pereirinha deixaria seu filho em casa para dar uns catos na nova namorada em algum outro lugar mais reservado. Este sim sabe aproveitar os momentos da vida. O Adalberto voltaria com seu rádio desligado para casa, pois o motorista do ônibus não permite que ele viaje com um rádio daqueles ligado e incomodando os outros passageiros, mesmo que dentro do ônibus só esteja ele e o motorista apenas. Já o Beleléu pode dar uma corrida assim que sair do meu prédio e pronto, lá estará ele tentando passar a conversa no primeiro otário que encontrar no boteco da esquina.

Agora, eu e minha família ficamos em casa, assistindo aquelas bobagens que passa na televisão. Com pouca animação, mas também sem vontade de ir dormir. Porque os pensamentos do pessoal daqui são os mesmos: "pra quê dormir"? Bom, enquanto isso, o computador, que ficou ligado desde dois dias antes do reveillon até agora, só passa filme de sacanagem, mas está difícil o acesso até a máquina, pois o gato e sua implacável diarréia não pára de lambuzar as paredes, os pés das cadeiras e das mesas, os sapatos e os chinelos com sua merda. Ô gato miserável. Se ele continuar deste jeito vou ter que largar o bicho num veterinário qualquer pra dar um trato nele.


Para vocês terem uma idéia de como estava a situação do bicho, heis aqui uma imagem do nosso gatinho. Sem forças, sem ânimos, resumindo; sem nada de bom para oferecer neste começo de ano.
Mario Bourges 13:29 [+]
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Sábado, Dezembro 17, 2005


Esta semana resolvi me aquietar em casa, ficar em frente ao televisor, e ao mesmo tempo, tentar desenvolver a prática da paciência. Claro que para alcançar a almejada paciência, coisa realmente difícil para mim, pois isso é quase uma dádiva, no meu ponto de vista, teria de estar munido com alguma coisa que me distraísse nos momentos de intervalos comerciais, ou mesmo na hora do programa, como por exemplo: uma, ou duas, maravilhosas latas de cerveja. Talvez essas coisas bastassem para amortecer o cérebro. Sabe; querer me dedicar inteiramente a essas programações bizarras sem apoio técnico é quase impossível. Ainda mais agora, que é Natal.

Bom, então começou um programa qualquer numa emissora também qualquer, e sabe, como já imaginava o tal passa-tempo não tinha nada de divertido, pelo menos para mim. Apesar de a apresentadora e suas convidadas ensinarem como fazer deliciosos pratos, saladas e sobremesas não estava interessado em assistir aquela chatice. Casos que fiquei ali, sentado, como se alguma coisa boa estivesse para acontecer. Porém, a sensação não passou de bobeira minha, pois só aparecia, entre um bloco do programa e outro, durante os intervalos comerciais, Papai Noel pra cá e Papai Noel pra lá. Um porre! Aliás, todo final de ano é um porre. Mas continuei ali, sentado. No entanto, resolvi pegar o rádio do Adalberto que ainda estava em casa para ouvir alguma coisa. Talvez, ou certamente, conseguisse diversão de verdade.

Enquanto ouvia um tal de Paolo Conte eu coçava minha barriga na maior paz do mundo, e ainda, tomando minhas cervejinhas. Lá pelas tantas eu e a minha barriga dormimos. E estávamos sozinhos em casa. Ninguém quis ficar comigo neste dia chato de Natal. Quero dizer, eu é que não quis sair com o pessoal para a casa não sei de quem. São muitos chatos... Todos eles. Então preferi ficar e me divertir sozinho, ou pelo menos, se não fosse me divertir ficaria com a mente e a barriga tranqüila no conforto do meu lar, sem precisar me estressar com pessoas que querem puxar meu saco mesmo sabendo que eu não gosto delas, e vice-versa.

Lá pelas tantas, depois que acordei, vi um sujeito gordo despencando de um negócio no céu e caindo no terraço de um prédio vizinho. O tal Paolo Conte tinha cansado de cantar no rádio. Já era tarde da noite, mas eu e minha barriga estávamos sem sono e sentados na poltrona que cheira a cerveja, a peido e a substâncias desconhecidas. Quero dizer, até são conhecidas, mas quero fazer de conta que não sei de nada, senão fico nervoso de estar sentado ali. Continuando; de repente o mesmo gordo começou acenar para cima e gritar algo também. Confesso que aquilo me chamou a atenção, pois não é todo dia que alguém desce no topo de um prédio daquela maneira e depois fica gritando pra cima. Mas isso não era tudo, passados alguns segundos uma coisa veio em sua direção, do céu também, mas este negócio não caiu no prédio, veio voando... Sei que parece loucura isso tudo. Se por um acaso exagerei na cerveja? Lógico que não, eu realmente vi esta coisa acontecer.

Porém, uma coisa mais estranha aconteceu; na mesma hora que eu via aquilo acontecer no prédio vizinho, de um momento para outro não vi mais nada. Não, não foi a prova cabal de um estado total de embriaguez, nem parcial, mesmo porque já tinha passado o efeito das cervejas com o cheiro horrível que minha poltrona produz. Oras... Deixe-me continuar com esta merda. ... Ã... Então; ah sim, quando pensei que tivessem ido embora ele fez uma manobra estranha e bateu de lado no prédio onde moro, e isso fez tremer tudo, inclusive minhas pernas. Se falar que não estarei mentindo... É isso, fiquei com medo sim. Mas também já passou esta sensação boba. Porém só passou depois que o tal sujeito, depois que se espatifou na parede com sua coisa voadora, veio até minha janela e pediu para que eu abrisse.

A princípio pensei em não abrir. Na verdade não estava com vontade conversar com ninguém neste dia. Inclusive com tipos estranhos como este. Contudo, vendo que o cidadão tinha uma coisa... Uma caixa nas mãos, e ainda fazendo menção de que era para mim eu fiz um esforço e abri a janela. Pensando bem; não quis ser mal educado, pelo menos desta vez não. Quer dizer, nunca sou mal educado, sou apenas mal interpretado pelos outros que gostam de arreganhar a boca e mostrar os dentes para mostrar que estão felizes, e ainda dar tapinhas nas costas como ato de amizade. Na minha opinião isso é coisa de... Sei lá o quê. Pra finalizar; depois que recebi o presente eu agradeci, claro, e aí então fechei a janela. Sabe; queria voltar para minha poltrona. Já estava cansado de ficar olhando aquela bobajada toda pelos céus.

Mais tarde abri o embrulho para ver o que era. Não entendi o que era o tal presente, mas como ganhei, dane-se. Já o bilhetinho dizia que isso era coisa de Papai Noel. Tudo bem, pensei com minha barriga ainda estufada, porém, esvaziando gradativamente com os peidos expelidos sem controle. Provavelmente isto deve ser alguma brincadeira de algum parente ou algum amigo. Continuei pensando enquanto alisava minha barriga com uma lata vazia e levemente amassada por mim, que descuidadamente acabei por sentar em cima dela. Mas nem liguei, massageei minha barriga por mais alguns segundos e depois fui dormir com aquela lembrança sem par. Ah! Antes que me esqueça; Feliz Natal a todos.


Um sujeito como este deveria aprender a manejar melhor suas máquinas, senão corre o risco de cair e se machucar. Mas também se quiser o azar é dele.
Mario Bourges 00:06 [+]
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Sexta-feira, Dezembro 16, 2005


Diabos! O telefone está tocando novamente. Será que ninguém vai atender isto? Pensei. Justamente agora que me acomodei na minha poltrona com uma garrafa de cerveja long neck e um copo... Que não me servirá para nada, pois pretendo tomar a cerveja na própria garrafa.
-- Diabos! O telefone está tocando novamente. Será que ninguém vai atender isto? Bradei para quem quisesse ouvir.
-- Pois então descole esta bunda mole de onde sentou e vá atender. Disse-me tranqüilamente a Olga.
-- Sendo assim... Azar! Acabei de sentar. Estou cansado. Falei assim para quem quisesse ouvir. Neste caso, a Olga. Contudo, o telefone não parou, e pelo jeito jamais iria parar de tocar.
-- Bosta! Pare de tocar! Assim que terminei de fazer meu pedido o aparelho parou de gritar. Aquilo, se continuasse desta maneira estouraria minha cabeça, ou fundiria meus miolos, ou as duas coisas juntas, ou, na pior das hipóteses, ficaria com dor de cabeça... Ah, deixa pra lá.

E quando estava pensando, após muitos cálculos de distância, velocidade e tempo, em pegar o controle remoto para ligar a televisão e ver que imbecil programa estaria sendo transmitindo a merda do telefone começou a tocar de novo. Diabos! Pensei. Vai começar esta porcaria a me incomodar novamente? Continuei pensando.
-- Olga! Atenda isto aqui antes que eu quebre, ou jogue pela janela, ou as duas coisas juntas.
-- Não precisa se incomodar, pois se quiser eu te quebro a cabeça e o teu corpo com este aparelho de telefone e ainda jogo você e esta merda que não pára de tocar juntos lá pra fora, e ainda, para completar, vou te ajeitar em cima daquele monte de papel higiênico usado que está queimando agora, tudo bem? Disse-me assim com todo o cuidado que tem para escolher as palavras.
-- Não precisa ser assim tão bruta, só apenas expus meu pensamento oras. Disse-lhe indignado.

Mulheres! Sempre tão incompreensíveis, pensei. Basta uma palavra que não lhes agradem para nos cortar em pedaços, destrinchar nossas mentes com pressões psicológicas, nos diminuir diante de outras pessoas através de palavrões, e ainda dilacerar nossas carnes sob o sol para que as moscas venham nos comer enquanto riem de nossas caras. E tanto as moscas quanto as mulheres vêm rir de nossas caras em uma hora como esta, continuei pensando. Mas tudo bem, procuro não dar atenção para esses discursos de feministas malucas. Também nem sei se isso é discurso de feminista, e também não quero nem saber. Não me interessa. De repente; o telefone está lá, se esgoelando novamente, e ninguém, eu disse, ninguém para atender. Eu? Não me sinto disposto para essas coisas. Sabe, todo final de ano me acaba de verdade.

No entanto, vendo que ninguém, eu disse, ninguém, se habilitava a atender este maldito eu resolvi ver quem estava chateando... Claro que muito à contra gosto, e ainda, puto da cara, pois não gosto de atender telefones. Ainda mais quando estou ocupado com nada para fazer. Realmente isto quebra minha concentração quase milenar de ocupar a mente com besteiras, com isso, certamente, não sobra tempo para fazer mais nada nesta época do ano. Com isso, evito perder meu tempo precioso com programas de auditório estúpidos, ou qualquer outro programa, também estúpido, que por acaso venha a surgir na tela do meu televisor. E eu, experiente que sou, procuro explorar ao máximo esta técnica, pois ajuda a passar esses dias infindáveis mais rápidos. Bom... Continuando, e para terminar também; atendi ao telefone impaciente com a mesma destreza que tenho para lavar meu rosto pela manhã, ou seja, nenhuma. Só sei que, depois de alguns minutos tentando escorregar minha mão pela mesinha para atender o aparelho caiu no chão, depois que resvalei meus dedos pela ridícula toalha cheia de bordados e puxei tudo para baixo. Aí então, quando finalmente consegui segurar firmemente o aparelho nas mãos e dizer "alô", a pessoa do outro lado da linha disse: "Oh, desculpe, foi engano". Maldita, pensei comigo. Então voltei para minha poltrona, sentei, soltei uns peidos e fiquei numa boa, enquanto xingava esta pessoa em pensamentos.


Telefone é uma coisa que me dá raiva, ainda mais quando me indigno atendê-lo e descubro que é engano.
Mario Bourges 23:34 [+]
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Quinta-feira, Dezembro 08, 2005


Nesta semana, como já havia anunciado, fui ao bar do Odil para a segunda Baratona acompanhado do Pereirinha e daquele vigarista do Beleléu à tira colo. Bom, o Pereirinha porque realmente é amigo meu, e porque ele sabe que ônibus tomar. Agora esse Beleléu foi junto de oferecido, só porque me encontrou caminhando na rua em direção contrária dos carros. Então ele pensou que eu quisesse me suicidar, ou algo parecido. Vejam só que doido... Eu, pensar em suicídio, vê se pode uma coisa dessas. Mas ainda desconfio que aquilo foi desculpa para ficar na minha cola para ver no que ia dar. Bom, mas... Tudo bem, ele foi, mas nenhum de nós dois deu atenção a ele durante o trajeto.

Então, depois de um tempo no banco do ônibus minha bunda ficou doída, pois tinha momentos que sacolejava tanto que eu não conseguia ficar sentado em um único assento, ainda mais depois de uma freada do veículo, corri sentado pelos bancos por praticamente meio ônibus. Vi um cidadão perder a dentadura com a pancada que deu no cotovelo de um outro que estava em pé. Tive até vontade rir, mas precisava me preocupar em como não parar no colo de ninguém com esta freada brusca. O Pereirinha, ágil como sempre, se agarrou num dos canos e grudou no teto. Este é safo. Quanto ao Beleléu, caiu sentado no chão, e com isso rasgou as calças no fundilho. Mas também nem ligou para este pequeno detalhe. Creio que já esteja acostumado a passar por estas situações e ficar numa boa.

Continuando; depois que tudo isso aconteceu o veículo chegou no centro. Depois disso foi só caminhar umas quadras e pronto, chegamos no bar. Bom, a festa já estava acontecendo, mas procurei não beber muito além dos chopes estipulados, pois sei lá quem me levaria para casa, já que o Pereirinha sempre se enrosca com alguma mulher por aí, e com o tal Beleléu ainda tenho minhas reservas. Porém, assim que encontramos o resto da equipe (Azambuja e Adalberto) esqueci estas bobagens, e procurei separar meu espaço na fila para o ônibus que nos levaria aos bares pré-combinados. Uma coisa que mudou do ano passado para este foram os recipientes para o chope. No ano passado foram usados copos normais. Já este ano o beberrão, e ao mesmo tempo competidor, teve direito à garrafas vazias, que eram enchidas à medida que iam bebendo. Engenhoso, deu um aspecto de profissionalismo ao evento, pois quem via os participantes empunhando uma garrafa já imaginava que estava bebendo de verdade. Não que o copo não passe esta visão... Mas deu um charme especial.

Como eu vim treinando ao longo deste ano consegui uma certa resistência à bebida, com isso consegui superar o previsto para cada um que fez parte da festa. O quem tem de vantagem nisso? Na verdade não muita coisa, pois tomei tanto que nem a resistência foi capaz de impedir as loucuras características desses eventos etílicos. As quedas e os palavrões foram acontecendo naturalmente entre todos os participantes. E das quase cem pessoas do ônibus, os que menos estavam embriagados eram o motorista (ainda bem) e o Odil, que tentava entre suas caminhadas nervosas pelo veículo, e suas infindáveis contagens, tirar seu cavanhaque com um cortador de unhas. Olha, parece que ele não conseguiu arrancar seus pêlos faciais. De certa forma até foi bom, pois poderia se machucar com aquela porcaria na mão.

Agora de resto, fiasco total. Eu, de tempos em tempos tirava a cara para fora e vomitava. Não precisa ficar assustado com a situação, não me lembro de nenhuma vomitada em alguém ou em algum carro. Aliás, não me lembro de absolutamente de nada além de um pessoal se amontoando ora no meu colo, ora do meu lado, ora no chão, e ora acompanhando o Pereirinha em suas manobras radicais, que por sinal não queria saber de desgrudar do teto do ônibus. Agora, com o resto do pessoal que estava comigo não sei o que aconteceu. Também quer o quê? Se nem comigo sei direito dos fatos ocorridos. Mas, tudo bem. Talvez tenha sido melhor assim, pois normalmente as coisas, quando acontecem, não são lá das melhores. Sendo assim, hoje, ainda tonto com a bebedeira, e com dor de cabeça, estou sentado em minha poltrona um tanto manchada de... Não sei o quê, só procurando repousar. O dia de ontem não foi fácil. Mas, remédios servem justamente para isso, melhorar o dia seguinte. Porém, até agora não está resolvendo nada. Enfim... Depois vou ao Odil perguntar como foram as coisas.


Aqui, depois de uma incalculável quantia de cerveja consumida, encontrei um sujeito, triste, desanimado, e ainda pensando como é que poderia fazer para juntar este monte de garrafas vazias. Talvez fosse mais fácil se ficasse apenas com os copos, bastaria lavá-los o pronto, estariam novos e prontos para serem usados novamente. Mas, que se dane... azar o dele. Não sou eu quem vai juntar esta bagulhada toda.
Mario Bourges 22:16 [+]
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Sábado, Dezembro 03, 2005


Vejam só vocês o que agora resolvi fazer esses dias; depois de querer me divertir semanas a fio por aí, mas sem sucesso, agora pude me dedicar a algo realmente importante, e ao mesmo tempo divertido. Como eu não tinha computador, só aquela máquina de escrever barulhenta que incomodava vizinhos, parentes, e a mim mesmo, decidi que seria prudente fazer uso das minhas economias, que por sinal eram poucas, e ficaram ainda mais ralas, para comprar um computador e ficar atualizado com o mundo. Além de eu mesmo poder escrever as coisas que todos vocês lêem semanalmente. Claro que para isso seria preciso ficar, também, conectado naquele sistema de comunicação chamado de... Internet... Isso, Internet.

Muito bem, o técnico veio e instalou o aparelho e a tal da Internet em casa. Que bom, pensei. Porém, pelos olhares dos netos, da sobrinha, da Olga e até dos bichos daqui não seria assim tão fácil de me desligar deles para me esbaldar na tecnologia. O que quis dizer foi o seguinte: provavelmente agora terei pessoas de dentro de casa me bajulando. Penso que talvez a diversão tenha de ser disputada entre a família. Neste caso, eu não quis dividir a novidade com ninguém. Mas para que isso acontecesse teria de haver uma manobra radical. Então, aproveitando a situação de que todos tiveram de sair de casa, eu carreguei, com uma certa dificuldade, o tal computador para meu quarto. Foi cansativo, mas alcancei meu objetivo: ficar tranqüilo no meu quarto sem ser incomodado por ninguém.

Bom, para ficar tudo mais animado levei algumas latas de cerveja para o quarto. Assim poderia fazer sei lá o que na máquina enquanto tomava minha bebida. Veja; foi difícil entender como fazer toda aquela coisa funcionar. Principalmente depois que levei a máquina para o quarto. No princípio, até o momento que o técnico terminou o trabalho, estava tudo bem certinho. Mas depois que baguncei tudo para transportar até meu cômodo para ficar tudo mais cômodo a coisa complicou. Talvez os cabos e fios não tenham ficado corretamente instalados, pelo menos no princípio. Porque depois de algum tempo arrancando algumas coisas daqui para pôr ali tudo se arrumou.

E perdido num mar de teclas eu fiquei por longos minutos, mas continuava lá, escrevendo e cutucando as tais teclas para ver no que dava. Lá pelas tantas apertei um botão qualquer que fez uma pequena gaveta se abrir. Então pensei: como minha cerveja está no chão, longe de meu alcance e suando pelas laterais irei colocá-la aqui. Desta maneira a terei perto de mim e ainda manterei o chão seco. Logicamente que na hora que for dormir, se não dormir de fato, tentarei ler o manual de instruções para saber para que serve esta gaveta. Na certa não é para colocar latas de cerveja, mas como não diz nada impedindo esta minha ação... Azar. Veja; até diz alguma coisa, mas não consigo enxergar direito o que está escrito, e pelo pouco que visualizo só tem números. Então, como não entendo nada disso... Azar.

Lá pelas tantas, todos, parece até uma coisa, mas todos chegaram ao mesmo tempo em casa. Por um lado foi até bom porque no momento em que entraram no quarto eu estava em pé na cadeira num canto, e o computador num outro. Eu? Não tenha dúvidas disso. Eu estava me preparando para tacar as latas naquela máquina estúpida que resolveu pifar, travar e gritar comigo. Mais uns segundos que eles resolvessem ficar fora de casa iriam encontrar um computador em pedaços em cima... Da mesa... Talvez no chão, ou talvez, no pior das hipóteses, lá embaixo, no terreno do lado onde alguns vizinhos costumam queimar papel higiênico usado. Tudo bem, vou resumir. Não me deixaram ficar mais como monopolizador da máquina depois do conserto. E quando eu quisesse usar teria que ter alguém de companhia para assistir as minhas ações. Isto é degradante para mim... Mas aceitei, pois conseguiram sintonizar umas rádios estrangeiras nesta tal de Internet. Agora não preciso emprestar mais o rádio do Adalberto. Se bem que gosto daquele rádio. Então, talvez continue emprestando sim. É isso. Mesmo porque é mais fácil de carregar.


Veja; existem tecnologias que não sabemos como funcionam... o computador é um típico exemplo do que acabei de dizer.
Mario Bourges 21:22 [+]
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Sexta-feira, Novembro 25, 2005


Nesta semana que passou, como não tive nem muitas nem poucas coisas para fazer resolvi descobrir o que tem o bairro onde moro. Este é o tipo de atividade da qual me oferece um único resultado apenas, de que estarei perdido nesta aventura descabida em pouco tempo. Mas pelo menos, nas próximas vezes em que resolver fazer este tipo de coisa terei certeza de que, num futuro muito próximo, estarei perdido. Porém, não mais precisarei ficar desesperado me descabelando por aí, ou xingando todos que vêm em minha direção nas calçadas, pois ficarei calmo, pelo simples fato de já ter vivenciado tal situação tantas outras vezes.

Assim sendo, deixe-me continuar; após ter saído do prédio onde moro procurei ter cuidado em não passar pela frente do bar onde ficam os velhos trambiqueiros conhecidos meus. Taí coisa que não gosto: trambiqueiros e pessoas que não moram comigo me vendo todos os dias. E o que é pior desta história toda é ter de pagar bebidas para esses tipos. Muito desagradável. Mas procuremos esquecer desta parte e continuemos com o relato sem desvios de percursos. Então, com uma olhadela para um lado e uma olhadela para outro enquanto caminhava, estava eu, em poucos minutos, completamente perdido. Incrível como isso pode acontecer comigo. Mas isso não tirou o prazer que sentia em caminhar livre por aí, sem rumo, literalmente.

Depois de ter caminhado algumas quadras fiquei cansado. Também pudera, sei lá por quanto tempo fiquei dando voltas pelas ruas sem saber como me localizar. Mas não estou aqui para me reclamar disto ou daquilo. Casos que, deixe-me continuar com a narrativa; como fazia muito calor resolvi entrar numa porta que estava aberta. Calma! Não costumo entrar em qualquer porta que esteja aberta, aquilo me parecia ser um bar. Casos que fiz uma ligeira e estúpida associação: bar, porta aberta, Baltazar... Tudo haver. E, sendo um bar, o melhor que tinha a se fazer naquele momento seria entrar e saborear uma cerveja.

Ao entrar no estabelecimento me deparei com um, digo, com alguns tipos estranhos. Um com a cabeça apoiada no balcão dormindo de babar, um outro, sem os sapatos, coçando os vãos dos dedos. Coisa fina, pensei. Um terceiro, minúsculo que só ele, parecia até coisa de circo, que desde o momento que entrei, tomei umas três cervejas e fui ao banheiro mijar, até o momento que saí, não parou um só instante de gargalhar. Sujeito engraçado este, continuei pensando. Prosseguindo com a descrição; havia uma coisa que me deixou curioso, pois entre um ovo de codorna e outro (levemente esverdeados por sinal) num pires havia um outro objeto redondinho escuro e que se mexia, do qual só tive ciência depois que foi afugentado por um tapa no vidro da estufa, que não funcionava, claro. O objeto? Um pequeno besouro sendo devorado por formigas.

Parecia tudo estranho, mas o grau de estranheza de tudo aquilo junto não se comparava com o da proprietária do local, ou talvez devesse dizer: proprietário, sei lá. Aquela cara gordona com um sorriso débil em sua boca fétida me causava náuseas, mas quanto a isso era fácil, bastava apenas se afastar dela, ou dele, e claro, não olhar diretamente para ele, ou ela. Tente imaginar a situação; embaixo de um nariz peludo havia um indiscreto buço, que, dependendo de como visse, poderia até dizer que era um baita de um bigode. Bom, só sei de uma coisa; não era nada feminina aquela visão. Coisa que me deixou um pouco intimidado, mas como entrei ali para beber nem dei conta do aspecto da... Do indivíduo que estava atrás do balcão.

Mas, depois de mais umas duas ou três cervejas aquilo tudo deixou de ser estranho aos meus olhos, mesmo porque eles já não serviam para muita coisa, e todos ali ficaram amigáveis. Não! Esta palavra é forte demais para a situação. Digamos apenas que ficaram com suas feições mais aprazíveis. Contudo, era hora de partir, rumo à minha casa lógico. Até porque eu ainda estava perdido. Teria de descobrir o caminho de volta ao lar, e isso poderia levar algum longo tempo, ainda mais depois dessa cervejada toda. Posso dizer que tive uma tarde bacana, regada por bebidas, caras feias e pessoas estranhas, mas, tudo bem, foi divertida. Sabe, sou um sujeito de sorte, pois com toda aquela bizarrice no bar não tive pesadelos como pensei ter na hora que fosse dormir. Mas é isso. Até a próxima.


Sabe, mesmo com esta aparência, a dona, ou o dono do bar, era bem agradável... e bom de conversa. Talvez até volte lá um dia, se eu lembrar como faz para chegar até o boteco.
Mario Bourges 15:34 [+]
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Quinta-feira, Novembro 17, 2005


Aqui, por esses dias, tem feito um calor dos diabos. As pessoas com quem falei, e que por sinal foram muito poucas, também me disseram que não estão mais agüentando com este calorão desmedido. Para vocês terem uma idéia de como a situação está braba, aqui dentro de casa eu tenho circulado apenas de cueca. Porém, parece-me que nem assusta mais este tipo de coisa, pois partindo de mim, tudo pode acontecer. Já as crianças são mais comedidas, se vestem com mais discrição. Quanto a Olga... Ah, ela teve uma criação enérgica em colégios de freiras. Então, procura não se expor à essas poucas vergonhas. Mas, assim mesmo, com todos os seus pudores tem desfilado pelo apartamento em roupas sumárias. Bom, pelo menos depois que todos vão se deitar.

Se bem que nem foi para isso que me indignei a sentar aqui e escrever o que me aconteceu esta semana que passou. Vejamos; depois que me reencontrei com aquele patife do Ermenegildo, mais conhecido como Coronel Beleléu, minha vida aqui no bairro virou uma agitação só. Tenho sempre uma coisa nova para fazer, mesmo que não seja uma coisa boa de se fazer. Enfim, coisas de aposentado. Mas são dessas maneiras que as atividades surgem em nossas vidas. E após escorrer, por derretimento, pelas portas do apartamento, do elevador e da recepção do prédio onde moro de tanto calor que tem feito rumei até o próximo boteco por baixo das marquises, pelas nesgas de sombra projetadas nas calçadas. E fazer o quê? Encontrar o tal do Beleléu, oras.

Chegando lá fui apresentado para um outro picareta do local, e claro, já nos entendemos. No entanto, procurei não me misturar com essa laia. Poderia me dar mal no futuro. Além do mais, basta ter encontrado este milico aposentado no meu bairro para me encher de agitação. Então, depois de algumas cervejas estávamos prontos para bolar uma maneira de ganhar dinheiro mais facilmente. Obviamente que a esta altura dos fatos eu já me encontrava com os pés redondos, de tanto beber. Sendo que nada daquilo combinado de fazer iria ser feito realmente, isso era fato. E a explicação era simples; o esquecimento tomaria conta de nossas mentes vazias antes mesmo que pudéssemos levantar nossas bundas pesadas da cadeira para ir ao banheiro mijar... Nas calças, paredes, e, finalmente, se sobrasse ainda urina para tanto, na latrina.

Quem "adora" nossas reuniões bestas é o proprietário do bar, sempre encontra um jeito de nos tocar do seu estabelecimento antes que resolvamos dar início a uma estúpida competição criada nos tempos de quartel, e que funcionava da seguinte forma: quando nós, ainda jovens, estávamos bêbados, fosse onde fosse, tínhamos de cantar o Hino Nacional, se errássemos a letra, o que sempre acontecia, nós pagávamos em flexões de braço. Mas veja: isso acontecia quando éramos jovens. Hoje, se essa competição acontecesse de verdade nós acabaríamos xingando um ao outro, pois não conseguiríamos nem cantar corretamente nem fazer as tais flexões. Sendo que para flexionar o joelho em qualquer escada já é uma dificuldade, agora imagine os braços em exercícios de força.

Está bem, vou resumir a história; depois que eu já estava babado e com as calças molhadas, frente e verso, fui convencido de voltar para casa. Então um taxista me botou para dentro de seu carro e despejou na frente de meu prédio. Ciente de que eu nem imaginava onde estava tratei de sair engatinhando para qualquer lugar. Como tinha de subir uns degraus até entrar no prédio eu preferi descer. E como descer se ainda nem tinha subido? Penso. Logicamente resolvi me deitar na calçada e dormir ali mesmo. Ainda bem que o porteiro se simpatiza comigo. A prova disto é que ele me colocou, entre um peido e outro, tanto da parte dele quanto da minha, para dentro do elevador. Creio que não preciso ficar me cansando a ponto de relatar o que me aconteceu quando a Olga viu o estado deprimente em que eu estava. Tudo bem, eu conto uma parte. Veja; além das vassouradas nas pernas e na bunda, parei embaixo do chuveiro com uma água fria. Mas... Nem liguei pra isso. Foi até bom para aliviar o calor da semana.


Bêbados, quando estão bêbados, costumam dormir em qualquer lugar. Eu, quando estou bêbado, costumo fazer o mesmo que eles.
Mario Bourges 22:32 [+]
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Quinta-feira, Novembro 10, 2005


Nesses dias estranhos, mas agradáveis de primavera, resolvi sair de casa. Passear um pouco me faria bem. Pelo menos foi assim que pensei, pois ficar em casa me dá no saco. Casos que fui para o ponto de ônibus, talvez quisesse me perder pelo bairro novamente. Mas desta vez seria um pouco diferente e mais fácil o meu retorno; anotei meu endereço completo num pedaço de papel. Assim sendo, nada havia para temer. Todavia, no caminho para o ponto do lotação, encontrei um outro militar aposentado descansando num dos bancos da praça. O nome dele era Ermenegildo, mais conhecido na época por Coronel Beleléu. E, sem despertar suspeitas tentei fugir daquele lugar antes que me visse. Porém, foi em vão. Ele me chamou através de nosso antigo grito de guerra, aí então não tive outro jeito senão ter de ir lá, conversar.

Depois de muito papo furado e sem graça alguma, tanto para mim quanto para ele, resolvemos combinar algo para fazer de divertido. Pensamos por um tempo e tivemos uma idéia que parecia ser fantástica; criar um curso para os moradores do bairro. Mas, um pequeno problema surgiu com esta idéia mirabolante e muito mal pensada, e consistia em apenas uma coisa: ensinar o quê? Bom, depois de mais um tempo analisando as hipóteses, todas sem fundamento, chegamos a uma conclusão. Ensinaríamos aos alunos, se tivesse algum obviamente, a arte de se passar bem quando não tem nada para fazer. Tudo baseado em fatos reais. E ainda, por dois mestres no assunto.

Após quase uma semana de intensa propaganda boca à boca pelas portas de botecos, farmácias e supermercados da região, começaram a aparecer umas pessoas para se inscreverem. E todos portando um dos objetos de maior uso neste curso: um rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves. Claro que eu, digo, o Adalberto, era o único que tinha este tipo de rádio, pois ele fora importado há muito tempo de um grande centro tecnológico do Paraguai, onde fabricou tal rádio com peças importadas da Argentina. Poderia dizer que tal mimo não é para qualquer pessoa, só para ele e para mim, que vivo emprestando dele. Continuando; como sabia que nem todos teriam este maravilhoso equipamento toleramos os inscritos com rádios de ondas curtas mesmo. O importante era comparecer.

Ficamos surpreendidos com tatos aposentados e pessoas de meia-idade batendo em minha porta para participarem do curso. Isso queria dizer dinheiro extra para o Natal, viagens e outras bobagens. Lá pelas tantas, quando a sala estava abarrotada de gente, e uns pisando sobre os outros, a Olga chegou. Assustada, e ao mesmo tempo encolerizada, ordenou que todos, inclusive eu, fossem embora pra rua, e não quis nenhum tipo de explicação. Puxa vida; pensei, ela bem que poderia ser mais compreensiva comigo, ou com as maneiras que resolvo para tirar uns trocados a mais, pois, sem querer, e depois por querer, acabou interrompendo a terceira lição, que no meu ponto de vista era uma das mais importantes do curso. Sei que escarrar o mais longe possível através da janela não é lá a maneira mais agradável, muito menos a mais polida para um cavalheiro, mas e daí? Ninguém tem nada haver com isso nem nada a ver também.

Agora você quer saber por que do rádio, já que nem mencionei nas lições. Pois bem; o rádio serve apenas para dar um tempero nessas lânguidas tardes inúteis de primavera, e depois vem as tardes estúpidas de verão, e assim por diante. Cada tarde com sua característica principal, ou seja, nenhuma. E agora fiquei aqui, sozinho, na esquina, olhando os carros passarem e sem um lugar bacana para ir. Primeiro porque não sei como é que se chega lá, seja qual for o lugar, e depois porque não estou com vontade de sair mais. Quanto ao coronel? Aquele patife? Foi para o beleléu, como sempre fez na hora em que precisávamos dele. Maldito. Bom, fiquei cansado de toda essa bagunça. O pior de tudo que vou ter de devolver o dinheiro a esse povo. Tudo por causa da Olga. Mas também não vou limpar nada lá em casa, caso tenham sujado. Nem lavar o telhado do prédio vizinho... Muito menos pedir desculpas pelo que foi feito. Afinal de contas, nós homens, precisamos nos impor nestes momentos cruciais.


Este era o carro de um infeliz que estava estacionado entre meu prédio e o prédio do vizinho. E como nem todos conseguiam escarrar à longas distâncias acabou caindo um pouquinho dessas nojeiras no veículo. Mas também não quero nem saber disso.

Mario Bourges 17:05 [+]
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Sábado, Novembro 05, 2005


A falta de atividade é um problema que afeta nossas vidas diretamente. A comprovação desta teoria mostrarei agora com uma pérola que me aconteceu dia desses. Hã... Veja: me aconteceu alguma coisa, mas foi decorrência das coisas que não acontecem. Bom, o que estava falando mesmo? Ah, sim; depois de alguns meses socado neste apartamento, só saindo vez ou outra para pegar sol e tomar umas cervejas (terapia ocupacional), a Olga resolveu que tínhamos de sair para passear um pouco, porque até para ela a coisa está feia, neste sentido. Que sentido? A solidão é claro. Sabe, minha senhora também está isolada de suas amigas fofoqueiras neste fim de mundo que ainda não sei, e nem pretendo saber qual é o nome deste bairro em que viemos morar.

Casos que fomos, eu, a Olga, netos, e a sobrinha, e pasmem, até os animais, todos para arejar nossas mentes. Para qual lugar fomos? Oras, esperem um pouco, se contar tudo agora perderá a graça, ou talvez, perderei a linha de raciocínio. Coisa não muito difícil de acontecer. Continuando; meu fusquinha partiu rumo ao desconhecido, sendo que este desconhecido, aos olhares da Olga, poderia ser qualquer casa de amiga ou parente. Contudo, bons ventos sopravam em nosso favor. Isso queria dizer o seguinte: fomos realmente a um lugar novo.

Depois de horas encalacradas neste veículo resolvemos parar numa lanchonete qualquer que estava no meio do caminho. Isso para aproveitar ainda mais a viagem. Sabe, o clima era de descontração entre nós, sendo que, o primeiro grupo muscular a ser descontraído em nossos corpos pueris e cheios de câimbras, foi o da perna. E quando todos, menos eu obviamente, já estavam bem com seus corpos, e querendo se dispersar para as barracas de quitutes e bebidas que tinha espalhado pela região resolvi, que era o momento adequado para catar o pessoal e enfiá-los no carro, pois deveríamos continuar com a viagem, mesmo que sem saber para onde estávamos indo.

Bom; sei dizer que a brincadeira, lá pelas tantas, começou a encher o saco. Nada daquilo que víamos na estrada estava agradando. Quando não tinha muito mato para olhar nos acostamentos da estrada, tinha pequenas vilas compostas por casinhas feitas de sapê. E aquilo durou por umas horas até que chegamos num lugar maior e melhor apresentável. Foi aí que descobrimos onde fomos parar, no litoral. Olha; quando eu estava pensando em voltar encontrei aquilo tudo só para nós. Contudo, o dia estava um pouco frio e ainda por cima nublado. No entanto, assim mesmo nos divertimos. Quero dizer; chegamos a pensar que isso ia acontecer, mas como já falei, o tempo estava estranho, e isso bastou para atrapalhar nossos planos... Bom, nem sei direito do que estou falando, porque até então nada tinha de combinado.

Pelo menos conseguimos alcançamos nosso objetivo: sair de casa. Aquele prédio que nunca consigo encontrar o caminho quando saio para passear, e que ainda não fazemos nada de especial além de ficar, sempre, com a maior e a tradicional cara de bunda. Coisa que, enquanto morávamos na outra casa, apenas eu ficava com esta feição pouco agradável. E agora que chegamos no dito lar estou eu, largado na minha poltrona e com os pés numa bacia de água para refrescar. Sabe, depois que voltamos do litoral a temperatura por aqui ficou bastante quente, e com um grande sol escancarando seus horríveis dentes para mim, mas isso acontece só para me provocar. Quem me provocar? Ah! Sei lá. Não imagino quem teria coragem de fazer isso comigo. Mas é isso. Agora preciso trocar a água da bacia, pois o vira-lata daqui resolveu cagar dentro. E o pior de tudo que o danado quase acertou meus pés com a bosta. Oh, bosta.


Além do tempo não ajudar havia algo na praia que não deixava o pessoal animado.
Mario Bourges 20:01 [+]
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Sexta-feira, Outubro 28, 2005


Estávamos nós, eu, a Olga, os netos, a sobrinha, e os incríveis e estúpidos animais, todos sentados na sala do apartamento. Admirando o nada que botava em várias partes deste ambiente sem graça. Foi aí que lembrei que estava de posse do rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves do Adalberto. Liguei-o então. Sabe, um pouco de distração seria bem-vindo em nossas míseras vidas que traz, timbrado em nossas faces enrugadas e foscas, o nome de todas as telenovelas existentes na televisão brasileira. Assim sendo, liguei o rádio para ver se conseguia alguma diversão.

A princípio foi um fiasco total, e com direito a reclamações e ordens para desligar a porcaria do rádio. Eu, insistente, para não dizer teimoso, continuei com a zoeira, claro. Os bichos que estavam com a maior cara de desânimo saíram em disparada e assustados para fazer seus cocôs, de pânico, em qualquer lugar da casa. Bom, em um dado momento quase desisti de ouvir os chiados e ruídos característicos desses rádios, e minha quase desistência se deu pela enorme quantidade de tapas que levei na nuca e na testa. Confesso que já estava ficando irritado e ao mesmo tempo tonto com toda essa situação, mas como disse há pouco, sou insistente.

Lá pelas tantas, quando estava conseguindo sintonizar algum sinal decente no rádio, tocou a campainha. Logicamente não fui atender, nem deixei que o fizessem. Afinal de contas temos de mostrar aos outros que não somos tão fáceis como pensam. Então, depois dos repetidos toques na maldita campainha e já partindo para pancadas na porta, fui, eu mesmo, atendê-la, pois o pessoal de casa sabe que comigo a conversa é outra. E assim que abri a porta dei de cara com o pirralho do Afonsinho. Ele, para quem não sabe, é aquele típico rapaz que tem um físico tísico, e ainda, usa calças curtas e uns mal acabados borzeguins. Para complementar essa vestimenta bizarra do século XIX ele ainda usa camisa com gravata borboleta, e, por cima de tudo isso, um pulôver, que mais parece uma meia escocesa, de tantos losangos coloridos que há nele.

Continuando; com sua voz rouca e sofrida resmungou: "Papai, que se encontra empenhado em um novo projeto caseiro, pediu-me para avisar que seu rádio o está atrapalhando. Poderia desligá-lo, ou pelo menos baixar o volume?". Eu, após todo esse pedido, senti-me consternado. Contudo lhe respondi, em tom moderado, porque sou uma pessoa bem educada, que ele e o chato do pai dele fossem, juntos de preferência, à p.......que o.......iu. Para quem não conhece; o Afonsinho é filho do Afonso, que é o sujeito mais chato que já conheci em toda minha vida. E antes de bater a porta na cara no guri falei para que o pai dele parasse de inventar estórias sobre novos projetos. Sei que ele não faz nada além de ficar assistindo televisão o dia inteiro com um penico esmaltado ao seu lado para que possa escarrar.

Bom, depois que aconteceu toda essa cena bati a porta e procurei meu lugar no sofá, que de onde todo o pessoal apenas me olhou de cima a baixo e pronto, nada mais. Eles também já estavam embotados, e de saco cheio de tudo que acontecia com eles naquele apartamento. Por um lado até gostei, pois assim ficam sabendo como é que eu vivo neste lugar. Mas também, e pensando bem, nem é bom que fiquem desta maneira, porque o desânimo não deixa a pessoa especialista (Olga) em fazer pudins de leite fazer o meu pudim. E isso não é nada bom. Ah, sei lá. De qualquer jeito nunca é bom para mim aqui. Então, procuro aproveitar que estou de posse do rádio do Adalberto para encontrar uma emissora adequada para me divertir. Sei que a ocasião não é lá das melhores para a diversão, mas quase nunca é. Então, esta é a vida. Até a próxima.


Com esta cena aposto que já conseguiram imaginar como estavam nossas vidas neste dia tão... Puta merda.
Mario Bourges 11:24 [+]
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Sábado, Outubro 22, 2005


Estava eu, neste último sábado, sentado em um estúpido banco de praça, e ainda me lambuzando com uma estúpida barra de chocolate enquanto, imerso em estúpidos pensamentos observava a velharada, também estúpida, que estava por lá. Ora, com tanta estupidez assim não poderia acontecer outra coisa senão ter de voltar para casa, aborrecido, com enfado e embotado. Um possível passa-tempo para mim naquele dia seria assistir alguma coisa interessante na televisão, e nem precisava ser algo mirabolante. Bastava ser simples, porém, bem feitinho, só para mim. Mas as coisas não são como costumamos querer para nós não é mesmo? Assim que adentrei em casa me deparei com minha neta e minha sobrinha esparramadas no sofá, de posse do controle remoto, e assistindo adivinha o quê? Um programa estúpido, claro. Por sorte, minha, recebi um recado, quero dizer, recebi vários recados, todos informando que haveria a festa do terceiro ano de existência do bar do Odil.

Com a mente já boiando em um mar de salivas pensei: preciso ir lá neste exato momento para aliviar meu cotidiano purgativo, e aí poder tomar alguns exemplares daquele chope danado de bom. Casos que, imediatamente (que significa umas duas horas aproximadamente) consegui encontrar minhas roupas adequadas para essas datas. Mas desta vez eu iria à festa um pouquinho diferente. Veja; além dos sapatos gastos, das calças já um tanto surradas, e da camisa preparada para receber, como forma de tratamento, as tradicionais marcas de queimadas de cigarros, charutos e cachimbos, e ainda, o inevitável banho de chope, levaria, como parte da indumentária, um maravilhoso chapéu. Creio na hipótese de que em certas ocasiões são precisos alguns detalhes para sermos destacados em lugares onde há um monte de gente. Mesmo que o tal detalhe (chapéu) não orne em nada com o resto do conjunto (vestimenta).

Voltemos ao assunto então, pois os leitores precisam saber o quão importante é participar dessas festas do Ao Distinto Cavalheiro. E depois de ter me aprontado era hora de ir ao bar. Pois bem, após alguns minutos procurando um ponto de ônibus consegui encontrar uma condução que possivelmente me levaria ao centro. Nada mal, pensei. O problema consistia nesta facilidade de encontrar o tal ônibus. Acredita que demorei um pouco mais de uma hora para conseguir chegar ao bar? Oras, a culpa foi do ônibus que se dirigiu para o lado errado. Mas isso não vem ao caso agora. O que importava para mim era ter chegado são e salvo na festa, mesmo com o pequeno atraso, e com sede, claro. Nem preciso dizer que já tinha encontrado o Pereirinha, o Azambuja e o Adalberto encostados na parede, do lado de fora, com a maior cara de que porre. Quanto ao Odil; assim que cheguei na área vi um sujeito dormindo sentado no meio-fio com dois copos, um cheio de chope e mosquitos, e o outro vazio. Só consegui reconhecê-lo pelo charuto, que estava, milagrosamente, preso na boca. Logicamente que era o Odil, mas ele estava juntando forças para chamar o pessoal. Sim, e para cantarem junto com ele, se conseguissem, o samba que havia composto durante a curta ressonada no chão. Quer saber para quem era aquele copo cheio? Ele havia guardado para mim. Mas os insetos tomaram conta do presente antes de mim.

Para vocês terem uma idéia de como estava a festa; o dono do boteco nem subiu no tradicional balcão para dar seus tradicionais urros de alegria. Ele apenas escreveu em um cartaz, dias antes, a frase: "Viva todos os Distintos Cavalheiros", e se apoiando no barriu vazio de chope levantou o cartaz sem dizer uma palavra se quer. Mas o sorriso estava lá, estampado em sua face. Em compensação... Todos fizeram o mesmo. Trouxeram de casa, cada qual o seu cartaz, claro, e pintados dias antes também, a festiva palavra: "Viva!". Sobre as músicas; eram bem tocadas. Como sempre. A diferença consistia que no dia estavam a postos a banda marcial do Corpo de Bombeiros se revezando com a banda da Polícia Militar para dar alegria ao evento. E entre uma música e outra dessas corporações, o conhecido grupo de choro tocava nossas maravilhosas e conhecidas canções.

Deixe-me terminar logo porque sinto a casa rodar nesta hora. A volta do povo para suas casas, após a festa, foi uma incógnita. Ninguém, incluindo o Odil, sabe como chegaram numa boa em suas respectivas casas. Mas todos sabem dizer que a festança foi das boas. Bom, pelo menos daqueles que conversei ainda lembram do momento em que serviram um grande bolo no meio do bar, e que saiu de dentro dele uma gostosona enrolada numa faixa e rebolando. Depois daí não sei de mais nada. E quer saber de uma coisa? Nem quero saber também. Já chega o que sinto do meu corpo, todo doido. As roupas furadas de queimadas de cigarros etc, etc. Quer saber do meu chapéu? Sei lá onde foi parar. Contudo, parece-me que tirei uma foto tomando chope no próprio chapéu. Mas ainda preciso confirmar esta lembrança quando retornar ao Distinto. Por certo o Odil dever ter esta foto em seu arquivo. Agora me dão licença, pois preciso encontrar uns remedinhos para tomar. Minha cabeça parece que vai explodir.


A festa estava tão animada que nem a mulherada deixou de ir. Fizeram a maior bagunça no lugar também. Ainda bem que compareceram, pois só ficar olhando marmanjo beber é um pé no saco.
Mario Bourges 23:03 [+]
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Quinta-feira, Outubro 13, 2005


Sabe como é a vida de uma pessoa aposentada? Um saco! Por isso mesmo decidiram por mim. Resolveram que o melhor a fazer seria me colocar em uma academia, mexer o corpo e coisa assim. Até no início parecia ser uma boa idéia, mas isso foi apenas no início. Até o momento em que estava fazendo a inscrição estava bom, depois disso a situação ficou feia. Tive até de trocar de roupa, não sei por quê? Estava tão confortável com a minha. Fui obrigado a colocar uma roupa justa para fazer a tal ginástica. Nem preciso dizer que quase morri sufocado com aquela roupa grudada em mim... Tudo apertado... Uma verdadeira bosta. Posso afirmar que estava sentindo dores antes mesmo de qualquer atividade física. Só por causa daquela maldita roupa.

Bom, procurei me conter, pois estava ansioso com a situação. Exercícios, depois da época do quartel, para mim era inédito. Então deveria me acalmar. Sabia que não poderia ser pior que naquela época. Afinal de contas eu poderia fazer esta atividade, que nem sabia ao certo o que estava reservado para mim, numa boa. E ainda, admirando os corpos femininos bem torneados rebolando na minha frente. Oras... Pensei. Tudo bem, então. "Vinde a mim as criancinhas", continuei pensando. No entanto, continuava sufocado, parecia que estava engessado com aquela roupa toda pegajosa. Agora o que mais me chamava a atenção, e creio que nas outras pessoas também, mas com os outros nem me preocupo, era a minha aparência naquela malha justa; parecia uma azeitona preta gigante com braços e pernas, e ambos bem fininhos. Mas para conseguir um pouco de calma, como se eu estivesse nervoso a esse respeito, utilizei-me da frase: ninguém é perfeito. Sei que esta frase serve de muleta para aqueles que não se encaixam em nada daquilo que resolvem fazer, mas pelo menos funcionou.

Nossa! Fiz tanto drama só para o começo da coisa. Deveria ter guardado toda essa indignação para depois das atividades. Porque daí vocês sentiriam mais efeito nessas palavras. Depois que consegui me aprontar, com a roupa e com o moral, fui até a sala onde estava um monte de mulheres e ninfetas. Porém, antes que conseguisse entrar naquela que seria a sala ideal para mim, fui puxado para uma outra sala, que seria para fazer alongamento. Como se precisasse disso para viver... Ã... Veja, ainda era com uma mulher ministrando a aula, mas era de assustar ver todo aquele movimento, de braços, pernas e corpo, se contorcendo de um lado para outro sem desmanchar seu impecável e aterrador sorriso de enfado que permanecia estampado em sua face estúpida. Poderia dizer que tal imagem era, para mim, a verdadeira face do mal. Ainda mais depois que ela resolveu dar atenção especial para mim. Mesmo já sabendo como Ele é, depois de umas conversas lá em casa, gritei para mim mesmo: "Meu Deus! Isso é o meu fim".

Então, de posse das minhas pernas, ela começou a girá-las freneticamente para um lado, enquanto torcia meus braços para o outro lado. Já meu corpo reagia a esses movimentos da maneira que só ele sabe fazer; peidando. Quanto a minha cabeça... Nem sei o que dizer dela. Simplesmente dava sinais de vida através de gritos, todos bem desafinados, claro. Só sei que, depois de uma hora, aproximadamente, a aula terminou. E da mesma maneira fiquei também: acabado. No entanto, a professora, se é que posso dar este título para aquela miserável que me quebrou, saiu assoviando da sala, como se nada tivesse acontecido. Agora, quanto a mim; ah, coitado! Precisei de, pelo menos, umas três pessoas para me desgrudar do chão e juntar meus cacos, ou só juntar meus cacos, ou simplesmente me desgrudar do chão. Ah, tanto faz, minha situação não era das melhores mesmo. E aí, depois desta situação de risco, e ao mesmo tempo tenebrosa em que fui envolvido, minha família acreditou na hipótese de que eu realmente não precisaria de mais dessas seções de tortura. Ainda bem que largaram mão dessas besteiras de físico bonito e perfeito. Hum! Pra que isso? Sabe que depois de umas cervejas toda aquela pompa vai desabar num vaso sanitário qualquer junto com a urina.


Esta daqui foi a infeliz que deu a aula para mim. Parece tão inocente não é mesmo? Também pensei assim.
Mario Bourges 22:34 [+]
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Domingo, Outubro 09, 2005


Vejam só como são as coisas: cansado de tanto tempo sem atividades, por motivos de... Que não vem ao caso neste momento, resolvi fazer uma viagem curta. Respirar outros ares parecia ser a melhor opção parar quem ficou muitos dias sem opções. Cansado de olhar sempre as mesmas coisas do tipo: cachorro e gato disputando cada centímetro quadrado da casa com suas cagadas e mijadas... Tudo bem, também fiz das minhas. Porém, de uma maneira menos grotesca. Apenas escarrei por um tempo nos cantos, mas percebi que não valeria à pena continuar com essa idéia um tanto quanto ultrapassada. Assim sendo, tratei de pegar meu fusca, que se ele falasse seria um bom companheiro realmente, e fui para uma estrada qualquer. Não me preocupei muito com essa história de pegar um caminho certo porque sabia que a viagem seria curta.

Não há de ver que consegui acertar o caminho... Errado? Logicamente em poucos minutos andando de carro eu já nem sabia em que estrada rumava. Mas também não estava preocupado com isso, pois sabia que poderia contar com a ajuda de algum policial, ou do frentista de algum posto de gasolina para voltar. Pensando desta maneira seguia eu pisando fundo no acelerador do carro, que, entre um buraco e outro da estrada tinha de suportar um maciço ataque suicida de besouros, mariposas e outros bichos que não sabia identificar porque se espatifavam no pára-brisas antes de qualquer tipo de identificação. E também tem outra coisa: mesmo que não se arrebentassem no vidro não saberia dizer que insetos eram, pois não entendo nada dessas coisas.

Vou resumir um pouco; depois que não via mais nada, devido ao vidro do carro estar um verdadeiro nojo, pela enorme quantidade de cadáveres esparramados, e seus devidos cocôs, tive um pneu do carro furado, só para completar a situação. Sabe, a tal estrada parecia uma... Uma... Uma coisa sem sentidos, de tantos buracos que tinha nela. E agora? Agora já estou em casa. Mas o fusca ainda não chegou. Não, não troquei o pneu. Não gosto dessas coisas. Então, isso quer dizer que deixei o carro por lá mesmo e voltei para casa de carona... Com um caminhoneiro que passava por lá. Mas isso foi depois de uma hora aproximadamente. Num momento em que eu já começava a dar sinais de desespero, de tanto olhar para o carro cagado. Agora você me pergunta se eu tive medo de que roubassem meu carro. Sabe, não tive não. Mal se via a cor do carro, de tanta bosta e lama que cobria sua lataria. Então me perguntei: quem roubaria um veículo nessas condições? Só louco mesmo.

E assim que cheguei em casa, isso depois de sei lá quantas horas, liguei para uma empresa de guincho para resgatar meu xodó. Porém, antes de entregarem aqui em casa falei para dar uma lavada nele, pois eu é que não queria vê-lo assim, nessas condições. Essas coisas me dão até vontade de... De... Vomitar. Agora, o que realmente me incomodou naquele instante, foi uma picada de inseto que levei na orelha durante a espera de algum infeliz que passasse com um meio de transporte para me tirar de lá. A situação estava medonha para mim. Parecia até uma bolacha recheada, de tão gorda que ficou. Além do motivo de que tive receio de sair às ruas, depois que cheguei em casa, pois as pessoas poderiam me parar para fazer uma ligação telefônica para algum lugar.


Mario Bourges 21:42 [+]
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Sexta-feira, Setembro 30, 2005


Nesta semana, por incrível que pareça, aconteceram coisas interessantes em minha vida. Claro que, onde acontecem coisas interessantes acontecem, de maneira simultânea, coisas chatas e irritantes também. No sábado (falando ainda do final de semana passada), depois de várias semanas sem conseguir me locomover acertadamente pelo bairro onde passei a morar, e de saco cheio de família, consegui, logicamente com a ajuda do Pereirinha, ir até o centro da cidade, e de ônibus ainda por cima. Pode-se dizer que isso é extraordinário. Ainda mais depois do que descobri; meu amigo, o Pereirinha, mora há poucas quadras de onde moro. Isto não é fantástico? Então... Agora, deixe-me continuar com a narração antes que este emocionante momento de bobeira me comova e me faça perder a noção do ridículo, e aí então, me ponha a chorar feito criança por esta descoberta tão sem motivos para tanto.

Bom, sendo assim, estávamos lá, em pé, segurando nossos guarda-chuvas em um braço e a capa de chuva em outro, pois tudo era válido para a proteção de nossos corpos ante mais um dilúvio que se formava. Aí, agora, vem você perguntar se nós não fizemos papel de bobo com toda essa indumentária diante da multidão que assistia a apresentação dos velhinhos que um dia fizeram parte de alguma banda marcial lá na Praça Osório. Heis aqui tua resposta: claro que não! Os próprios integrantes da banda estavam trajando capas para se protegerem da chuva, que ameaçava cair há qualquer momento, e as infames galochas também fizeram parte da apresentação. Querem saber de uma coisa? Mesmo sem tocar uma nota sequer, e ainda por cima feias como sempre foram, desde o início de sua criação, deram um colorido especial aquele sábado cinzento. Veja; tudo é válido para proteção. Para vocês terem uma idéia de como estava o tempo, até a multidão se encontrava munida de capa e guarda-chuva. Mas também, quanto aos outros... Danem-se.

Olha, eu até já estou com vontade de encerrar logo, pois já estou cansado. Porém, antes de qualquer decisão precipitada, quero explicar o motivo de dizer no começo do episódio desta semana que as coisas interessantes sempre são acompanhadas de coisas chatas e irritantes. Pois bem, estava eu... Digo, estávamos nós lá na praça ouvindo boa música quando surgiu, quero dizer, surgiram, paulatinamente, sujeitos estranhos e impregnados com suas características próprias na praça. E sabe o que era pior de tudo? Ter de dividir esses bons momentos musicais com tal tipo de gente. Aquilo foi o fim, meus ouvidos estavam divididos entre ouvir boa música e um estúpido acompanhamento com assovios. Logicamente provinha de algum sujeito não menos estúpido que seu assovio. Além daquele que entre uma música e outra sacava de sua bíblia e balbuciava algo, para a multidão, talvez. Pelo menos é assim que penso. Sei lá, essas pessoas que se tornam fanáticas às vezes precisam de algum tipo de auto-afirmação, e aí então caem em alguma espécie de tentação, e aí se escoram em coisas fáceis de serem digeridas, como por exemplo: a religião. Mas isso é só quando a ignorância lhe toma por completo suas capacidades cerebrais. O que não é assim tão raro de acontecer porque tais capacidades cerebrais já são... Como direi... Diminutas.

Agora cansei, quero largar tudo e dormir um pouco. Você ainda quer saber mais sobre o resto do final de semana, e mais os outros dias? Oras, pra quê? Vá dormir também. É o melhor que se tem para fazer neste instante. E ainda que quisesse contar algo a mais, só para satisfazer pedidos de "quero mais", certamente contaria histórias todos os dias da semana, ou não. E aí meu amigo, ficaria muito chato... Pra mim, claro. Mas tudo bem, vá dormir, pois eu até já me joguei na cama para descansar. Banho? Pra quê?... Veja... Depois penso nisso está bem? Tchau.

Mario Bourges 19:23 [+]
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Quinta-feira, Setembro 22, 2005


Hoje, especificamente, amanheci com vontade de comer algo diferente, ou pelo menos algo que fizesse tempo que não comesse. Mas restava saber o que era essa coisa que tanto queria comer. Na cama, ainda, matutava eu entre um peido e outro enquanto olhava o nada que estava na parede do quarto para ver se surgia o nome do prato a se feito. No início parecia ser fácil decidir o que fazer, mas como sou conhecedor da gastronomia de varais regiões do país, e de vários outros países, resolvi pedir ajuda a um simples pedaço de papel e uma caneta, pois minhas lembranças começam a dar sinais de fuga. Por que papel e caneta? ... Hum... Veja bem... Ah! Lembrei... Ah! Para fazer a relação dos ingredientes a ser escolhido para o feitio do prato, seja lá qual fosse ele. Além, é claro, do vinho a ser escolhido para combinar com a refeição. Coisa de gourmet.

Bom, depois de ter decidido qual delícia ser feita, precisaria, obviamente, comprar os ingredientes. E ainda, ter de me preparar psicologicamente para trabalhar na cozinha. Porque só eu aqui de casa sabe fazer as coisas que escolho para ser feita. Sendo assim, teria também de colocar um rádio para uma adorável música ouvir. Tal coisa serve para alegrar o ambiente, pois sem música não sei fazer nada. Está bem, sei que dizer por aí que com música ou sem não sei fazer nada, mas isso é coisa de gente despeitada. Não dá para levar a sério.

Continuando; as horas passaram como nunca passam quando não tenho nada para fazer, ou seja, muito rápido, e eu ainda estava procurando alguma coisa na cozinha que não conseguia me lembrar o que era. Por sorte eu já tinha colocado uma panela com água no fogão para adiantar com o serviço. Mas foi aí então que descobri não ter comprado absolutamente nada para preparar a comida. Porque, lembrei, não conheço o bairro onde moro, ainda. E com toda essa divagação sobre onde comprar e o que fazer, pois a essa altura dos fatos nem lembrava o que tinha escolhido para fazer, se é que tinha escolhido, vi a água da panela secar, e em seguida vi a panela entortar. Nossa! Que estranho, pensei. Faz pouco tempo que coloquei esta panela no fogão. Continuei pensando. E só depois de mais um tempinho desses resolvi dar um jeito nisso tudo. Desliguei o fogão, e imediatamente, após ter resolvido o que fazer com este lixo todo, peguei a panela, incrivelmente torta e preta e joguei fora. E peguei-a sem o auxílio de panos ou qualquer outra coisa, pois ela até já tinha esfriado.

E, depois dessa pequena trapalhada resolvi fazer algo para comer. Sabe, desde aquele momento que me decidi fazer tal prato, que ainda não me lembro qual é, passaram, nada mais que sete horas ciscando de um lado para outro neste apartamento. E isso me deixou tonto, de fome. Mas também logo dei um jeito nisso. Resumindo; enquanto o pessoal de casa assistia às novelas da noite eu começava a fazer um lanchinho com salada de batatas e ovo cozido... Nada mal para a primeira refeição do dia. Quanto a panela.. Eu disse à Olga que tinha quebrado o cabo dela, então mandei consertar. Ela não acreditou na história porque sabe que não sei circular pelo bairro, ainda. Isso é uma vergonha! Certamente.

Mario Bourges 19:15 [+]
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Quinta-feira, Setembro 15, 2005


Esta semana estive eu, totalmente absorto em pensamentos banais enquanto os pequenos charcos se transformavam em pequenos rios nas calçadas com a pequena amostra de dilúvio que tivemos por esses dias. Tudo bem, nada contra essa situação... Nem a favor, ainda que gostando de ver a cidade nublada e com chuvas de vez em quando. O problema real consistia no fato de que resolvi tirar justamente esses dias de chuva para devanear num banco de praça. Por sorte minha indumentária fazia jus a ocasião; chapéu, capa e guarda-chuva para me proteger do aguaceiro, calças e paletó de lã para aquele aquecimento bacana, e claro, as tradicionais galochas. Porque sem elas eu poderia dispensar facilmente meus sapatos antes mesmo de chegar em casa.

Todavia, penso que poderia usar dessas faculdades (pensamentos) em outras épocas, como por exemplo: em dias mais secos e com menos frio. Mas aí... Sei não. Talvez não fosse assim tão bom para mim, pois certamente teria, como acompanhantes nesses bancos, mais velhos pensando. Consecutivamente, discutiriam seus pensamentos não menos estúpidos que os estúpidos bancos de praça, comigo. Haveria de ter para isso, um saco duas vezes maior que de todos os velhos reunidos num só, tudo para suportar tamanha falta de humor e paciência com as indignações do cotidiano e de suas próprias famílias. Ia ser muito chato. Creio que tal situação pareceria, no meu ponto de vista, com uma árvore frondoso no final de uma tarde de verão,onde muitos pássaros se reúnem para passar a noite, mas antes disso instauram uma enorme algazarra.

Bom, sei dizer que, depois de tantos dias vendo a chuva cair sem parar, e a temperatura seguindo o mesmo exemplo; apodreci, quase que literalmente. Minhas roupas, por mais que usasse duas capas de chuva para proteção não iriam aguentar, cederiam, e deixariam minhas roupas da mesma maneira que ficaram agora, ou seja, empapadas. Do meu chapéu, para vocês terem uma idéia, até saía água quando torcia. Coisa que não poderia acontecer, nem sair água, muito menos torcer, mas quem se importa com isso? Bom, dos meus sapatos vi se desprender, sem precisar da ajuda de meus tradicionais tropeções, parte da sola. Dos meus pés, além de verdes, brotavam uma espécie de cogumelo. Resumindo um pouco; coisa nojenta de se ver. Mas como sou uma pessoa esperta tratei logo de pôr um fim nisto tudo. Lavei os pés com Creolina e pronto. Acabei com os cogumelos e com os pés, logicamente. Porém, pomadas servem justamente para isso, tratar de queimaduras e coisas do gênero.

Agora, sei dizer que é o fim. A chuva acabou, ou pelo menos deu uma trégua, mas também, depois de tanta água que caiu... Mas continua esquisito esse tempo. Está um misto de abafado com um pouco de frio, parece até que irá cair mais uma tromba d'água qualquer hora dessas. E para vocês deixarem de pensar que estou exagerando ou inventando histórias, uma empresa daqui resolveu vender seus barcos e botes infláveis através de consórcio. E olha que ganharam algum dinheiro com a idéia. Bom, mas... C'est la vie. Até a próxima semana.
Mario Bourges 19:27 [+]
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Sábado, Setembro 03, 2005


Era quase dez horas da manhã quando o telefone tocou, e não tinha ninguém em casa além de mim. Isso queria dizer apenas uma coisa: não ia atendê-lo, claro. Pra quê? Mesmo porque eu ainda estava rolando na cama para um lado e para outro junto com os meus peidos. Porém, aquilo estava me incomodando de uma maneira que fui obrigado a ver quem era o insistente. Pus-me em pé para atender o chato. Quero dizer; fiquei sentado mesmo. Ainda não estava em condições para ficar de pé. Era muito cedo.
-- Então; que quer? Perguntei educadamente e com a voz límpida de pigarro.
-- Ã... Gostaria de conversar com o Comendador Baltazar Ferro. Ele se encontra?
-- Todos os dias ele se encontra diante do espelho quando quer se ver. O que é raro disso acontecer. Respondi de maneira ríspida ainda pigarreando sem dar muita atenção ao sujeito, e claro, querendo que ele desligasse logo para eu voltar à cama, pois estava fazendo frio. Que dia era? Ah, sei lá. Que importa isso agora?
-- Senhor... Poderia chamar o Comendador para mim? Preciso lhe falar. É importante! Disse assim o dito.
-- Olha, sujeito... Ele não está... Viajou! Entendeu bem? Disse-lhe assim. Estava louco de vontade de me afundar novamente na cama. Meus pés estavam gelando.
-- Por favor... Diga assim que ele voltar de viajem que eu...
-- Já disse que está viajando, porra! Respondi assim ao homem já querendo perder a paciência quando, de repente, a Olga entra em casa.
-- Oi Baltazar! Tenho uma surpresa para você.
Imediatamente bati o telefone sem dizer mais nada ao sujeito que já tentava argumentar algo por ter ouvido a voz da Olga.
-- Quem era ao telefone? Perguntou assim minha senhora.
-- Ora... Não, não era ninguém. Era engano, nada mais. Disse-lhe.
-- Ah, tá. Perguntei isso porque um graúdo do governo ligou ontem atrás de você e não te encontrou. Então disse a ele que hoje o encontraria. Parecia, se não me falhe a memória, alguma coisa sobre uma condecoração... Sei lá. Provavelmente ainda irá ligar.
-- É... Pode ser que sim. Quem sabe? Disse assim sem saber o que fazer. Então perguntei alguma coisa para mudar de assunto:
-- Ah, Olga, qual era a surpresa que disse ter para mim?
-- Um pacote com mais de cem canais de televisão. Espero que goste.
Com certeza, pensei assim.
-- Agora vou assistir algo diferente, não agüentava mais assistir novelas. Disse assim com voz de satisfação por ter uma novidade em casa.
-- Mas nunca vi você assistir a uma novela sequer. Complementou a Olga.
-- Ainda bem. Disse-lhe.

E assim que a tal televisão foi instalada, digo, que os canais foram instalados, pude voltar à minha horrenda poltrona. Que por sinal nem estava assim tão mal tratada como estava na outra casa. Talvez pelo fato de ter sido limpada umas duas ou três vezes para tirar os fungos e as cracas que este móvel adquiriu ao longo do tempo. Menos mal, pensei. Ainda é minha. E voltarei a tomar posse dela. E ai desses bichos se subirem nela e cagar em cima. Jogo os dois, se for preciso, pela janela afora. Não quero nem saber.

Que sorte a minha, pensei. Aquele programa: De Olho No Insano vai começar. Que assunto vai ser tratado desta vez? Pensei. Espero que seja coisa boa, ou pelo menos interessante. Porque da última vez me deu no saco tudo isso.
APRESENTADOR: Olá meus caros telespectadores! Hoje teremos as participações da Matilde, a psicóloga desta semana, e do Sr. Joselino Foundi, que não é, nem pretende ser estudioso para coisa alguma. Mas ele está aqui porque faz parte de uma associação que protege qualquer coisa que seja para ser depredado ou desonrado, ou seja, um chato de plantão. Então senhores; tenho em pauta um assunto estranho. Aqui diz que cientistas andam pesquisando sobre a criação de células tronco e tudo mais. Não bastasse isso, agora estão possibilitando aos futuros pais, a invenção de crianças sintéticas, digo, feitas de material sintético... Ã...Deu na mesma, mas tudo bem. O que pensam disso?
MATILDE, A PSICÓLOGA: Bem, veja: a nível de criação é o seguinte: tipo assim, crianças feitas... De que mesmo? Plástico?
APRESENTADOR: Ninguém falou em plástico aqui. Disse apenas em material sintético.
MATILDE, A PSICÓLOGA: Ah, sei. Então veja: tipo assim, tal invenção seria terrível para a mente desta criança que ainda está para ser gerada, ou criada. E quando digo, terrível, é terrível mesmo, pois quando ela, a criança, estiver em idade escolar será chamada, como foi no caso do Pinochio, de criança transgênica, ou, criança de prástico, para acabarem com ela moralmente. Isto é um absurdo.
APRESENTADOR: Mas veja: tem uma coisa que preciso mencionar, os pais terão uma economia significativa com essas crianças, pois vão ser de limpeza fácil, ou seja, basta um paninho úmido para ficarem limpas. Isso quer dizer que não gastarão aquela quantidade exorbitante de água que uma criança, ou, que o pré-adolescente gasta. E ainda, não precisarão usar protetor solar, pois sua pele, se é que assim podemos chamar, não precisará de sol. Só corre aí um risco; se por um acaso ficar exposto ao sol por muito tempo, como é um material sintético, provavelmente levantará bolhas neste corpo, e essas bolhas ficarão permanentes. A não ser que possam ser trocados com peças de reposição... Não sei o que dizer. Agora... Senhor Joselino, diga seu ponto de vista sobre este assunto tão polêmico.
JOSELINO FOUNDI: Tipo assim, como não tenho conhecimento de nada do que se passa não sei o que dizer. Mas, tipo assim, me parece, a nível de economia, que essas crianças deixarão a economia mais equilibrada. Pelo menos é o ponto de vista que tenho disso tudo. Agora...

-- Que saco! Que coisa mais chata! Será que este programa ficará falando deste assunto apenas? Olga! Devolva já esta porcaria de pacote de canais. Isto é muito chato. Falei-lhe com a voz ligeiramente alterada. Estava me sentindo com enfado, estava embotado. Não agüentava mais ver aquilo. Queria descansar, e podia ser ali mesmo, naquela poltrona, que agora cheira bem. Maldita televisão, pensei. Fiquei todo animado no início, e agora... Hum! Sem perspectivas. Fazer o quê? Bom, talvez criasse coragem para debandar, fugir para a rua. Em tempos atrás com certeza faria isso, mas hoje, possivelmente ficarei aqui em casa mesmo esperando que minha ira perca a potência. Pois bem, é o que farei, mas antes disso deixarei a televisão ligada para ver se tem algo de diferente para ver. Ai, ai! Veja só como são as coisas: ainda há pouco poderia receber uma condecoração, ou algo assim, de um político importante, que desprezei, claro, mesmo que sem saber. Agora estou aí, sem condecoração, e sem programas bons, ainda com a infinidade de canais na televisão. Ô vida.

Ah, sei. Antes de terminar você quer saber porque não comentei sobre os desfiles do Sete de Setembro não é mesmo? Veja; tem coisas na vida que com o tempo resolvemos deixar de lado. Este tipo de coisa é uma delas. Tem acontecido muitas barbaridades neste país, então decidi por não comentar nada a respeito. Mesmo porque já estou cansado de tanto ver macho desfilando lado a lado. Portanto, não me aborreça ainda mais com uma exaltação barata de patriotismo forjado e inútil. Se gosto deste país? Oras! Isto é pergunta que se faça a mim? Garanto que gosto mais do que você. Agora, vá dormir e não me aborreça. Até a próxima semana.


Pensando bem... Voltando ao assunto das criações genéticas, talvez, se as crianças fossem mesmo de plástico, ou outro material qualquer, desde que sintético, evitariámos alguns dos problemas infantis, como: arranhões e vermelhidões causados por tombos etc. Bom, é um caso a se pensar.
Mario Bourges 16:00 [+]
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Nesta semana resolvi conhecer melhor o prédio onde passei a morar. Andar por andar, digo, pavimento por pavimento e corredor por corredor. Isso é coisa de quem realmente não tem o que fazer. Mas esse não é um problema que me incomoda mais. Aliás, tirando o fato de que eu não tenho mais a variedade de canais na televisão que dispunha em outra casa, a longa distância de qualquer lugar que queira ir, da falta dos amigos, incluindo aí o rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves do Adalberto, o bairro que não conheço nem um pouco, muito menos as pessoas que moram nele, e que neste caso não quero conhecer ninguém, pois pessoas às vezes me causam pânico, não tenho mais problemas.

Continuando; estava eu já no décimo quarto andar, tonto e cansado, descendo as escadas, sendo que o prédio tem quinze andares, quando me senti de saco cheio e resolvi voltar para casa. Além do mais um botão das minhas calças havia caído escadaria abaixo. Não! Atrás do botão? Ficou doido? Eu não! Voltei para casa mesmo, e de elevador. Com as calças na mão entrei procurando pela Olga. Só ela sabe onde ficam guardadas essas porcarias de costura. E como ela é organizada, provavelmente encontrarei algum botão sobrando na caixa de costura, ou, melhor dizendo, nos primeiros socorros da roupa.

Assim que recebi a indicação de onde estava a tal caixa eu fui com caixa e tudo para o banheiro, além de ter perdido o botão... Da calça, eu também estava com dor de barriga. Sabe, aquela movimentação toda na escada ocasionou um certo desarranjo intestinal. Sem problemas; sentei-me tranqüilamente no vaso de posse do botão, da agulha e da... Bom, a linha eu não tinha. O que fiz? Peguei um fio solto de uma toalha de banho para fazer o conserto. Com minha habilidade em chulear essas coisas pus-me a costurar a causa de meu crescente aborrecimento.

Qual não foi minha surpresa quando vi, e senti, que acabara de ficar preso por um fio, literalmente. Deixe-me explicar melhor. Enquanto costurava o maldito botão eu cantarolava não sei o quê para me distrair. E nesta distração eu me distrai por completo, e neste momento de bobeira eu acabei costurando meu dedão, pela unha, junto com o botão e a calça. Não há de ver que ficou engraçado? Pros outros, claro. Porque para mim não teve nenhuma graça. Além do que meu deu um desespero. Logicamente que eu queria sair daquela situação sem que ninguém me visse assim, preso pela unha. E tinha de fazer algo rápido, pois já sentia minhas pernas adormecerem de tanto tempo que fiquei sentado... Não, não. Não fiquei preso ao vaso também. Eu apenas fiquei tempo demais sentado.

Agora eu sei que irá perguntar: "mas e aí"? Veja; fiz o que já deveria ter feito, arranquei novamente o botão... Das calças, claro. E aproveitei o fato de precisar trocar de calças, isso porque fazia aproximadamente dois meses que eu só usava esta. Então; veio a calhar tal situação. Depois de tudo resolvido já me encontrava com roupas, digo, com as calças limpas. O resto continuava a mesma coisa. Está certo que não estava lá um exemplo de combinação de cores, pois as calças, agora, eram verde musgo, a camisa azul celeste, o paletó cinza, as meias laranjas e os sapatos marrons. Particularmente não gosto muito da cor marrom para os sapatos... Está bem, as meias laranjas também não ficaram boas. Agora de resto estava tudo bem. Falando em ficar bem... Já me cansei desta descrição tola, e quero ficar numa boa. Portanto, vou acabar por aqui. Quem sabe eu tenha algo melhor para contar na próxima semana. Mas também, se não tiver, vou contar qualquer coisa assim mesmo.


Mario Bourges 15:26 [+]
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Segunda-feira, Agosto 29, 2005


Esta semana fiquei um tanto abismado com a notícia que li num jornal aí. Dizia que o governo federal brasileiro está para criar um cagódromo em todas as capitais. A proposta é para ver se melhora a situação do país, que anda levada à breca. O problema consiste, no meu ponto de vista, na possível... Digo, na certeza de uma interpretação errada do negócio, tanto por parte dos governantes, como por parte da população, e daqueles que não fazem parte da população, mas que estão misturados a ela, a dita sub-classe social, que inclui os mendigos, os pedintes profissionais, os flanelinhas, e outros que não me vem à cabeça neste momento.

Ah, sei. Agora você quer saber que tipo de interpretação essa gente toda pode ter da situação não é mesmo? Já imaginava isto. Pois bem; o tal... Cagódromo... Será criado para tentar resolver as cagadas que andam fazendo por aí no âmbito da política. Claro que a intenção foi dar a este assunto chato e enfadonho um ar mais descontraído. Logicamente que isso é apenas uma alusão, não haverá de fato tal lugar. Mas, como o mundo é um refúgio para ignorantes em potencial, pode ser que, logo após a inauguração deste ambiente imaginativo, se é que podemos nominá-lo assim, surja no dia seguinte da inauguração, ou, se duvidar, no mesmo dia dos festejos, quilos e quilos de bosta espalhados pelo lugar, que por sinal pode ser em qualquer lugar do Brasil, ou do planeta, a localidade quase não vem ao caso.

Bom, deixe-me mudar de história. Começo a sentir que meu nariz está com este incrível e horroroso odor. Sei... Mas... O que poderia falar? Sei lá. Estou meio desolado aqui em cima. Enxergo as pessoas lá embaixo e essas pessoas, quando me enxergam, não estão nem aí para mim. Digo isso como se fizesse alguma diferença, pois eu também sou desta maneira, e não estou nem aí para elas. Então penso, e penso em voz alta pelas janelas afora, e penso aos berros para que todos lá embaixo desistam, se um dia pensarem nisso, em não se intrometer na minha vida. Só isso. Sabe, começo a gostar deste apartamento, mesmo sabendo que isso parece uma prisão e não avistando nenhuma vizinha boazuda. Dá uma certa sensação de liberdade, de paz de espírito, mesmo também quando aquele vizinho idiota do andar debaixo resolve cometer excessos de loucura e liga aquela guitarra imbecil no último volume. Quanto a isso nem me preocupo mais. Andei treinando pontaria por esses dias. Já até consegui acertar a janela da sala, onde ele costuma ficar, com um osso velho do cachorro. Claro que me escondi antes que me visse.

Bom, e depois que li a dita matéria e nadei por horas a fio num mar de bobagens com meus pensamentos, resolvi descer até a portaria. Queria ver a cara dos outros moradores do prédio. Porém, depois que vi umas duas ou três velhas entrarem fofocando pela porta principal desisti de ficar ali. Fui até uma praça que tem na região, e fui despreocupado, pois dificilmente voltaria a me perder. Bastava apenas atravessar uma rua para eu estar no prédio novamente. Fácil, pensei. Mas o que fazer neste raio de praça? Olhar para aqueles outros velhos sentados em seus próprios sacos e esperando a morte chegar? Creio que não seja este um bom passa-tempo para mim. Além do quê, provavelmente viriam me aborrecer com suas idéias pseudopolitizadas sobre o mundo, ou sobre o país onde vivemos, ou pior, como por exemplo: ouvir comentários sobre a criação do cagódromo pelo governo.

Sabe, começo a pensar em me perder novamente. Pelo menos assim encontro, em meus pensamentos, vontade de fazer alguma coisa decente, como arranjar um jeito de voltar para casa e assistir aos telejornais aborrecidos e depois as novelas idiotizantes... Mas pára lá... Novelas não! Prefiro me degladiar com a minha máquina de escrever a ter de ficar, mumificado, diante de uma TV assistindo novelas. Você diz em companhia para a Olga, mas ela já tem os netos e a sobrinha para lhe fazerem acompanhamento. Além daqueles bichos que ainda não pararam de mijar e cagar pelos cantos. Falando em cagar... Este nome cagódromo não me soa bem. Talvez cocódromo seja melhor. Sei lá, vamos esperar. Puxa vida! Esta semana pensei demais. Preciso parar com isto antes que enlouqueça... De vez.


Creio que certas coisas nem precisam ser ditas depois de uma imagem como esta.
Mario Bourges 12:29 [+]
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Segunda-feira, Agosto 22, 2005


Numa dessas manhãs frias e nebulosas estava eu, localizado exatamente no décimo primeiro andar, debruçado na janela da sala olhando aquelas formiguinhas (pessoas) andando lá embaixo. E entre uma escarrada e outra para baixo eu pensava na hipótese de procurar o pessoal para tomarmos um café. Por incrível que parecesse eu já começava a sentir saudades de meus amigos. Jogar conversa, papeizinhos velhos e panfletos que ganhamos na rua fora seria um ótimo passa-tempo para mim. Mas tinha aí um pequeno problema; meus aparelhos telefônicos estavam cheirando a urina de gato. Se quisesse efetuar uma ligação teria de ser rápido para não morrer intoxicado. Então pensei: o Azambuja, neste horário, deve estar empareilhando as cadeiras de sua sala de jantar, depois irá arrumar todos os guardanapos, milimetricamente, dentro de alguma embalagem esterilizada. Em seguida, certamente irá, de posse de um pedaço de flanela, lustrar os olhos de seus periquitos, que ele insiste em dizer que ultimamente os olhos desses bichos andam opacos. Tudo bem, lustre-os então, penso assim.

Penso em outra maneira para encontrar com meus amigos. Desta vez pensei em ligar para o Adalberto. Porém, sempre foi inútil ligar para ele nessas horas. Como poderia ter esquecido deste detalhe? Ele sempre fica depois do almoço com o ouvido grudado naquele rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves que possui. Fica lá, durante algum longo tempo, ouvindo aqueles chiados e ruídos típicos desses rádios. Bom, cada louco com sua mania. Já o Pereirinha deve estar se pegando com sua nova namorada neste momento. Pode cair uma bomba perto de sua casa que não quer nem saber. Este... Sabe aproveitar a vida. Agora eu... Estou aqui. Continuo aqui. Sem fazer nada, só olhando aquelas formiguinhas lá embaixo. Zanzando de um lado para outro, só esperando para que um gigante apareça, e numa única pisada acabe com toda essa agitação entediante que compõe suas vidas.

Após algumas frustrações pré-telefônicas acabei por desistir das ligações em si. O que fazer então? Pensei. Talvez nada. Talvez ficar olhando a televisão, desligada é claro, enquanto descanso na minha poltrona impregnada de talco para tirar o cheiro de urina desses animais estúpidos. Porém, ainda preciso fazer algo. E, se continuar aqui dentro de casa certamente encontrarão coisas para eu fazer aqui. Como limpar esse chão mijado, por exemplo. E como tenho horror a cheiro de mijo tenho de cair fora o quanto antes. Coloquei uma roupa qualquer, entrei no meu fusca e saí pelos arrabaldes, me perder, claro. Já devia ter percebido que ainda não conheço a região muito bem. Mas fico pensando: que diferença isso faz? Pois mesmo conhecendo os lugares eu me perco. Então continuei seguindo o trajeto escolhido. Que certamente não me levou a lugar algum. Tudo bem, pensei. Nada para fazer em casa ou em qualquer outro lugar... Que mal há em se perder um pouco? É possível até que encontre algum lugar conhecido dentro de algumas horas.

Passaram-se horas e ainda não tinha visto nada de interessante para ver, muito menos de conhecido. Isto significava uma coisa: continuava perdido. A noite já dava sinais chegada, e as luzes começavam a se acender. Puta merda! Pensei. Será que vou encontrar o caminho de casa desse jeito? Prossegui pensando. E de agora em diante nada mais faz sentido para mim, pois, se consegui me perder durante a luz do dia, imagine de noite. Ainda pensando. Não tinha a mínima noção de onde estava. Lá pelas tantas avistei a Olga acenando para mim, ou para o carro, sei lá. Que estranho, pensei. O que ela está fazendo aqui, neste fim de mundo? Então parei o carro para averiguar o que se passava.
-- Ei, Olga, o que faz aqui? Está perdida também? Perguntei.
-- Claro que não. Estou é enjoada de ver você passar tantas vezes pela frente do prédio onde moramos. Para você ter uma idéia do que estou falando: só o tempo que estou aqui, e que comecei a contar, foram... Deixe-me ver... Umas, pelo menos, vinte voltas no quarteirão. Diga-me, não está tonto com essas voltas?
-- Vinte voltas? Tonto? No quarteirão? No prédio onde moramos? Afinal, onde moramos?
Bom, e depois dessa mancada, e da babada também, guardei o carro na garagem quase sem combustível e entrei em casa, morto de cansado. E louco por alguma coisa para comer, e depois... Cama. Claro. Sabe, fiquei enojado com toda essa situação. Não gosto de me perder, ainda mais na rua de casa. Mas, não me dei por vencido. Possivelmente um dia irei encontrar uma maneira de ir até o centro da cidade sem passar por essas provações.


Aqui, depois de tantas e tantas voltas foi possível avistar o carro do velho Baltazar, digo, o carro do cunhado do Baltazar estacionado num telhado de uma casa qualquer. Isto que eu considero estar perdido.
Mario Bourges 23:51 [+]
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Domingo, Agosto 14, 2005


Esta semana fui obrigado a fazer alguma coisa para não enlouquecer. As coisas aqui em casa estão cada vez mais chatas, pois a Olga não pára em casa, as crianças fazem a mesma coisa que antes, ou seja, nada, porém, agora fazem isso na rua, e aquela infinidade de canais que eu dispunha na outra casa não tenho mais. Posso dizer que a única coisa não modificada, ainda, foram as cagadas e as mijadas dos bichos aqui de casa. Continuam fazendo por todos os cantos. Além das minhas, claro, que alcancei uma média de duas cagadas por dia. Porém, no lugar certo. E não como os bichos, que não tem lugar adequado para esta atividade. Mas esse é o tipo de coisa que não tenho prazer em comentar. Sendo assim, deixe-me continuar; fui a uma loja... Oh! Até que enfim, saí de casa. Então, fui até uma loja de usados e comprei uma máquina de escrever. Daquelas Remington. Parecia ser bastante antiga, mas funcionava, e isso bastava.

Pus-me a escrever coisas sem sentido, até eu me acostumar com as teclas da máquina. Depois, mais tarde, eu escreveria algo interessante... Se conseguisse. Mas para isso tinha de encontrar inspiração. O que fiz? Peguei aquele livro do Bukowski que havia comprado e fui ler enquanto aliviava minha barriga no banheiro. Se consegui me inspirar com a leitura ainda é cedo para dizer, mas que eu me diverti com o livro isso sim. Depois de uns quinze ou vinte minutos sentado no trono decidi tentar escrever alguma coisa. Sentei-me diante da máquina e, com os dedos crispados comecei a teclar. Sei que não levo muito jeito para a coisa, mas fiz assim mesmo. O importante naquele momento era criar alternativas para superar meu tempo livre. Que por sinal é vasto.

Lá pelas tantas, quando estava quase me encontrando naquele mar de teclas, que envolve letras e números, um infeliz começou com um barulho ensurdecedor no apartamento bem abaixo do meu. Então pensei: "filho da puta, não tem outra coisa para fazer"? E só depois de um tempo consegui decifrar que barulho era aquele. Nada mais era do que o som de uma guitarra. Sendo ela terrivelmente mal tocada, diga-se de passagem. E a pessoa, ou a coisa que está fazendo isso, estava terrivelmente mal informada a respeito de como fazer para tocá-la decentemente. Continuei pensando. Merda! Queria saber como é que ainda consigo pensar diante de uma situação como esta, pois nem os bichos aqui de casa conseguem direção para rumar enquanto este maldito vizinho maltrata o instrumento com esses acordes quase musicais.

A máquina que estava na minha frente já não sabia mais para que servia, de tão atordoado que estava. Tinha de fazer alguma coisa, e imediatamente parti decidido em dar um basta nisso tudo. Claro, primeiro tinha de encontrar meus chinelos, pois o cachorro, assim que veio para o apartamento ficou um pouco esclerosado. E o que tem haver uma coisa com a outra? Oras, parece que não conhece meu cachorro. Ele ultimamente tem procurado meus calçados para enterrar em qualquer lugar que dê para ser escavado. Para você ter uma idéia; outra vez encontrei um pé do sapato atolado no vaso sanitário. Como fez isso não sei até hoje, mas que fez, fez.

Então, de posse de meus chinelos, já devidamente calçados parti em direção ao apartamento deste vizinho encrenqueiro. Toquei a campainha, mas acreditava na hipótese de o tal sujeito não ouvir a porra da campainha porque a barulheira era infernal naquele momento. Fiz o que devia de fazer; meti dois chutões na porta. O resultado? Catastrófico, obviamente. Parece que estavam consertando as dobradiças da porta, mas como não sabia disso agi da maneira que disse anteriormente. Com isso a porta, após o segundo e mais forte chute, voou por um ou dois metros e caiu sobre a cabeça do sujeito que estava com a guitarra. Quando eu vi o gordão se esparramando no chão da sala tratei de correr o mais rápido possível para dentro de casa. Da minha casa, claro. Sabe-se lá que problema daria se me pegassem ali naquele momento. Sabe, sou do tipo de pessoa que não gosta de confusão. Bom, depois disso me tranquei no meu quarto com um enorme copo de água com açúcar para ver se me acalmava. Sei que tudo isso é besteira, mas poderia resolver. O que não foi o caso, mas tudo bem. Já estou acostumado com essas situações.


Vamos sorrir, vamos fingir, vamos brigar.
Mario Bourges 00:36 [+]
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Sexta-feira, Agosto 05, 2005


Vocês devem estar lembrados da minha mudança não é mesmo? Não? O quê? Não sabia? Oras, então leia a história anterior para saber do que estou falando. Pois bem, depois daquela confusão toda aqui estou, perdido em meu próprio lar. E ainda, disputando espaço com o gato e o cachorro. Pensa que é fácil convencer o pessoal de não trazê-los nessas mudanças? Talvez seja mais fácil de um membro da família ficar para trás, eu por exemplo, do que esses animais estúpidos. E como já havia dito à Olga, a limpeza da casa ia ser difícil com esses bichos espalhados por aí, mas como ninguém me ouve, azar de quem for limpar a casa. E que neste caso não será eu, porque não quero nem saber de nada.

Agora veja você se não tenho lá minhas razões para dizer tal coisa; os animais... Quadrúpedes, claro, estavam se divertindo à beça, pelo menos é assim que penso, pois era uma correria sem tamanho pela disputa de uma parede, porta, sapato, ou que fosse a vez de receber a urina típica da demarcação de território. Não vou negar, mas também fiz das minhas. Para garantir meu terreno sem a presença desses bichos dei algumas escarradas pelos cômodos. Além daquelas que voam pelas janelas afora. Mas essas coisas não vêm ao caso agora.

Sabe, tenho me sentido um pouco deslocado neste novo lar, mesmo com meus lugares já devidamente marcados por mim, e logo em seguida marcados pelos animais, sinto em certo vazio aqui. O pessoal de casa vive saltitando na ponta dos pés de tanta alegria, os bichos cagando e mijando pelos cantos, e eu por aí, largado nos cantos, como se fosse um móvel que merece receber uma dessas marcas territoriais, ora do gato, ora do cachorro. E precisa ver o que me aconteceu ontem; estava eu cagando na maior tranqüilidade quando percebi uma traça tentando acabar com minha perna direita. Então pensei: atrevida, e pah! Meti-lhe um tapão que não sobrou nada deste inseto horrível. Logicamente que minha perna também ficou um pouco doida com a força usada para esfarelar este insignificante bichinho. Mas apesar de tudo isso, sei que são coisas que podem acontecer com qualquer pessoa. Pelo menos é assim que penso.

Aproveitando a ocasião; depois que já estava zanzando pelo apartamento a procura de meus sapatos tocou a campainha. Sem dúvida alguma, deixei tocar e me tranquei no quarto. Não sabia quem era, e tinha pavor de saber algo sobre esta pessoa também. Porém a maldita campainha não parava de tocar, e eu sem encontrar meus sapatos. Que bosta! Pensei. Sendo assim me senti na obrigação de ver quem era o desesperado que não desgrudava o dedo desta porcaria barulhenta. Talvez fosse a Olga regressando de seus passeios impregnados de fofocas, ou aqueles inúteis netos, junto com a não menos inútil sobrinha. Enfim, tive de atender, pois meus ouvidos começavam a dar sinais de fadiga auditiva.

Catei o primeiro chinelo que estava à vista, e foi daqueles cheio de pompom da Olga mesmo. Como pensava ser um membro da família nem fiz questão em estar com boa aparência para abrir uma simples e horripilante porta. Qual não foi minha surpresa ao ver uma dona estranha à minha porta com os olhos esbugalhados como se estivesse visto um monstro ou qualquer coisa do gênero. Está certo que eu não estava lá bem trajado para receber uma desconhecida. E também, que diferença isto faz? Não gosto de receber ninguém mesmo. Só sei de uma coisa; ela, assim que me viu usando minha tradicional camiseta regata com os famigerados furos nas costas e minha cueca samba-canção branca, mas que durante todos aqueles dias tinha se tornado ligeiramente amarela, mais o chinelo de pompom da minha senhora, correu feito uma condenada pelo corredor até sumir da minha vista.

Tudo bem, pensei. Melhor assim. E quando não vi mais ninguém para me incomodar fechei a porta do apartamento bem devagar para não fazer barulho e espantar o gato que estava dormindo tranqüilamente sobre meus sapatos, que até então estavam sumidos. E percebendo tal coisa tratei logo de dar um basta neste pequeno equivoco; antes que o gato pudesse fazer alguma coisa eu meti um chute em seu traseiro. Mas claro, delicadamente para não lhe deixar marcas. Porque senão quem apanha sou eu. Mas é isso aí. Deixe-me acabar com essa enrolação toda, pois preciso encontrar as minhas meias agora. Até mais.


Realmente não sei por que a tal dona saiu às pressas da minha frente, minha aparência nem é assim a coisa mais medonha do mundo. Mas que foi bom... Ah! Isso foi.
Mario Bourges 00:30 [+]
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Sábado, Julho 30, 2005


Estava eu flanando pelo centro enquanto assoviava uma canção, criada naquele momento por mim, de maneira fulgurante. Mesmo nos rostos alheios um certo grau de desaprovação em relação à minha atividade. Mas como não dou a mínima para os outros, continuei com meu passa-tempo, que nem de longe lembra uma manifestação cultural. Sabe, chego a pensar que aquilo que me fazia distrair a mente dos infortúnios da vida causava uma certa cizânia nas pessoas capaz de tornar toda uma bela tarde, que assim tive pelo menos até àquela hora, em uma situação incapaz de tornar-me amistoso para os outros, surgida aí por uma exacerbação alheia sem limites. Então pensei: oras! Danem-se todos. O que têm eles haver comigo? Segui pensando pela rua em diante.

Nisso, durante meu descompromissado passeio pelo calçamento da XV de Novembro vi, mesmo não querendo ver, um cavalheiro. Oras, pelo menos assim chamo todo homem que não conheço, até que eu decida ao contrário. Bom, ele estava caminhando despretenciosamente, em direção contrária à minha, com sua esvoaçante e horrenda barba grisalha, que mais parecia a Medusa com a cabeça virada ao contrário. Mas até aí tudo bem, pois tal visão não tirou meu sorriso cínico da face, nem a vontade de assoviar meu conserto de sopros desconsertantes. O que fiz então? Oras, simples. Fui ao café. Porém, antes fui à livraria comprar um livro de Charles Bukowsky. Queria me divertir um pouco com este tipo de leitura.

Chegando lá tratei de puxar logo uma cadeira e me assentar tranqüilamente onde pudesse evitar, toda e qualquer forma de comunicação com as pessoas que lá estavam. E enquanto eu me divertia a largas risadas durante a leitura o sujeito, aquele que parecia com a Medusa, porém, de cabeça para baixo, entrou no café também. E tratou, também, de puxar uma cadeira e se assentar comodamente ao meu lado, como se nada tivesse acontecido. Foi aí que pensei: sujeito inoportuno e atrevido. Tanto lugar para sentar e ele vai logo sentando do meu lado, com certeza assim o fez para me importunar. E se lembram daquela história de cavalheiro? Pois é, decidi-me por não aceitar que tal pessoa, na sua total ausência de tato mereça este título.

Sendo assim resolvi fitá-lo vorazmente. Debalde. De nada resolveu esta ação intimidadora. Nem teve o trabalho de olhar-me. E ainda por cima continuou ali, sentado a observar tudo o que se passava pelo ambiente. Menos, claro, de notar minha profunda indignação ao vê-lo ali, sentado, e respirando. Como se já não bastasse sua estúpida presença naquele local ainda tinha de ouvir o ruído infernal que fazia sua respiração. Durante minha permanência no café, um lugar que sempre gostei de ir, tive momentos de cólera. Por sorte conseguia conter esses momentos com um chazinho de erva-cidreira. Mas assim mesmo não pude suportar a presença daquele mal-criado, que fazia o ar se ruidar entre os pêlos de seu nariz.

Enfurecido com tamanha displicência parti para cima... Do caixa. Paguei minha conta e fui-me embora. Sinceramente falando, não suportaria mais um minuto ao lado daquele ogro ruidoso, que mais parecia uma ventarola entreaberta durante uma ventania. Aquela situação, embora pareça normal para alguns, acabou com meu dia. Senti-me ofendido, e conseqüentemente cansado de tanto me estressar com tamanho infortúnio. Ao sair de lá, do café, me decidi por pegar um ônibus e regressar ao meu lar. Seria necessário descansar por umas horas. Após o martírio que é rodar pela cidade em um veículo cheio de gente se acotovelando para conseguir um banco para sentar, como se fossem gladiadores nas arenas em duelos de vida ou morte, encontrei um singelo banquinho para descansar minhas pernas ligeiramente débeis de tanto caminhar, mas aí também o ônibus aportou no ponto final. O que me restava fazer? Oras, descer do veículo e rumar para casa.

Qual não foi minha surpresa ao ver um caminhão de mudanças ancorado em frente minha morada. Então, gentilmente perguntei, talvez com um tom de voz alterado pelo susto, ao chofer: "mas que diabos fazes aqui seu ridículo? Não vês que moro aqui"? E aí, diante de sua resposta emudeci. Disse-me que todos da casa já haviam se mudado para um apartamento num outro bairro qualquer. Agora diga-me: já ouviu aquela frase uma vez? "Homem que é homem não chora"? Pura enganação de quem nunca passou por isto. E enquanto o pessoal da mudança fazia o trabalho de limpeza do imóvel eu me recostei no muro. Depois fui escorregando até sentar no chão. E daí, sentado no relento pus-me a chorar. Parecia até uma criança perdida, abandonada pelos pais.

Vendo aquela cena deplorável o chofer, comovido pelo aguaceiro que eu produzia, contou-me que dentro de uma hora meus familiares viriam me buscar. De repente senti um alívio, e ao mesmo tempo louco da vida com este outro chato. Quem pediu a ele para me dirigir tais palavras? Nossa! Como percebo que o mundo onde vivemos está cada vez mais cheio de gente mal-educada. Tenho a impressão que se eu tivesse de ir ao lado deste sujeito no caminhão teria um surto de loucura, ou pior, como morrer de tédio, ou ainda ter de agredi-lo com alguma barra de ferro só para não ter de ouvi-lo matraquear. Agora basta saber aonde é que vou morar. Diabos! O que mais falta acontecer em minha vida? Não! Não responda. Deixe-me descobrir sem a intervenção de vocês.


Posso dizer que passei mal com a notícia. Porém, me vinguei ao ver com o caminhão não conseguiu facilmente carregar nossas tralhas. Sabem, eu até quase consegui rir da situação.
Mario Bourges 00:16 [+]
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Sábado, Julho 23, 2005


Nesta semana, mais precisamente hoje, estive eu, ocupado com meus afazeres matinais pra lá de interessante, para mim é claro. Normalmente já é desta maneira, mas resolvi dar a este espetáculo bizarro um pouco mais de agitação. Veja bem o que aconteceu; equipado com o incrível rádio do Adalberto, sim, aquele de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves que tanto adoro. Tudo bem, continuando; de posse do rádio mais o jornal que peguei quase que por instinto do portão da casa de meu vizinho, obviamente que emprestado, mas não sei por quanto tempo, fui fazer minha primeira atividade matinal, que é a produção de meus adoráveis, protéicos, patéticos e descartáveis cocôs. Claro que todos eles são ricos em fibras e sais minerais.

Muito que bem, procurando me manter informado li, muito tranqüilamente ao jornal, e claro, para acompanhar a leitura contava com a conhecida música dos suíços, o Yodel. Este som é no mínimo interessante, mas facilmente deixado de lado quando se quer tranqüilidade. Sinceramente falando; aquela vocalização sonífera é o tipo de coisa irrita profundamente. Basta uns minutos dessa música por dia para o sujeito se tornar agressivo e chutar a primeira velhinha que encontrar na rua, ou, ficar dormindo por longas horas enquanto o sujeito se esvai em merda, como se tivesse tomado um calmante e um purgante ao mesmo tempo. Por sorte que sou esperto, mudei de estação. Mas veja, o dia parecia não começar muito bem para mim. Quando consegui me desvencilhar deste tal Yodel cai numa daquelas mazurcas de Chopin. Tudo bem, até gosto de Chopin, mas aquele não era o momento para a audição deste tipo de música.

Bom, enquanto eu confabulava com o rádio mais o jornal, já parcialmente destruído por ter deixado cair no chão, e, distraidamente, tê-lo feito de tapete, a Olga entra no banheiro sem aviso prévio, e ainda por cima aos berros. Ah! Gostaria de fazer uma parte: por que é que mulheres gostam de berrar quando pensam estar certas? Eis uma dúvida que por certo me deixa intrigado. E penso que, notadamente, nunca irei obter respostas para tal dúvida. Sendo assim, deixe-me continuar; por incrível que pareça em menos de um minuto eu já me encontrava do lado de fora do banheiro, e ainda, se quiserem acreditar, totalmente vestido. Ainda bem. Porque nesta semana fez um frio dos diabos. Porém, não conseguira, por motivos superiores, fazer meu toalete em paz. Pelo menos consegui lavar minhas mãos no tanque enquanto lavavam minha cueca e as calças que deixei há pouco no sanitário. Ah, essas mulheres! Sempre nos pregando peças. Parecia até coisa de Mandrake. Mas tudo bem, ainda tinha café para mim na mesa, mais a metade de uma barra de chocolate levemente roída pelo gato estúpido daqui de casa.


Mario Bourges 01:11 [+]
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Sábado, Julho 16, 2005


Há quem diga que sou um criador de casos e um exagerado também. Disso, certamente, irei discordar com veemência, pois não sou a pintura que me fazem. Disso isto para que, vocês leitores, não se deixem influenciar por palavras maldosas constantemente espalhadas aos quatro ventos. O caso é que nesta última sexta-feira fui, digo, fomos à uma formatura... Como assim, "tiveram coragem"? Oras, faça-me o favor, deixe-me contar ao menos. Além do que, seria falta de educação não convidarem a Olga. Ã... Onde estava mesmo? Ah, sim. A formatura.

Pois bem, veja você o que me aconteceu. Chegamos ao local por primeiro. Queríamos pegar um bom lugar. Até aí, nada demais. Assim que abriram as portas corremos, mesmo que contra gosto da minha senhora, e sentamos em um lugar estratégico, onde podia ver a todos os formandos, se assim os quisesse. Agora o detalhe: o tal "bom lugar" era estratégico, pelo menos para mim, porque era ligeiramente situado atrás de um casal de gigantes. Agora você irá me perguntar que eu sei: "Por que sentar atrás de gigantes durante uma formatura, sendo que foram para ver a cerimônia?". Agora eu respondo: resposta errada. Chega uma hora do dia que me bate um soninho gostoso, então protelei até onde pude para que este soninho coincidisse com a formatura. E não adianta me xingar, pois esta atitude não é de minha exclusividade.

Lá pelas tantas eu me encontrava com dor de cabeça devido aos exorbitantes e constantes ruídos desconsertados. Malditos! Pensei. Será que essa gente não tem o que fazer em casa para ficar aqui, neste local sério, para fazer essa barulheira toda? Continuei pensando. Claro que nesta hora meu estômago também já reclamava. Afinal de contas, estava ali, sem comer nada por algum longo tempo. Então, quando parecia que tudo iria acalmar novamente a coisa estourou de vez. Fora dada o final da cerimônia... E da minha paciência também. Soltaram até fogos de artifício na ambiente. Ô gente louca. Pensei. Esperem, talvez eu tenha gritado isso, pois em um certo momento eu me encontrava com as mãos no pescoço de um guri e sua corneta ensurdecedora. Não lembro de muita coisa, mas parece que conseguiram fazer com que eu não enfiasse a porcaria da corneta goela abaixo daquele delinqüente infeliz.

Depois, para encerrar definitivamente a cerimônia surgiu, como por aparição, um grupo com atabaques, surdos, bumbos, reco-recos e um sujeito com seu cavaco. E claro, tinha um outro de posse de um microfone para gritar descontroladamente, como se estivesse sozinho em casa. Ainda bem que já tinha terminado tudo, mas também tanto fazia terminar ou não, pois eu me encontrava do lado de fora do prédio. Só não tinha definitivamente sumido de lá por que eu ainda esperava a Olga se desvencilhar do empurra-empurra instaurado no hall de entrada. Depois da fantástica aventura de uma formatura fomos ao jantar. Aí então pudemos cumprimentar a pessoa recém formada, e conversar com outros convidados como pessoas civilizadas que assim somos. Logicamente que também pude me esparramar sobre o prato e comer como ninguém. Sabe como é; festa é festa.


Aqui foi o momento das homenagens. Puxa! Se eu não estivesse dormindo com certeza choraria.
Mario Bourges 18:45 [+]
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Quarta-feira, Julho 13, 2005


A princípio foi só uma idéia, não me recordo de quem agora, mas a intenção era de mudança. Primeiro de todas as roupas, depois aprimoraram tais pensamentos para os próprios guarda-roupas. Então pensei: que besteira. Depois disso as idéias começaram a ficar ousadas e ao mesmo tempo perigosas. Veja você que já estavam querendo trocar toda a mobília dos quartos... Aliás, da casa inteira, pois esta maluquice tinha se transformado em meta. Por sorte, até certo ponto, acabaram por desistir dos móveis. Porém, agora seus desejos começaram a adquirir ares de obsessão. O foco da mudança tinha simplesmente se voltado para a procura de uma nova casa. Então pensei: que loucura! Sem dúvida alguma, isso era uma loucura.

Imagine só quando encontraram a dita ¿casa dos sonhos¿, ficaram extasiados, chegaram a ponto de terem espasmos em seus cérebros levemente deformados pela ânsia de mudança, mesmo sabendo que este frenesi poderia ser para qualquer casa, desde que não fosse a nossa própria. Agora o que me deixou emputecido e surtando a níveis de parar num hospício pelo simples motivo de me sentir contrariado, foi aquele maldito corretor de imóveis com seu cinismo que lhe é peculiar. Ainda guardo na memória o que aquele desaforado me disse: "o que são quinhentos mil reais diante da felicidade de uma família tão bonita quanto esta". Oras, não me agüentei. Diante de uma provocação eu... Eu... Ainda bem que eu estava usando sapatos ao invés de chinelos, por que se tivesse de chinelos certamente voltaria para casa sem eles, e ainda por cima teria de ir à delegacia para me defender de um processo de agressão.

Voltando ao assunto, e de uma vez por toda pretendo terminá-lo o quanto antes, pois tal coisa deixou minha hérnia de hiato jorrando porcarias para fora de mim. Não foi muito difícil para eles, o pessoal de casa, entender que não haveria mudança alguma. Assim sendo, pude me acalmar. Consecutivamente meus problemas com a hérnia também foram superados. Mas, se bem os conheço, não tardará muito para toda essa maluquice aconteça novamente. Na verdade penso que isto seja euforia daquele tipo de pessoa que não tem o que fazer. Principalmente quando este tipo de pessoa resolve tirar suas tardes, pouco aproveitadas, para fofocar com a vizinhança. E depois que terminam com a fofoca vão às novelas. Ô coisa chata essa. Mas fazer o quê? Eu sabia que cedo ou tarde isto poderia acontecer em minha vida.

Mario Bourges 20:21 [+]
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Sexta-feira, Julho 01, 2005


Vou contar o que me aconteceu em um desses últimos dias... Posso adiantar que tal acontecimento me deixou estupefato, duplamente. Primeiro pelo fato ocorrido, e segundo porque resolvi comentar tal coisa com meu cunhado. Aquele quase inglês. Digo quase porque ele é brasileiro, mas seus pais são ingleses que vieram fugidos para cá, se refugiar nas terras tupiniquins. Aliás, corre-se um papo à boca miúda de que sumiram do território da rainha para não ter de pagar os impostos. Coisa que acontece de verdade para as pessoas de posse, porque aqui... Mas deixe-me continuar com a história que me propus a contar.

Pois bem, estava eu sentado em minha cama, todo tranqüilo enquanto passava uma pomada nos vãos dos dedos dos meus pés para acabar com as frieiras. Essas coisas são muito chatas. Quando de repente senti um cheiro de peido pós-churrasco com cebola, maionese e regado a muita cerveja invadindo sem cerimônia o meu quarto. Sentindo-me nauseado ainda conseguia pensar... Merda! Gritei. Pelo menos penso que gritei, pois a essa altura dos fatos já me sentia incapaz para qualquer coisa. Bom, talvez eu tenha pensado em dar uma cagada num momento qualquer do dia, e aí meu cérebro, em franca atividade inútil, acabou por sugerir um pensamento para me fazer acreditar neste cheiro horrível. É, vai ver foi isso mesmo, pensei. O negócio é pensar em alguma coisa bem cheirosa para melhorar o astral. Continuei seguindo esta linha de pensamento. Mas também o cheiro seja efeito dos meus pensamentos amalucados.

De repente:
ALGUÉM: Baltazar!
BALTAZAR: Heim!? O quê? Quem falou?
ALGUÉM: O Baltazar, se liga! Pare de ficar pensando, você não sabe fazer coisa melhor? A vida é melhor que isto.
BALTAZAR: Por um acaso você é do governo?
ALGUÉM: Eu não, de onde você tirou este absurdo?
BALTAZAR: É porque você falou que tem coisa melhor para fazer do que ficar pensando. Isso pra mim é coisa de político, que não quer ver as pessoas pensando para não descobrirem as safadezas que fazem no poder.
ALGUÉM: Infelizmente você tem razão, mas sou bem diferente dessa laia. Sou Deus! Lembra de mim? Daquelas longas conversas regadas à boa música e coisa e tal.
BALTAZAR: Sabe que até cheguei a pensar em você quando senti aquele cheiro estranho há pouco, mas o aroma ficou tão intenso que cheguei a esquecer do meu nome por uns instantes. Mas talvez o motivo por não ter lembrado de ti tenha sido a falta de música. E falando nisso, por que não toca nada aí para ficarmos ouvindo?
ALGUÉM: É que meu aparelho de som está com defeito, e pedi para um mané aí consertar. Porém, este sujeito não de minha total confiança. Veja você que ele pediu um dinheiro adiantado para comprar uma pecinha, e só aí realizar o conserto. Que audácia! Disse-lhe indignado, mas o camarada nem ligou. Mal educado! Mas tudo bem. Então; quer me perguntar algo como de costume?
BALTAZAR: O quê, por exemplo?
ALGUÉM: Oras! Você é que deve saber qual pergunta... Mas se você está na dúvida é melhor nem perguntar nada, pois se torna muito chato quando... Espere... BOOM! Ai, ai, que alívio.
BALTAZAR: O que foi isso? Algum trovão? Vai acabar o mundo agora?
ALGUÉM: Fique sossegado cara! Foi só um peidinho. Relaxa bicho! Você anda assistindo muitos filmes com explosões... Por um acaso já assistiu a Guerra dos Mundos?
BALTAZAR: Não, ainda não. É bom?
ALGUÉM: É, mas aconselho a você nem assistir. Porque senão vai se tornar um purgante, então vai querer fazer milhões de perguntas sobre o assunto, e não estou a fim de adiantar nada sobre o futuro de vocês meros humanos que insistem em fazer navezinhas, viajar pelo espaço para descobrir novos mundos e coisa e tal. Desista e faça os outros desistirem dessa bobajada toda. Lembre-se que os humanos nada mais são que poeira espacial, e Eu um dia posso querer bater o pó do Universo. Sabe o que mais? Cansei de trocar essas palavras inúteis contigo. Vou-me embora. Quero ver se dou uma prensa naquele vigarista que está com meu aparelho de som. Estou afinzão de ouvir o último disco do Maxixe Machine. Até a próxima Baltazar. Ah! Quase me esqueci; pare de xingar a vizinhança! Até mais ver.
BALTAZAR: O que aconteceu com os grandes clássicos, desistiu de ouvi-los?
ALGUÉM: Claro que não bobão. Eu também gosto de ouvir coisas novas. Mas é isso, vou nessa.

E num aroma insuportável, Ele, enquanto assoviava a música No More Heroes do The Stranglers, se desfez do meu quarto. Penso que esta seja a melhor maneira de se deixar o mundo quando este for o momento certo. Nisso entrou meu cunhado, com sua tradicional cara de cocô fazendo perguntas não menos estúpidas que o habitual.
CUNHADO: Fazendo algum exercício físico Baltazar, ou pensando?
BALTAZAR: Por que a pergunta?
CUNHADO: Nada não, é porque senti um aroma estranho no ar, algo parecido com peido, e daqueles com cheiro de churrasco, cebola, maionese e regado a muita cerveja.
BALTAZAR: Hum! Diga-me; por um acaso você acredita em Deus?
CUNHADO: Depende.
BALTAZAR: Do quê?
CUNHADO: Se for para acreditar naquele deus que castiga só por não ir à igreja rezar ou orar, por não pagar o dízimo no final do mês, por não fazer doações para o padre, para o pastor, ou seja lá para quem for ficar passeando de carro enquanto as pessoas passam fome por não terem emprego, e quando tem o emprego o dinheiro do pagamento serve apenas para poder comer ninharias, ou ainda se for para crer naquele deus que tem a mesma face dos que guerreiam dizendo que esta atitude é nobre, ou que explodem o mundo com bombas atômicas e aparecem na televisão sorrindo como se nada tivesse acontecido? Não! Não acredito. Mais alguma dúvida?
BALTAZAR: Digamos que já estou satisfeito com esta resposta. Que tal tomarmos uma cerveja? Creio que isto seja o melhor que temos para fazer agora. Quanto a vocês leitores... Até a semana que vem.


Após intensa conversa com o velho Baltazar até o Divino procura um meio de fuga.
Mario Bourges 23:47 [+]
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Quarta-feira, Junho 29, 2005


Tem épocas em que me sinto capaz para freqüentar lugares culturais como: teatros, cinemas etc. Nesta semana resolvi ir ao cinema. E fui para ver qualquer filme, pois fazia algum tempo que não ia neste tipo de lugar. Então para mim qualquer coisa resolvia nesta situação. Pois bem, lá estava eu na fila do cinema para assistir ao filme. Mas qual? Parecia-me parecia ser de ação... Ah, lembrei! O título era: Tronxo, O Caçador de ETs Gordos. Isso! Era isso mesmo. A história não era lá grandes coisas, mas servia para me distrair, e também aos filósofos de plantão e suas terríveis muriçocas de estimação que lá estavam disputando o mesmo espaço.

Já falei que o filme não era dos melhores? Pois bem, não estava nem perto de ser um bom filme. Mas quem estava lá também não se importava com isso. Mesmo porque não adiantaria em nada se preocupar com a qualidade duvidosa das filmagens e da história que, em nenhum momento disse alguma coisa de importante para ninguém. Enfim, fiquei lá horas a fio, e da mesma maneira que entrei saí. Não entendi absolutamente nada, mas tudo bem. Penso que até nem estava com vontade de pensar, mesmo porque já faço disso o tempo inteiro. E isso cansa também.

Bom, muito bem. Estava eu na rua após a seção do cinema sem saber o que fazer, só para variar. Grande novidade. Tudo bem, fui até o café ver quem estava lá, conversar um pouco, se tivesse algum dos meus amigos, e depois, voltar para casa, pois ainda teria que ir ao supermercado. Sabe como são essas mulheres, não sossegam enquanto não vamos comprar qualquer porcaria. Por sorte havia encontrado o Azambuja com sua incessante mania de arrumar as coisas, sejam elas quais forem. Continuando; conversamos um pouco e o convidei para ir ao mercado comigo, ele topou. Fomos então para casa pegar o carro, pois sem estar motorizado não daria para fazer compras.

Estava tudo tranqüilo, pelo menos até aquele momento. Confesso que a falta de confusões me pareceu estranho a princípio, mas depois gostei da idéia. Fizemos a tal compra e resolvemos ir embora. Obviamente tive que puxar o Azambuja da frente de uma televisão gigante para que pudéssemos ir embora. O problema não era de ele estar simplesmente assistindo ao filme que passava naquela hora, mas de ficar cutucando os botões do aparelho com um cabide que havia comprado. Esquisitices à parte, definitivamente era tempo de ir embora.

Na saída tive a brilhante idéia de apostar uma corrida de carrinhos de compra com meu amigo na descida do mercado até o estacionamento. Estava indo tudo sem problemas até a primeira curva do trajeto, onde num espetacular acidente o Azambuja se envolveu. Foi carrinho para um lado e o velho general para outro. Os sapatos, óculos e chapéu foram os apetrechos que mais longe pararam do local de impacto. Se aconteceu fratura? Ora, como isso não iria acontecer? Isto foi inevitável, mas também, depois daquele tombo cinematográfico não tinha como não se quebrar todo. Por sorte o Pronto Socorro do Cajuru ficava perto daquele mercado. O velho Azambuja ficou de molho uns meses por causa das quebraduras, mas tudo bem. Ele fez terapia para ajudar passar o tempo. Copiou a lista telefônica inteirinha nos diversos gessos que estavam em seu corpo. Ai, ai, se essa maluquice pegasse eu já estaria internado no hospício.


Este era um dos ETs que nosso herói, o Tronxo, eliminou com sua incrível arma desengordurante.
Mario Bourges 22:42 [+]
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Sábado, Junho 18, 2005


Esta semana foi, deixe-me ver... Diferente. Em um dia qualquer estava eu sentado em minha reclinável e deprimente poltrona, que mais parece um pufe de bordel de tão fedida e manchada que está, quando recebi um telefonema durante minha audiência de um disco do maluco do Tom Waits. Aliás, começo a gostar deste sujeito. Continuando... Ah, sim; na verdade foram vários telefonemas, mas como vocês já devem ter desconfiado, tenho verdadeiro asco de telefones. Então, isso quer dizer que não tenho o hábito de atendê-los quando tocam. Sendo assim, depois de muito ligarem, e só depois de atenderem ao telefone e me chamarem por muitas vezes, e aos berros, fui ver o que se passava.

Era o Pereirinha, afobado como sempre, me convidando para ir a um bar onde haveria uma apresentação de um grupo musical daqui. Até aí nada demais, e como não vi nada de interessante nisso disse-lhe que não queria sair, depois desliguei o telefone, pois odeio conversar por este meio de comunicação, e voltei para a poltrona e o Tom Waits. Logicamente que antes disso passei pela cozinha e peguei uma cervejinha... Para me descontrair um pouco. E quando eu começava a me ver caminhando, muito bem arrumado, atravessando a rua em direção à casa da vizinha boazuda, fui acordado por buzinadas em frente ao meu portão. Merda! Pensei, ou será que gritei? Quem será agora? Continuei pensando. Bom, talvez tenha pensado, não lembro. E depois de tanto insistir com as buzinas resolvi ver quem era. A turma inteira estava lá, o Pereirinha com uma de suas monumentais namoradas, o Azambuja e sua tradicional esquisitice, e o Adalberto com seu inseparável rádio.

Sabe, às vezes penso ser uma pessoa difícil, pois tiveram de se esforçar mais que o habitual para que eu aceitasse o convite. Por final acabei aceitando o tal convite, mas a condição para isso era ter que me trazer até em casa. Ultimamente tenho sentido preguiça para fazer certas coisas. Até mesmo para fazer coisas sinto indisposição. Tudo bem; chegando lá no bar fiquei com receio, porque simplesmente não tinha ido até este lugar antes. O bar estava preparado com palco, luzes e tudo mais. Eu, sinceramente, estava esperando algum grupo de chorinho ou algo parecido, qual nada, assim que começaram a tocar percebi que todo aquele circo armado era para um puro rock n¿ roll. Posso adiantar que gostei da surpresa.

Bebidas? Creio que nem preciso mencionar que consumi muitas delas durante a apresentação do grupo chamado única e simplesmente de Loaded me deixou animadão. Loaded... Hum, isso quer dizer carregado... Muito bem... Fez com que eu me sentisse assim, cheio de carga para gastar. Que loucura! Suei feito um porco, até quase quis dançar de tão contente que fiquei naquela noite. Tive de aproveitar porque não é todo dia que vou a um lugar como estes para assistir e ouvir coisas deste tipo. E como a minha volta estava garantida tratei de beber mais que o normal. Problema este que resolvo dormindo uns dois dias consecutivos. Quanto à parte financeira da festa fiquei tranqüilo, como fazia tempo sem sair de casa estava com uma quantia de dinheiro bem agradável. Então, tratei de gastar antes que meu genro descobrisse essa minha folga monetária. Mas é isso. Até mais.


E estes aqui são os integrantes do conjunto Loaded fazendo a minha diversão.

Mario Bourges 22:49 [+]
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Quarta-feira, Junho 15, 2005


Depois de um longo período sem dar as caras na cidade resolvi contar o que me aconteceu no Dia dos Namorados, ou, como diria meu cunhado, aquele pomposo misturado de inglês e brasileiro, Valentine's Day. Bom, estava eu em féria... Quer dizer, estava eu passeando com minha senhora em uma cidade do interior, só para distrair nossas mentes estressadas de tanto ficar na cidade grande. Para melhor explicar a situação; saímos para fugir dos vizinhos um pouco... Está bem, eu é que quis fugir dos vizinhos. De qualquer forma resolvi sair daquela vila para não ficar maluco, pois já estava gritando até com o cachorro e o gato de casa. Se bem que isso eu sempre fiz, e com qualquer coisa.

Sendo assim, deixe-me continuar com esta narração já um tanto entorpecente para vocês. A cidade para qual fomos não lembro do nome, mas também não importa em nada porque decidimos ficar trancados o dia inteiro no quarto do hotel. E motivos para isto tínhamos de sobra. Primeiro porque não conhecíamos a cidade, segundo porque estávamos casados para tal façanha, e terceiro porque era o dia dos namorados ficarem justamente trancados nos quartos de qualquer lugar. E posso dizer que foi muito bom ficar trancado com a Olga, mesmo havendo alguns imprevistos. Como por exemplo: um quase afogamento meu na banheira de hidromassagem. Mas isso também não vem ao caso.

Após horas praticando sem-vergonhices resolvemos voltar para casa, pois aquele quarto de hotel já estava fedendo de tanta bagunça que tinha por lá. Minha sorte que a Olga também dirige. E digo isto porque minhas pernas estavam se rebelando contra mim, pois não me obedeciam mais. O problema também consistia no momento da minha senhora se assentar no banco para dirigir... Ah, veja... Enfim, ela conseguiu fazer com que chegássemos em casa sãos e salvos. Bom; salvos sim, mas sãos... Só depois de alguns dias de repouso profundo. Se bem que, assim que chegamos em nosso lar me deu uma profunda vontade de sair pelas ruas para passear. E assim fiz eu. Contando passos eu deslizei como fantasma pelas calçadas fétidas de urina da rua Saldanha Marinho, bem pertinho da catedral. Onde facilmente podem ser encontradas crianças cheirando carinhosamente suas adoráveis latas de cola e, ou, esmalte. E ainda se assim preferir, ver aqueles dóceis cidadãos embriagados elogiando-se uns aos outros. Mas tudo bem. Isso é charme de primeiro mundo.


Aqui, estava um maravilhoso clima de descontração. Ainda bem que tal clima não durou por toda a eternidade.
Mario Bourges 00:10 [+]
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Terça-feira, Junho 07, 2005


Nesta semana resolvi, depois de alguns dias, passear pelo centro de Curitiba. Sabe, vez ou outra me sinto bem fazendo este tipo de atividade. O que me impede de fazer isso com mais freqüência são as pessoas que costumam circular pelos locais onde tenho o hábito de ir. Na verdade este é o motivo pelo qual abandonei um pouco minhas idas ao café e ao bar do Odil. Bem, deixe-me explicar melhor; quanto ao bar e seus freqüentadores não tenho nada contra, mas como na maioria das vezes que eu ia ao café, imediatamente, e automaticamente minha segunda parada seria o bar.

Veja, digamos que isso seja para mim a melhor maneira de praticar o árduo exercício da tão conhecida sociabilidade entre pessoas. E que para mim isso é terrível, pois gosto de ter meu círculo de amizades bem pequenininha, porque senão vira bagunça... Ninguém se entende nas conversas quando tem muita gente. Mas isso quando há conversas também. Digo esse tipo de cosa porque já vi, não me lembro onde nem quando, um grande grupo de pessoas que se diziam ser amigos saindo no tapa só por causa de que um deles não deu atenção enquanto um outro tentava, com dificuldade, expor suas idéias além de sua gagueira irritante.

As pessoas costumam se irritar com facilidade. Se isso fosse comigo certamente haveria uma grande diferença. Provavelmente deixaria o sujeito gaguejando no canto dele enquanto eu lia um jornal, ou uma revista, ou mesmo ficaria vendo a bunda da garçonete durante seu interminável trajeto de ir e vir. Agora, se a pessoa fosse crônica no mesmo tanto que sua gagueira, eu não pensaria duas vezes, deixaria o sujeito ali, se estrebuchando enquanto tentava articular sua enfadonha conversa.

Nossa! Falei, falei e não disse nada daquilo que fiz neste dia. Mas pensando bem, que interessa isso para você? Mesmo porque nem lembro o que aconteceu. Parece que troquei uma idéia não sei com quem lá no café durante uma longa tarde aborrecida, e que depois peguei o ônibus de volta para casa desenxavido, sem ânimo até para desamarrar a cara, de tão cansado e chateado que fiquei daquilo tudo. Ai, ai... Essas minhas tardes de aposentado em pujante atividade um dia irão me matar. Mas é isso. Até a próxima.

Mario Bourges 18:12 [+]
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Domingo, Maio 29, 2005


Estava eu às voltas com um dos meus passa-tempos mais adorados, que era viajar, e não fui sozinho nesta nova viagem. A Olga e as crianças também estava no ônibus. Aliás, eles estão praticamente em todas as viagens. Por sorte tive a companhia dos meus amigos nesta fugida de Curitiba. Sabe, às vezes faz bem dar uma férias da cidade onde se mora. Mas por que de ônibus? Primeiro porque não gosto muito de dirigir em auto estradas, depois porque mesmo se quisesse ir de carro não daria pelo fato de que, meu fusquinha, estava no conserto.

Muito bem, estávamos muito animados e rindo bastante, entre uma tosse e outra, pois o frio já começava a dar sinais de vida. Não que o frio seja problema para mim, gosto disso, mas aí não preciso inventar desculpas para fugir do banho. Atividade tão desagradável entre pessoas de minha faixa etária. Então, o ônibus estava em festa. Pelo menos é o que penso. Pena ter uns capetinhas chamados carinhosamente de crianças neste meio de transporte enquanto fazíamos nossa pequena féria. A gritaria que costumam fazer geralmente me incomoda profundamente. Por sorte nossa o Adalberto, aquele do rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves estava, só para variar, munido com seu equipamento radiofônico.

E para rirmos dos tombos infantis, tanto os das crianças como os nossos próprios durante as constantes idas e vindas ao horripilante sanitário do ônibus, ouvíamos um especial da rádio francesa dedicado ao compositor Yann Tiersen. Oh quanto riso, oh quanta alegria! Assim era nossos roucos gritos no corredor vez ou outra durante a execução das músicas. Houve quem reclamasse de nossas manifestações de alegria, mas logo esqueciam dessas reclamações assim que viam nossas imperícias ao caminhar pelo corredor enquanto o ônibus caminhava. Não posso deixar de mencionar como era vexativo sair do banheiro todo urinado, isso era causado, claro, pelos balanços descoordenados do veículo durante seu trajeto até sei lá aonde.

Sabe lá aonde? Você deve estar se perguntando. Eu lhe direi o seguinte: isso mesmo. Tanto fazia saber para onde íamos, não iriamos descer no destino porque não tinha graça. Nossa vontade (minha e dos meus amigos) era apenas festar dentro do ônibus, como se fôssemos um bando de colegiais ranhentos e extremamente ruidosos quando sai da escola em direção ao lar. Quanto a família... o que têm eles? Mesmo porque já estão acostumados a esse meu estilo de vida, um pouco... deixe ver... levemente alternativo. Isso, alternativo. O resto da viagem foi uma verdadeira algazarra. Travesseiros, sapatos e qualquer coisa frouxa (menos dentaduras) eram arremessados de um lado para outro sem o menor pudor. Coisa de gente jovem... creio eu. Posso dizer que minha família vai à loucura quando isso acontece. Mas o que posso fazer? Nada oras.


Assim era nossa disposição para brincar. Assim estavam nossas caras dentro do ônibus. Assim estávamos nós, todos com cara de idiota. Mas tudo bem.
Mario Bourges 18:11 [+]
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Domingo, Maio 22, 2005


Esta semana resolvi dedicar-me aos pensamentos. Portanto, nada poderia fazer de diferente. Afazeres domésticos? Nem pensar! Primeiro porque estava resolvido em me ocupar de pensamentos, qualquer um que seja, e segundo porque não tenho o hábito de fazer nada em casa mesmo. Sendo assim, tanto fazia ficar pensando ou não. Mas como estava decidido por esta atividade seria melhor, para o pessoal lá de casa, em não me contrariar. Sendo assim, o melhor que eu tinha a fazer era sentar na minha pavorosa poltrona e ligar a televisão para ver o que passava.

Imaginando que tal coisa iria acontecer, coloquei então no canal daquele programa estranho chamado de... o... a... não lembro como se chama aquilo, mas pelo menos, se não ajudasse a me fazer pensar, faria ao menos o favor de me deixar acordado para xingar o programa se assim me desse vontade. Mas antes de sentar-me ali, naquele assento maltrapilho, peguei algumas latas de cerveja para melhor embalar minha vontade de ficar ali, sentado assistindo ao programa e suas bizarrices descomunais. Sei que às vezes tal atividade enche o saco, mas neste caso eu mesmo procurei isto para minha tarde.

... "E voltamos com o programa: De Olho no Insano"...

APRESENTADOR: Olá telespectadores, estamos de volta com a seção do programa que mais tem audiência nas suas tardes televisivas. E a tão esperada entrevista de hoje é com o estudioso e PhD na área de filosofia, psiquiatria, psicanálise e hipnotismo, o Doutor Eustáquio. Sim, o mesmo que por muitas vezes não pode confirmar sua presença aqui por falta de tempo. Isso pelo fato de que suas atividades no SUS estão por demais cansativas. Consigo acreditar doutor. Mas diga-nos uma coisa: como foi que o senhor conseguiu este resultado de que todos nós, seres humanos, ser-mos manipulados através de uma hipnose infinitamente maior que tudo.
D.EUSTÁQUIO: Tipo assim; através de estudos oras.
APRESENTADOR: ... Mas... tudo bem... é... eh, eh! É... poderia nos explicar como isso seria possível?
D.EUSTÁQUIO: Oh, sim! Posso começar a explicação? Perguntou o médico um pouco confuso.
APRESENTADOR: Ora, por favor. Brinde-nos com seu conhecimento. Disse assim o apresentador com cara de impaciente.
D.EUSTÁQUIO: Veja bem; a nível de conhecimento é o seguinte: quando nascemos vimos tudo ao nosso redor de uma maneira um tanto quanto confusa não é mesmo? E esta sensação continua ao longo de nossas vidas até o final desta vida, pois aí vem uma outra vida, ou seja, uma outra considerada auxiliar para a primeira. Tudo bem, o que estou querendo te dizer pra você é: quem comanda todas essas vidas ainda não se sabe, mas uma comunidade de estudiosos desconfia, depois de uma longa bateria de estudos, que isso tudo seja obra de uma grande ilusão de ótica.

Tipo assim, nossas vidas e nossos cotidianos seriam reflexos de um enorme espelho colocado de maneira estratégica ao redor de nosso planeta, que este é categoricamente criado de maneira imaginativa, digo, holográfica, através de uma máquina hipnótica, que pode estar situada em um quintal qualquer. Inclusive, nós poderemos estar sendo manipulados através dessa máquina, ou dessas máquinas neste momento. Aliás, nós poderemos ser fruto de nossos próprios sonhos também imaginados pelos nossos próprios "eus" da segunda geração, ou, a vida auxiliar, como disse há pouco tempo. E há uma possibilidade de ainda ser-mos uma visão holográfica também.
APRESENTADOR: Poderia ser mais claro doutor?
D.EUSTÁQUIO: Ninguém merece! Poxa! Vim aqui para explicar toda uma situação. Fiz a coisa da melhor maneira possível e ainda não cobrei nada pela visita. E agora me diz para mim que não entendeu?

Que sujeito estúpido esse. Será que ele quer apanhar? Gritei para mim mesmo, em pensamento, enquanto jogava a primeira lata de cerveja na cabeça do gato que estava dormindo no pufe da sala. Sabe, tenho de aproveitar esses momentos de distração desses animais ariscos.

APRESENTADOR: Olha, não dizer fazer com que o senhor pensasse desta maneira... mas já que tocou no assunto... o senhor é que deveria nos pagar para ouvir tamanha besteira dita aqui. E tem mais...
D.EUSTÁQUIO: ... Olhe aqui, tipo assim, bem nos meus olhos... percebe de uma coisa? Você está com sono e nem se deu conta disto. E tem mais, todos vocês que estão me assistindo a mim neste programa vai dormir assim que contar até três: é um, é dois e é três.

Muitos minutos mais tarde...

-- Ô Baltazar, vai ficar em frente a esta televisão por muito mais tempo que já está ou vem dormir comigo? Perguntou-me a Olga perto das onze horas da noite. -- Não vai dizer nada? Vou te abandonar aí nessa poltrona fedida. Azar é teu, já vou dormir. Até amanhã heim! Tchau! Se ficar aí mesmo vou querer o café preparado bem cedinho, pois tenho de fazer umas compras... e você vai comigo. Não adianta nem se jogar no chão e se espernear como faz sempre. Ah! Tem um detalhe: se fizer manha, como costuma fazer, vai apanhar de cabo de vassoura. Sinceramente você está precisando de uns corretivos. Agora vou dormir mesmo heim. Tchau! Disse-me assim a Olga, mas eu já estava dormindo. O encanto daquele médico maluco, aquele que foi ao programa, só foi quebrado quando a minha doce Olga rachou o cabo de vassoura nas minhas pernas. Ai, ai, como isso dói.


Aqui é o exemplo que o doutor deu para explicar a dita vida auxiliar, ou visão holográfica de nós mesmos. Não sei se acredito nessas coisas.
Mario Bourges 20:37 [+]
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Sábado, Maio 14, 2005


Nesta semana estava eu todo tranqüilo quando, de uma hora para outra comecei a espirrar ininterruptamente. O pior de tudo é que isso aconteceu enquanto estava em uma fila de padaria. Quer dizer, não sei porque pior, pois a fila que dava algumas voltas por dentro e por fora do estabelecimento acabou rapidinho. Mas posso dizer que essa é a única vantagem que tem a pessoa gripada. Logo após este acontecimento, veja você o que me aconteceu, não conseguia pedir a porcaria do pão de tanto que espirrava. E não era só isso, meu nariz vazava como poucas vezes. Vazava o quê? Oras, mingau de aveia que não era.

Então, após toda a cena na padaria, fui para casa levar os pães para casa e trocar de calças, pois elas, as calças, encontravam-se levemente umedecidas. Não, não estava chovendo, era o efeito da, do... Ah, deixa pra lá. E assim que estava com roupas secas e tudo mais resolvi ir para o café, ver se encontrava alguém bom de papo. Isso mesmo, fui lá para procurar alguém com um assunto interessante, e, se possível, até conversar com tal pessoa. Desta vez estava sozinho, meus amigos tinham viajado numa excursão para o Parque Nacional de Vila Velha. Agora veja só, viajar para visitar um monte de pedras. Tudo bem, melhor que ir até uma cidade para ver construções feitas em canos de ferro como se fossem a 9ª maravilha do mundo. Pelo menos Vila Velha é uma coisa natural. Não foi feita por políticos interessados apenas por votos. Bom, deixe-me continuar com a história porque não estou aqui, me lascando todo para escrever sobre políticos.

Mas aconteceu o que eu já esperava, não tinha ninguém lá capaz de conversar adequadamente comigo. Mas isso também não foi nenhuma grande surpresa para mim. Resolvi que seria melhor ir para casa assistir algum filme, ou qualquer outra coisa que prendesse minha atenção por mais de dez minutos consecutivos. O que estava difícil de acontecer devido aos meus incansáveis espirros. Porém, assim que cheguei em casa me deparei com minha família em polvorosa, e tudo por causa de um simples ratinho correndo livremente pelo quintal, garagem, despensa, corredores, enfim, pela casa toda.

Tentei acalmar o pessoal dizendo que já iriamos pegar o tal rato. Qual nada. Estava muito difícil de capturar este bicho. Ratoeiras não surtiam o efeito desejado, pois ele simplesmente dava um jeito de pegar o alimento sem tocar na armadilha e caia fora sem maiores problemas, ileso. Bicho esperto, pensei. Mas não mais que eu, continuei pensando. E entre uma seção de espirros e outra eu pensava na melhor maneira de se pegar este maldito roedor. Não que ele estivesse me incomodando, mas ficar ouvindo a Olga e as meninas a gritar pela casa não é o tipo de coisa que aprecio. Aliás, eu odeio gritarias. Sejam elas de quem for.

Para amenizar esta balbúrdia resolvi fazer uma coisa um tanto quanto inusitada. Enquanto pensava em meio as minhas seções de espirros, lembrei da história do flautista encantador de ratos. Isso me pareceu uma idéia fantástica. Bastava apenas encontrar um flautista disposto a fazer este tipo de coisa. O que seria, digamos, difícil, pois não é muito fácil encontrar flautistas na cidade. Quanto mais na região onde moro. Mas não deixei-me intimidar pelos pensamentos desoladores que começava a me aborrecer profundamente. Sendo assim, o recurso foi sair de casa para ver se encontrava alguém capaz de fazer este tipo de coisa.

Depois de algumas horas procurando um flautista me deparei com um sujeito que tocou durante anos numa banda marcial, num antigo coreto existente no centro da cidade, mas não como flautista, e sim como trombonista. Veja bem, era tudo o que me restava fazer. Então, como só tinha ele, iria ele mesmo. Além do mais não poderia reclamar do serviço, como ele está aposentado há um bom tempo, e ganhando a mixaria que ganha de aposentadoria, certamente ficaria contente com uma ajuda de custo. E pensando desta maneira o sujeito foi com seu trombone totalmente motivado para encantar o rato e sumir com ele. O plano era perfeito, bastava apenas dar certo. E se caso não desse certo ele podia esquecer do pagamento.

No dia seguinte estava lá, em frente a minha casa, o gordinho, vestido a caráter e com seu instrumento musical, pronto para dar um basta nos dias maravilhosos do rato. Bom, logo nos primeiros acordes, se é que existe esse tipo de coisa neste instrumento, subiu, misteriosamente a roupa do trombonista. Tal ato revelou um umbigo plácido e ligeiramente peludo, digo, felpudo. E isso graças à sua roupa que havia depositado, sem nenhum propósito, esses malditos fios de roupa no orifício de sua barriga horrivelmente grande. Até aí nada demais. Nada demais mesmo porque não havia saído nenhum rato. Apenas vizinhos curiosos saíam de suas casas para ver o que acontecia. Claro, vizinhos só servem para esse tipo de coisa mesmo.

Lá pelas tantas, depois de uma hora aproximadamente, saiu uma velha de uma casa vestida com uma capa de chuva cor de abóbora e um chapéu, colocado categoricamente para assustar as pessoas da rua. Ah, quase esqueci; então a tal velha saiu correndo da casa ensandecida pelas ruas para agarrar o músico, ou o instrumento do músico, ou para fugir daquela tormenta que havia se estabelecido após o gordo ter começado a tocar aquelas malditas musiquinhas. Na verdade eu não sabia o que estava acontecendo com a mulher.

Olha, para resumir um pouco a balbúrdia acontecida na minha rua, tivemos que chamar a carrocinha para prender a velha, que não parava de gritar e uivar. Quanto ao trombonista, foi apedrejado cruelmente pelos vizinhos locais. Não preciso nem dizer que saiu corrido de lá com seu instrumento todo amassado e ganindo como se fosse um cachorro guapeca escorraçado. Já o rato foi o seguinte: ele ameaçou continuar lá em casa, mas depois que mostrei-lhe o chinelo faiscando nas paredes de tanta ira, ele caiu fora sem mais demoras. Penso que tudo isso poderia ser evitado com essa simples atitude, mas a gritaria das meninas e da Olga me impedia de pensar nesta hipótese. Mas tudo bem, tudo já foi resolvido. O gordo não precisei pagar, e a velha foi levada embora, menos um incômodo. Quando ao rato... Ele foi se hospedar num vizinho duas casa depois da minha. O que ele vai fazer? Sei lá. E também não quero nem saber.


E aqui está a velha desvairada, porém, ainda sem seu estúpido chapéu. Agora deixem-me em paz. O trombonista não vou mostrar. Bolas, este sujeito só me causou problemas. Quanto ao rato... ele que se dane.


Mario Bourges 16:57 [+]
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Domingo, Maio 08, 2005


Nesta semana estava eu, sentado na minha nunca antes lavada poltrona, enquanto cutucava meu nariz em frente a um estúpido programa de tv qualquer. Ótimo, pensei. Nada para fazer. Só para variar. Continuei pensando. Então, durante um intervalo do programa, vários anúncios comerciais ofertavam diferentes produtos para o dia das mães. Fossem eles úteis ou não. Novamente pensei: "Hum... Não precisarei comprar presente pra ninguém este ano... Como nos outros anos também... Sorte a minha".

Foi aí que pensei o seguinte: poderia presentear a Olga com alguma coisa. Afinal de contas faz tempo que não como pudim de leite, e vocês sabem que eu gosto muito deste doce. Interesseiro eu? Claro que não. Sou apenas uma pessoa oportunista. Inclusive, como sei que ela adora cozinhar, estou pensando em presenteá-la com algum produto para saciar seu tolo augúrio, uma panela nova, leite condensado e mais um outro ingrediente que não sei qual é, por exemplo, seriam fantásticos. E sei que ela daria pulos de felicidade quando visse essa bagulhada toda chegando em casa.

Mas uma estranha coisa me aconteceu. Na sexta-feira resolvi sair para procurar esses apetrechos para satisfazer suas necessidades básicas, que seria cozinhar para mim. Porém, veja só você, em poucos minutos fora de casa, esqueci completamente o que estava fazendo no ônibus em direção ao centro da cidade. Mas também nem me apertei com esses pensamentos desconsertantes. Assim que desci na praça Rui Barbosa fui direto para o café. Certamente iria encontrar o Adalberto lá, pois normalmente ele sai na sexta-feira para comprar pilhas para suprir a necessidade de ouvir sua preciosidade, aquele rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves que possui.

Uma coisa boa disso é que ele sempre leva seu rádio consigo para o café. E quando isso acontece o dono do estabelecimento desliga o equipamento de som do ambiente para ouvir as músicas e chiados característicos do equipamento de som do Adalberto. Praticamente é uma festa. Todos param para ouvir as novidades em termos de notícia e de música do mundo. Mesmo sem ninguém entender porra nenhuma. E também nem preciso dizer que o resto do dia fica inutilizado para mim. Tudo fica em função do rádio.

Cafés, chás, algumas cervejas e um pouco de sorvete para estragar com a garganta foi o suficiente para me fazer esquecer completamente da necessidade de cozinhar para mim que a Olga tem. Paciência. Nem tudo é perfeito. O problema disso tudo está em não poder comer meu adorável e irresistível pudim de leite. Mas aí quem sabe fique para o próximo dia especial. Quem sabe o dia dos pais, se alguém lembrar de mim. Mas se depender de alguém lembrar dessa data certamente não comerei nada de bom, pois ninguém lembra ou faz questão de lembrar desse dia. Fazer o quê? Ah, tudo bem.


Esta foi a visão de quando cheguei em casa no dia das mães. Esta aí, por incrível que pareça, é minha sogra, simpática não? Por sorte ela anda mais agradável. Deixou de encher meu saco.

Mario Bourges 14:54 [+]
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Sábado, Abril 30, 2005


ANNO II

Esta semana foi muito esperada por todos aqueles que me conhecem. Bom, pelo menos é assim que penso. E também quero acreditar nisto. Como todo mundo sabe, este blog, comemorou, por incrível que pareça, dois anos de existência. Parece pouco tempo, mas se for analisar pelas experiências vividas aqui daria para escrever um livro, ou, na pior das hipóteses, este blog mesmo. Mas nesta semana, tudo que nem imaginava acontecer aconteceu. Coisas boas? Ora, veja bem... Ah! Continue a ler os fatos ocorridos e você tirará suas próprias conclusões.

Para começar a semana, após a ligação do prefeito playboy querendo esquematizar uma grande festa no prédio daquela boate que pegou fogo há pouco tempo atrás, e que ainda ninguém se indignou em consertá-lo, e que ainda, também, nem confirmei nada sobre minha presença, e nem vou confirmar porque sei de sua intenção de puxar meu saco para adquirir maior popularidade. Bom, o que estava falando mesmo? Ah, sim; descobri, por experiência própria, de haver adquirido uma doença chamada... rodavidros... Não, não era isso. Ah, já sei; é rotavírus. Mas isso também não tem nada haver com que vou relatar. Bom, até tem, porém... Ah! Deixe-me continuar com esta narração.

A maneira que descobri esta doença foi um tanto quanto peculiar. Como foi? Oras, espere um pouco, já estou contando. Estava eu ouvindo uma música do velho Tom Waits no rádio emprestado do Adalberto, aquele de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves, e que, por incrível que pareça não consegui, ainda, convencer o proprietário desta maravilha sonora de vende-la para mim. A um preço módico é claro. E... Oh, sim; ouvia a música enquanto tomava meu banho, quer dizer, na verdade estava fazendo minha barba com a água do chuveiro. Sabe como é... Água quentinha, uma bela lata de cerveja para acompanhar a cantoria, minha e a do rádio, o banho e a barba, propriamente dita. Lá pelas tantas resolvi soltar um inocente peidinho, pois minha barriga, de uma hora para outra ficou muito volumosa. Dava até para apoiar a lata da bebida e o aparelho de barba nela se quisesse. Então deste quase adorável peidinho saiu um tremendo rojão capaz de fazer entortar a porta do boxe. Além de virar o chuveiro para cima.

Com o susto dos choques e estalos no chuveiro resolvi debandar dali rapidinho. Nem liguei se estava molhado, pelado, ou com a barba pela metade da viagem. Cai fora do banheiro, mas junto comigo veio a lata de cerveja e o rádio. Porém, o Tom Waits já tinha parado de cantar. Aliás, o rádio misteriosamente havia parado de tocar qualquer coisa depois deste episódio. Eis que, após toda essa correria, percebi, quase sem querer, um rastro de merda pela casa. Pensei a princípio ser obra do gato, ou do cachorro, mas pela quantidade de material espalhado pelo chão da casa deduzi ser minha própria obra. Mas que grande obra essa minha heim! pensei.

Mas não deixei-me intimidar pelo desarranjo. Tratei de me forrar adequadamente, pus uma roupa, claro, e fui para rua. Comemorar, melhor dizendo, tirar proveito do sucesso que o blog tem feito neste segundo ano de existência. O problema seria em que direção rumar numa hora dessas, realmente não sabia muito bem aonde ir. Sendo assim, fui até o Odil para tomar aquele copo de chope que só o Distinto tem. Não quero dizer que o boteco seja exclusivo na venda de um determinado chope. Não é isso. Talvez se eu tomasse água tivesse o mesmo efeito. Na verdade é o ambiente que deixa tudo assim. Agora se tivesse aquela cerveja que começa com K... Veja bem, nem com este ambiente resolveria o caso.

Então cheguei lá já com lágrimas nos olhos. Havia uma faixa com dizeres comemorativos ao blog. Além da bandinha tocando a música criada para ele (blog), que são todas aquelas músicas boas existentes. Foi aí que pensei: é aqui que vou ficar para beber. A partir daí, saquei de um charuto do bolso do vizinho de mesa, sem que ele percebesse é claro, e fui para a porta com meu copo, para beber e fumar tranqüilamente enquanto ouvia e cantarolava aquelas músicas. Só parei de fazer isso quando vi o carro super, hiper, duper esporte do prefeito chegando no bar, mais a sua comitiva horrível estacionando e interditando as ruas da região.

O que fazer então? Pensei. Paguei minha conta e resolvi cair fora dali antes que o almofadinha viesse me pedir algum favor ou algo assim. O que eu fiz? Imediatamente me entrouxei no meu fusquinha e cai fora daquele lugar à procura de um ambiente menos paparicado. Como não avisei ninguém da minha saída, certamente não iria encontrar nenhum dos meus amigos. Então... O que fazer? Circulei por umas ruas até me perder definitivo por um bairro que nem sabia qual era. Mas também, que importa isso? Pensei.

Foi aí que vi, num prédio, uma festança daquelas acontecendo. Como sou decidido nem titubiei. Desci do carro ainda em movimento e corri para dentro do prédio. O que tem o carro? Não se incomode com meu fusca. Ele parou na traseira de um Mercedes que estava estacionado logo adiante. E ainda por cima, com meu carro nada aconteceu, pois ele tem um forte pára-choque. Ao porteiro disse-lhe apenas que era um convidado da festa, dei as costas e entrei, cumprimentei a todos os convidados como se já soubesse quem eles eram.

Comi e bebi muita coisa. Coisas, aliás, que nem desconfiava o que era. Mas como estava liberado tratei de aproveitar. E ainda por cima fiz amizade com dois sujeitos logo de início. Um era o churrasqueiro, e o segundo era o sujeito que preparava os coquetéis para a festa. Fantástico, não preciso mais que duas pessoas para conversar numa festa. Pensei. Então, como estava um pouco cansado, resolvi me despedir dos dois mais novos amigos e cair fora de lá antes que o proprietário do Mercedes descobrisse seu carro levemente amassado na traseira. Falando em traseira... Lembrei do meu traseiro. Estava muito pesado. Mas só iria vê-lo quando chegasse em casa. Afinal de contas ainda detinha aquela doença traiçoeira, o rotavírus, que faz a pessoa se cagar sem perceber. Ai, ai, um dia saro desta porcaria, pensei.


Aqui foi a festa que o prefeito preparou para mim. Foi na rua mesmo. Acabou desistindo de fazer naquela boate incendiada. Talvez tenha sido melhor assim, mesmo eu não tendo participado dos festejos. Sabe, não quero aparecer do lado desses tipos, podem pensar que estou fazendo alguma progapanda para esses políticos, ou qualquer coisa assim.


Como havia comentado; este era o tipo de coisa que tinha para comer além do churrasco na tal festa. Eu optei por não comer.


Já este objeto; creio que nem preciso comentar para que serve. Porém, esta era minha visão quando cheguei em casa, pois estava tonto de tanto beber, e ainda por cima, com as calças cheias. Realmente aquila visão foi como um milagre para mim. Era tudo o que eu precisava para aquele final de noite.

Mario Bourges 17:57 [+]
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Domingo, Abril 24, 2005


Nesta semana deu-me vontade de fazer algo que há tempos não fazia, e que aprendi quando passei uns tempos na casa dos pais do Emental, ou seja, meus tios. O Emental, para quem não sabe, é um primo meu que mora no interior. Bom, resolvi dedicar-me ao plantio de flores, frutas e verduras no quintal de casa. Cheguei ao pensamento de que se eu tivesse uma hortinha, ou melhor, a minha própria hortinha, poderia eu ficar mais tranqüilo. Sendo assim, comprei umas sementes, uma pá e um rastelo de jardinagem e pus-me a preparar a terra para este fim.

Primeiramente senti uma enorme vontade de amarrar o cachorro em sua própria casinha, e impedir o gato, por meio de um pequeno alambrado. Sim, fiz um cercadinho em torno do bicho, logicamente. E isso foi para que não tivesse contato com as plantinhas. Nunca se sabe o que esses animais são capazes de fazer diante de umas pequenas tentações coloridas e espalhadas pelo terreno. E aí, depois deste cuidado que tomei, era chegado o momento para a atividade em si. O plantio.

Contudo, no meio da semana o tempo resolveu mudar. De dias ensolarados passou a bruscos. E num desses dias, especialmente falando, teve direito a relâmpagos, trovões e uma verdadeira enxurrada, que mais parecia um dilúvio. Assim mesmo pensei que isso seria bom para as plantas, pois elas necessitam de água. Mas aí então percebi, quase no final desta pequena amostra de fim de mundo, que as sementes ainda estavam lacradas dentro das embalagens. E só quem estava se molhando eram meus animais e meus apetrechos de horta (pá e rastelo).

No dia seguinte bem cedo, depois do meu café é claro, calcei minhas sete léguas e atraquei-me no banhado, digo, no lameiro para ver o que podia fazer pelos bichos. O cachorro, tive de usar uma pá para retira-lo do chão, porque ele estava simplesmente e inteiramente atolado até a cabeça. Quanto ao gato... Ele havia desaparecido. E levou consigo o cercadinho também. E dois dias após este incidente encontraram meu gato e sua pequena cerca no alto de um prédio de três andares que tem aqui, perto de casa.

Depois dessas coisas resolvi desistir dessa bobajada toda de plantar mato no quintal. Penso que isto não tenha graça nenhuma. Mesmo porque quando quiser comer algumas dessas coisas, menos as flores, claro, vou ao mercado comprar. Ou a qualquer lugar onde se vendam essas porcarias. Já o cachorro; quando me vê entrando pelo portão foge desesperadamente para os fundos da casa. E o gato desaparece misteriosamente diante de meus olhos. Parece até coisa de mágica. Mas também nem me incomodo com essas frescuras animais. Sei que daqui a um tempo tudo voltará ao normal.


Depois de tanta confusão não poderia terminar em outra coisa. Até as plantas reagem de maneiras estranhas.
Mario Bourges 01:06 [+]
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Segunda-feira, Abril 18, 2005


O sonho é uma coisa fantástica não é mesmo? Pelo menos é assim que penso. E digo isto porque nesta semana sonhei que era uma espécie de Barão Munchausen, com suas histórias imaginativas e seus fiéis e estranhos companheiros. Quanto àqueles que fizeram parte de meu sonho, posso dizer que foram bem adequados, pois eram realmente companheiros e bem estranhos. O sujeito que era o mais rápido do mundo, aquele que tinha as pernas muito musculosas, e que para ficar parado usava um peso em cada perna, ficou por parte do Pereirinha. Lógico. Sempre ligeiro naquilo que faz. Mesmo quando faz errado. Aliás, nestas situações ele faz mais rápido ainda que o normal.

Bom, deixe-me continuar. O Azambuja surgiu neste devaneio com uma grande destreza na pontaria. Sim, usava até um tapa olho, como o do personagem do conto transformado em filme, que também era míope ou sei lá o quê. Porém, na hora de atirar ele enxergava o alvo a centenas de quilômetros. Não sei explicar, mas talvez essa analogia tenha se dado pela riqueza de detalhes que costuma brotar em sua mente nos momentos de emparelhar guardanapos, copos, cadeiras e o que mais tiver ao seu alcance.

Agora, quanto ao homem mais forte do mundo... Isso é uma coisa difícil de entender como é que acontece tal coisa nos sonhos, mas tudo bem, em sonhos não existem barreiras mesmo. Pensando desta maneira consigo entender essa maluquice toda. E então, fazer com que meu cérebro assimile a grotesca cena de um homem raquítico e empenado pelo peso da fivela de seu próprio cinto carregando, sozinho, algumas toneladas em suas costas. Já identificaram quem era este raquítico fortão? Oras; era o Adalberto, que tem como hábito carregar, para cima e para baixo, seu rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves. Que por sinal é o aparelho sempre cobiçado por mim.

Na história do Barão tinha também um anão que conseguia ouvir qualquer coisa há muitos quilômetros de distância. O que não foi o caso para meu sonho, pois não conhecia ninguém que fosse anão para se encaixar neste personagem, principalmente porque desconhecia da existência de alguém que ouvisse tão otimamente melhor do que qualquer outra pessoa na face da terra. Pelos efeito dos ruidos infernais que nos deixam surdos e coisas assim. Ainda mais quando as pessoas que compõem seu circulo de amizades são uns velhos aposentados. Mas isso também não vem servir como explicação para o tal sonho. E também, quem se importa com essas bobagens todas? Afinal de contas, isto é, digo, isto foi apenas um simples sonho. Nada demais.

Agora, que estou querendo encerrar com a história da semana, você vem perguntar os nomes dos respectivos personagens existentes nesta fábula para mim. Oras, vá te catar! Lá vou eu saber o nome de cada um deles, pô!... Parece louco. Se quiser saber realmente quem é quem nesta aventura procure o filme. Se não encontrar azar é teu, mas não me aborreça porque já estou com dor de cabeça. Além do mais, devo me aprontar para sair, passear um pouco pelas ruas da cidade e aproveitar para ver umas bundinhas rebolando por aí.


Aqui estava o Azambuja fazendo mira para atirar num galho de uma árvore qualquer localizada na China para derrubar um piolho que estava próximo de um filhote de pardal em seu ninho. Que coisa heim.
Mario Bourges 01:45 [+]
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Domingo, Abril 10, 2005


Esta semana, após ignorar drasticamente minha pegajosa e irresistível poltrona, resolvi dar uma voltinha pelo centro da cidade, ver como estavam as coisas. Olhar as novidades e as ninfetas a passear pelas ruas tornava-se necessário para mim, pois minha vida anda murcha e meio desmotivada por esses últimos tempos. Desta maneira poderia dar um pouco de alegria aos meus olhos já cansados de ver tanta porcaria na televisão ou espalhada por entre meus vizinhos. Sendo assim fui até o velho ponto de encontro meu, o café.

Chegando lá procurei imediatamente um lugar para sentar porque, se ficasse por lá "comendo mosca" como na maioria das pessoas fazem quando vão lá, com certeza iria perder o lugar. E aí, não adianta chorar, nem se fazer de desentendido e sentar na primeira cadeira vaga que surgir porque isso não dá certo. É confusão na certa. Digo estas coisas porque já sou conhecedor da causa. Mas não precisei me preocupar com procura de lugares, os velhos conhecidos me convidaram para me juntar a eles numa mesa lá.

A princípio me senti alegre pela ação dessa gente, mas depois percebi que essa gente toda continuava a mesma de sempre, ou seja, chata. Creio que perdi parte do momento que estive lá só para traçar uma rota de fuga. Sabe, não gosto de ficar com essa sensação de pavor enquanto estou entre pessoas. Talvez seja pelo fato de eu não gostar muito de lugares onde há aglomerações de pessoas... Chatas, fofoqueiras e intrometidas. Sei que é raro ir a lugares públicos e não encontrar pelo menos uma pessoa desse tipo. Embora eu sonhe encontrar um dia um lugar com essas características. Quer dizer, até tem, mas ando com preguiça de ir lá. Inclusive, posso afirmar que ultimamente ando com preguiça para fazer qualquer coisa. Mas isso até nem é uma grande novidade para vocês.

Enfim, falei, falei e nada disse. Grande novidade também. O que quero dizer, ou penso querer dizer, é que num dado momento levantei da cadeira onde estava sentado e fui embora. Nem liguei para quem estava me acompanhando, pois sei que não eram meus companheiros de tantos outros encontros. O quê? A conta? Claro que deixei para eles pagarem. Onde já se viu isso; ter de pagar, ainda, uma conta da qual quase nem tive participação. Seria um insulto à minha carteira, já um tanto murcha por causa dos meus sócios: o governo, que administra meus, digo, nossos impostos mensais, e lógico, meus "adoráveis" parentes.


Para vocês terem uma idéia, até mesmo as garçonetes do café estavam surrupiando meus pedidos.
Mario Bourges 21:38 [+]
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Segunda-feira, Abril 04, 2005


Olha, o que aconteceu esta semana por aqui todo mundo já sabe. Não? Ora, foi o aniversário de Curitiba, e foi uma loucura só também. Vejamos; por onde começo? Ah, tanto faz, nem quero me prolongar com esta história mesmo. Mas posso adiantar que foi um pouco mais exagerado que festa de casamento de polaco. Como assim? Vou explicar. Festa de polaco dura três dias. Já a festa deste aniversário durou exatamente sete dias. Festança da boa essa não? É, mas, não sei se foi tão boa assim. Bom, mas suspeitem de mim, pois nunca gosto dessas festas, muito menos de aglomerações. Mesmo porque tais aglomerações são formadas por pessoas, e eu odeio pessoas.

Parece perseguição minha com os órgãos públicos e coisa e tal, mas veja bem: um dia antes do aniversário propriamente dito, a prefeitura, sabendo que iria juntar muita gente tratou de saciar a sede das pessoas, amigavelmente, durante as festividades oferecidas que durariam a semana toda. Como o calor estava intenso uma grande equipe de garapeiros foi contratada para prestar serviços nesses dias. Sim, mas claro. Todos os caldos-de-cana foram gentilmente cedidos gratuitamente a todos aqueles que quisessem saborear desta bebida. E o prefeito, referente a este assunto, não poupou esforços. Contratou para esta equipe uma frota fenomenal de kombis e seus respectivos garapeiros, todos de Santa Catarina, para trabalhar por aqui.

Sei que muitos dos leitores não gostam de minha opinião aborrecida sobre a desconfiança dos pobres, tanto os de espírito quanto os monetariamente falando, sobre tudo aquilo que lhes são ofertados. Mas também, o que isso me importa neste momento saber o que vocês gostam? Absolutamente nada. Pois bem; deixe-me continuar com essa chatice. Uma semana inteira se passou com todo o ranço que se necessita para transformar sua vida em lamúrios sem fim. Imaginem só ter de ouvir no rádio, ou assistir na tv, todas as horas do dia a prefeitura anunciar a programação dos conjuntos musicais, um mais sem graça que o outro, diga-se de passagem, que iria tocar no Parque Barigüi no domingo. Haja saco.

Então, com esse pensamento esforcei-me em pensar positivamente para que o dia de domingo fosse chuvoso. Orgulho-me em dizer que meu positivismo realmente é de lascar. Não é de ver que o dia foi bastante úmido. Como eu gostaria que fosse. Agora você me pergunta o que eu ganhei com isso; oras, nada. Mas também, o que me importa saber de todos os curitibanos, sorrindo e se molhando enquanto os maloqueiros faziam sua própria festa, aquela do arrastão? Absolutamente nada. Como sempre. Nem sobre os efeitos causados pelo caldo-de-cana que eles tomaram, se é que tomaram. Agora, por gentileza, preciso terminar com isso imediatamente. Por quê? Diabos; estou de saco cheio.

Mario Bourges 01:03 [+]
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Domingo, Março 27, 2005


Nesta semana estava eu, sem nada para fazer, apenas sentado na minha esterilizante poltrona. Digo assim, esterilizante, porque quem resolve se sentar nela fica com o saco cheio e imprestável para qualquer tipo de ação. Bom, quanto ao quesito "sem nada para fazer"... Olha, creio que isso não seja nenhuma novidade para ninguém. Então, deixe-me contar algo agora, porque depois de toda essa balela se faz necessário que a tal história tenha um conteúdo no mínimo interessante, ou educativo, ou talvez útil... Engraçado. Ah, sei lá. Algo.

Sabe, enquanto olhava para minha própria unha do pé lembrei de um fato que me aconteceu por esses dias. Estávamos, eu e a Olga, aproveitando o que a vida tem de melhor num passeio de escuna no litoral de Santa Catarina. Isso se deu através de um concurso de frases sobre a Páscoa, promovido por uma marca de batatas fritas que nosso neto participou e ganhou, e que por causa de seu bom coração nós podemos usufruir deste maravilhoso passeio. Além das dúzias de pacotes desta batata frita, com formato de ovo, horrível por sinal, que tivemos que comer. E ainda, ter uma fotografia nossa estampada no verso do pacote. Mas tudo bem. Isso não vem ao caso.

O barco era realmente muito bonito, tinha uns dois andares, se não me falhe a memória. As pessoas que lá estavam eram bastante divertidas, para não dizer, chatas. Riam alto e tudo mais. Mas como eu já estava com uma lata de cerveja à mão nem liguei. Porém, lá pelas tantas, com uma certa quantidade de álcool na cabeça, consegui perceber que as pessoas começavam a tornar-se agradáveis ao longo da viagem. Ora, ora, pensei. Assim é bem melhor viajar, todos em sintonia. Continuei pensando.

Inclusive, para ilustrar melhor esta viagem, tive o apoio incondicional da minha companheira lata de cerveja para também fazer umas gracinhas enquanto viajávamos. Na verdade, essa bebida era meu combustível naquele meio de transporte, pois a água que vendiam, pela hora da morte, tinha gosto de terra com minhoca. Não! Nunca provei comer terra que tivesse minhoca. Agora, só a terra... Mas isso porque eu era criança e com a barriga forrada de vermes. É... Veja... Vamos mudar de assunto, digo, voltemos ao assunto anterior. O da viagem, claro.

E quando eu já estava bem, em plena harmonia com todos os tripulantes do barco mais o resto dos viajantes, resolvi que tinha de fazer algo para animar, digo, descontrair as pessoas que ali estavam. O que fazer então? Essa era minha dúvida. Lembrei-me da cena do filme Titanic (aquele da versão colorida que fez um grande sucesso) em que o jovem casal praticamente se debruça na grade da proa do navio formando uma bela imagem. Bom, fiz exatamente com a Olga. Todos os demais passageiros riram bastante das gracinhas feitas por mim. Na verdade eu estava, modéstia parte, fazendo, digo, eu era o centro das atenções. Estava bastante popular. Muito bem. Até aí nada de mais.

O problema consistia no depois. Como eu já estava embalado no álcool, e tão somente nisso, meu estômago resolveu embrulhar com o balanço do mar, claro! Isso já era de se esperar, pois só estava bebendo, comer que é bom nada. Só podia dar no que deu. Meu aspecto minutos depois não lá dos melhores. Meu trajeto que antes era entre popa e proa na maior alegria, depois da primeira embrulhada estomacal meu trajeto ficou entre o sanitário da cabine do capitão e o sanitário do povão. Logicamente que entre esses dois sanitários eu fazia uns servicinhos pelos corredores do barco. Minha popularidade se esgotou em poucos minutos. O que já era de se esperar. As pessoas de antes, que me apoiavam nas brincadeiras nem me olhavam na cara depois. Só porque eu passava por entre eles com a cara toda amarelada de enjôo, e a roupa levemente babada. Algumas dessas pessoas, inclusive, viravam a cara nos momentos de minha circulação pelo pequeno navio. Ingratos, isso sim.

E depois do fiasco sem tamanho estou aqui, em casa, me lambuzando com meu enorme ovo de chocolate. Além das minhas latas de cerveja, minhas fiéis companheiras para essas horas de tédio entre família. Mas não se preocupem. Já tomei as devidas medidas de segurança. Estou com um pacote de remédios ao meu lado para eventuais problemas de fígado, ou de estômago, ou de qualquer outro órgão que venha a apresentar defeito depois dessa comilança toda. Agora, quanto à cara feia dos parentes, e dos parentes dos parentes... Nem ligo. E acredito na hipótese que eles nem liguem para isso também. Sabe, todos esses anos juntos ajudou para que nós desenvolvêssemos técnicas de identificação de humor. Quando um não está bom o outro não fala nem ri, e como na maioria das vezes eu estou de mal-humor, ninguém fala com ninguém, e nem ri para ninguém. Isso sim que vida boa.


Aqui está o lindo barco antes de partir para o mar. Todo limpinho e cheiroso. Depois dessa viagem ouvi dizer que o capitão iria queimá-lo. Só por ter visto sua preciosidade toda vomitada. Birrento este capitão não? Tudo bem, nem liguei para essas frescuras.
Mario Bourges 16:58 [+]
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Sábado, Março 19, 2005


Sabe, pensei comigo mesmo enquanto repousava minhas nádegas flácidas num banco de ônibus, por que não conseguimos nos unir para uma causa comum e justa? A onde está aquela coisa de união entre os povos? Todos abraçados como amigos? Heim, onde está? Todos dividindo suas coisas com todas as pessoas que andam por aí... Bom, talvez não seja esse o caminho a ser seguido. Não ficaria contente, nem mesmo à vontade, em ter de dividir minha cerveja, meu pudim de leite e outras coisas mais com outros que nem sei quem são. Façamos o seguinte: pulemos então este item.

Vejamos, enquanto exercito a arte de observar coisas, percebo um pequeno tumulto provocado por dois ladrões que estão fazendo a limpa nos poucos passageiros existentes, penso então, logicamente, como poderíamos fazer para melhorar o mundo. Se é que há alguma maneira a ser feita para que tal desgaste mental não seja em vão. De repente;
-- Ô, chefia; passe a grana pra cá! Disse-me assim um dos ladrões todo eufórico. Em compensação, eu, absorto em meus pensamentos utópicos perguntei:
-- Venha cá, meu nobre ignorante; diga-me, por que somos assim, por que devemos ser assim?
-- Como é que é? Quer levar um "teco" no meio dessa "fussa" velho nojento? Perguntou-me assim no momento em que fazia com que o cano do revólver quase sumisse na minha fossa nasal esquerda.
-- Procure manter a calma meu caro ser amebiano, estou apenas querendo lhe fazer uma simples pergunta.
-- Tá velho, qual é a pergunta? Mas não demore muito para perguntar porque senão te estouro a cabeça. Disse-me assim de maneira pouco agradável.
-- Por que as pessoas não conseguem se entender, e por que o mundo é tão desigual? Será que toda essa situação poderá melhorar um dia? O mundo ainda vai ser um bom lugar para se viver num futuro não muito distante? E por que...?
-- Ei, ei velho, você disse que ia fazer apenas uma pergunta, e ainda por cima fácil. Interrompeu-me com uma voz de pura indignação.
-- Ó, lamento. Desculpei-me.
-- Olha, velho; você fez perguntas muito difíceis para mim. Fiquei até tonto com isso tudo, mas vou dizer apenas uma coisa: o mundo vai para o buraco enquanto tiver andando sobre ele essa raça animal chamada ser humano. E isso é tudo.
Comovido com sua resposta disse-lhe então:
-- Já que é assim, estou convencido. Tome, pegue minhas posses, um relógio e cinco reais. Fui derrotado. Estou exausto com esse monte de pensamento estúpido.
-- Olha, não me leve a mal, mas esse relógio não vale nada. Quanto os cinco reais... Deixe quieto, você vai precisar mais do que eu para ir embora. Disse-me isso e desceram, ele e o comparsa, no próximo ponto.

Sabe, uma coisa estranha estava acontecendo comigo, tinha me envolvido tanto neste assunto que mal tive tempo para me amedrontar com os assaltantes. Claro que tinha borrado minhas calças, mas nem fiz conta disso. Eu ainda pensava em melhorar o mundo, queria vivenciar uma harmonia entre as pessoas e coisa e tal. Pelo menos até passar em frente da casa de um dos vizinhos, que tem agora um novo morador. Com as caixas acústicas postas no jardim da casa, e com toda a potência do aparelho de som sendo expelidas para que o mundo dos vivos e dos mortos conhecesse o seu tremendo mal gosto musical acenou com as duas mãos para mim. Eu, como sempre bem educado retribui o aceno, e ainda disse-lhe apenas umas poucas coisas, como:
-- Olha aqui seu estúpido criador de casos, baixe o volume dessa merda agora antes que eu resolva lascar uma pedrada nesta porcaria que você costuma chamar, creio eu, de aparelho de som. E assim, com toda essa política de boa vizinhança vivo imaginando um mundo melhor para se viver, mas infelizmente as pessoas não me compreendem.


O ônibus é uma coisa engraçada, ou estranha, pois todos os malucos fazem desse meio de transporte seu palco. Na verdade isso é uma fuga para seus pensamentos atormentados.
Mario Bourges 17:03 [+]
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Domingo, Março 13, 2005


...Contudo, informarei-lhe sobre qual decisão tomarei. Disse-lhe assim. -- No entanto; continuei com minha eloqüência. -- Há de compreender que no momento estou impossibilitado de carregar mais peso. Creio que já deva ter percebido de que estou de posse de uma grande sacola em uma das mãos. Agora, ai do senhor se me perguntar o que faço com a outra mão desocupada. Então, se ainda assim me questionar, direi-lhe o seguinte: a outra mão, meu caro senhor impossibilitado de pensar, tem várias utilidades. A primeira, tome nota, serve para abrir a porta do carro, da casa e qualquer outra porta. Uma outra utilidade... Não, veja, talvez para esta utilidade eu resolva não enumerar neste momento. Então, para dar continuidade a esta relação importante, que ainda não descobri que importância isso tem, deixe-me relatar a segunda... A segunda coisa, digo, item que compõe esta inútil relação. Mas como sei que estou largando essas palavras à uma pessoa de seu gabarito nem me apoquento com isso.

Perceba uma coisa meu caro senhor com neurônios reduzidos, antes que eu me aborreça com sua presença diante de mim. Aliás, com sua presença neste mundo. Mas veja bem meu digníssimo e ignorante atendente; estou aqui para comprar mais coisas. No entanto, estou com a mão ocupada, como já teve a oportunidade de perceber. Minha senhora encontra-se à procura de mais produtos para comprar, da qual não faço idéia de onde esteja neste momento. Então, que tal se pudesse me ajudar com essas sacolas até meu veículo. Quem sabe até pudesse recompensá-lo por sua bondade interesseira neste ato de pura extorsão.

De repente, vi-me envergonhado por insignificantes segundos, por sorte esses rompantes de frescura passam logo em mim. Era a Olga que chegara não sei de onde para perguntar o que estava fazendo ali, ao lado de um dos pilares do barracão que costumamos ir para fazer feira, mas isso quando estou com boa vontade de me sentir atordoado por ver tanta gente aglomerada embaixo de um mesmo teto é claro. E quando não estou com vontade de ir vou assim mesmo, pois como o poder da escolha não pertence a mim, querer ir ou não, não faz a menor diferença, para a Olga. Portanto, vou assim mesmo, até sem vontade. Sabe, nunca estou disposto a esse tipo de coisa. Mas tudo bem, são apenas detalhes. O que me salva num momento como este é fazer troças, brincar com a sapiência, quase nula, dos vendedores e seus ajudantes.

Veja bem meu caro leitor; cansei. Esta semana não estou com vontade de escrever mais do que isso. Portanto regale-se com essa historieta mixuruca. Quem sabe, ao longo da próxima semana eu resolva escrever algo um pouco mais interessante, pois odeio ter de relatar minhas idas às feiras, supermercados ou qualquer outro lugar onde se costuma ficar sempre abarrotado de tanta gente circulando. E pior de tudo é que costumam ir até tais lugares sem saber direito o que vão fazer por lá. Convenhamos que esse é o pior tipo de gente. O que vou fazer lá então? Essa é a tua pergunta? Ora! Só vou de companhia.


Ir às compras é tão frequente em minha vida que meu fusca já tomou a forma de um carrinho de supermercado.
Mario Bourges 21:51 [+]
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Segunda-feira, Março 07, 2005


"Prezado Sr. Baltazar Ferro,

Há tempos atrás, enquanto assistia a um inútil programa de tv, aliás, a maioria dos programas são assim, vi o senhor sendo entrevistado por uma emissora da qual costuma mostrar em seus documentários diferentes tipos de colecionadores. Posso dizer que fiquei estarrecido, digo, impressionado com a variedade de porcaria... Desculpe, de objetos variados e de pouco valor comercial que possui. Tomo a liberdade de informar que meus familiares quase morreram de tanto rir quando viram o chiqueiro... Hum, hum; o local que costuma amontoar, melhor dizendo, guardar estas quinquilharias todas.

Diga-me uma coisa: o senhor pretende transformar... Não me leve a mal pela franqueza, mas pretende transformar sua casa num ferro-velho? Falando nisso, o seu sobrenome, Ferro, tem haver com esse tipo de comércio? Continuando; sua família não se incomoda com essa montoeira de lixo acumulado em casa, ou eles também contribuíram para transformar a morada numa extensão do aterro sanitário da prefeitura? Falando em prefeitura; como está o prefeito daí? Continua fazendo vôos baixos com seu carro super, hiper, duper esporte? Ah! Quase me esqueci disso. Agora ele anda com mania de sair com uma moçada para pedalar durante a noite. Comovente esse esforço para ser popular, mas tudo bem. Nem ligo muito porque também já tivemos um presidente afetado que era pseudo-esportista.

Bom, mas é isso. Viu; caso queira mais bugigangas para amontoar, digo, para colecionar, tem uma porção aqui em casa. E que só não deixei minha esposa jogar fora, ou queimar, porque descobri que existe uma pessoa no mundo como o senhor. E que é o senhor mesmo. Pronto, cansei de escrever esta carta. Já me deu nojo disso. Quem sabe eu volte a lhe importunar com essas coisas (cartas) novamente, mas vai demorar um longo tempo para que isso aconteça, pois odeio escrever.
Até um dia.
Ps: Desista da idéia de me responder com outra carta ou coisa parecida. Sabe, não quero me indignar e ler suas palavras. Além do mais não existe um endereço escrito no envelope. No entanto é possível que o carteiro dê com a língua nos dentes e contar quem foi que escreveu isso. Mas não se preocupe, tratarei de liquidar com este carteiro ainda hoje."

-- Olga! Por um acaso viu quem é o carteiro que deixou está carta aqui? Perguntei-lhe na esperança de que ela soubesse.
-- Por incrível que pareça hoje as cartas foram entregues por um catador de papel, por quê? O que tem a carta?
-- Nada, é que não tem o remetente... É de um fã meu.
-- Oh, oh, oh, você tem isso? Deixe-me ver a carta. Disse-me ela curiosa.
-- Negativo! Isso é coisa minha! Além do mais eu... Ops! Olha, a carta caiu no vaso sanitário e foi pro beleléu.
-- Ei! Você deu a descarga para se livrar dela. O tinha nela? Perguntou-me ainda curiosa.
-- Nada. Que tal se fôssemos passear, talvez comer pipoca na praça ou coisa assim.
-- Até que não seria uma má idéia. Faz tanto tempo que não recebo um convite seu que até fico admirada, mas vou aceitar. Falou-me assim enquanto se aprontava para sair.
Bom, pelo menos consegui fazer com que ela se esquecesse da tal carta. Pelo menos por enquanto. Sendo assim tratarei de fazer com que ela se esqueça disso para sempre. Puta merda! É isso que dá quando esse pessoal que atualiza o blog cria esses serviços estúpidos. Eu é que tenho de agüentar tais desaforos sem poder revidar. Isto me dá uma queimação no estômago.


Aqui está o pessoal que escreveu esta carta imbecil para o SAL (Serviço de Atendimento ao Leitor), que, consecutivamente chega até mim para apreciação, ou depreciação, dependendo do caso.
Mario Bourges 00:23 [+]
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Sábado, Fevereiro 26, 2005


Louco de vontade para fazer algo interessante resolvi sair de casa. Mas antes disso pensei no que fazer e onde. E sentado no degrau da porta da cozinha observava nosso cachorro a cagar por todo o quintal, e, literalmente a comer moscas. Talvez essa visão escatológica me fornecesse a informação necessária para me deixar satisfeito. Como era de se esperar, a tal informação não apareceu, e nessa brincadeira eu perdi praticamente o dia inteiro. Nesse caso seria preciso mais um dia para decidir o que havia de bom no mundo, logicamente ao meu alcance, para ser feito.

Bingo? Não, não. Mesmo porque se quisesse não haveria como, pois esta atividade não tem por aqui. Pelo menos não que eu saiba. Passear nos parques e bosques? Qual nada. Isso é muito chato! E, quando parecia que mais um dia terminaria sem nenhuma decisão a Olga veio com uma proposta:
-- Que tal viajarmos? Minha amiga ganhou duas diárias num hotel chique, e com direito a um acompanhante. E como ela é sozinha acabou doando-os para mim. Disse ela empolgada.
Eu? Oras; fiz-me de difícil, claro. E com cara de poucos amigos disse:
-- Ótimo! Pegue já suas malas, ou seja lá o que for. Vamos pra lá hoje mesmo. Disse assim... Disse sim! Porém, sem perder a compostura. Se é que havia alguma.

Pronto; pensei. Em poucos minutos aprontamos nossas bagagens e entrouxamos toda ela no porta-malas. Em seguida confirmamos nossas reservas no hotel, anotamos o endereço e partimos faceiros para a diversão. A viagem era de quase 400 quilômetros. Foi um martírio ficar sentado dentro de um fusquinha durante todo esse tempo, mas tudo bem, eu ainda consegui andar depois da viagem. O lugar era muito bonito, entre montanhas, muitas flores e rios. Porém, tinha um item a mais nessa paisagem e que me esqueci por completo; insetos. Da enorme lista de insetos existente vou citar apenas dois, mas, terrivelmente insuportáveis: os pernilongos e borrachudos.

Pois bem, deixe-me contar como tudo aconteceu. Assim que chegamos no dito hotel deixamos nossas coisas no apartamento e fomos conhecer o lugar, que por sinal era muito, mas muito grande. E antes mesmo de fazer a primeira caminhada pelo terreno soubemos, através do recepcionista, do encontro no engenho, onde eles produzem a própria cachaça, e os hóspedes são convidados a participar dessa atividade. Não, não é para ajudar a espremer a cana de açúcar, mas para tomar caldo-de-cana e uns aperitivos feitos lá, e ainda, pipoca para acompanhar. Na verdade isso seria uma confraternização entre os hóspedes. Ótimo, pensei. É lá que vou me acabar hoje. Pensei enquanto esfregava uma mão na outra.

Bom, aí é que estava o perigo. O cheiro doce da cana no ar misturado com o sangue fresco meu, no pedaço, fez com que tais insetos me atacassem sem piedade. Enquanto eu tomava um gole de caldo-de-cana os pernilongos tomavam uns goles do sangue de minhas orelhas. E enquanto eu tomava alguns goles de cachaça os borrachudos se deleitavam com o sangue das minhas pernas e braços. Perfeito! Pensei. Mas aí já era tarde. O ato de coçar aqui e acolá não parava mais. Tive que abandonar, muito a contra gosto, de minha localização privilegiada no engenho para adentrar as pressas no hotel para fugir desses bichos endiabrados. E ainda, ver se o pessoal da recepção tinha algum remédio para usar após todas essas picadas.

O resultado disso nada mais foi que uma pequena e leve inchação pelo corpo todo. O que já era de se esperar. Sabe, fiquei tão inchado pelos efeitos das picadas que nem senti o momento do meu tombo após ter tropeçado no tapete. Aliás, não tinha nem conseguido ver o tal tapete porque não estava usando meus óculos naquela hora. O problema consistia nas hastes dos óculos, elas não abriam o suficiente para entrar na minha cara, de tão gorda que estava. Sendo assim, não podia enxergar. Mas também, azar de quem estivesse por perto no momento de um futuro tombo. Digo isso porque levei muitos mais pelo hotel, pelas calçadas e tantos outros lugares dos quais não me lembro agora.

Agora você me pergunta sobre os efeitos de todas essas picadas. Claro; tive febre também, mas não se preocupe, acabei com ela após ter tomado muita cerveja. Veja; posso resumir minha estadia da seguinte maneira: o dia em que chegamos lá tive pouquíssimo tempo de permanência pelos terrenos no hotel, ou seja, fiquei enclausurado. O dia seguinte não diferente, passei o dia inteirinho zanzando pelos corredores entre um tombo e outro até me cansar. Já no dia de nosso regresso eu pude me afundar na piscina. Isso mesmo; como eu estava bastante inchado meus movimentos ficaram limitados. Sendo assim, a única coisa que aconteceu quando entrei na piscina foi essa: afundar. Por sorte que tinha uma porção de gente por lá para me tirar da água. Senão era capaz de eu esvaziar toda a piscina com os enormes goles que dei.

Quanto ao resto foi simples e fácil de saber; vim de lá do hotel até aqui em casa ouvindo a Olga ralhar no meu ouvido sem parar. Que eu era um irresponsável e coisa e tal. Mas tudo bem, nem ouvi suas reclamações direito pelo fato de meus ouvidos, além de estarem inchados pelas picadas, estavam entupidos de água da piscina. Você quer saber se eu estava usando óculos? Digamos que não. Ele ainda não entrava na minha cara. Como fiz então? Simples. Eu e a Olga demos um jeito de amarrar as lentes em torno de minha cabeça gorda. Posso dizer até que ficou bacana, parecia um par de óculos de nadador, ou mergulhador, sei lá. Mas é isso aí. Até a próxima.


Aqui era como me sentia ao caminhar pelos corredores do hotel, de tão inchado que estava.
Mario Bourges 23:15 [+]
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Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005


Esta semana que passou estava, por incrível que pareça, estava boa. Mesmo com o susto que levei, e que dei em todo mundo. Umas pessoas realmente ficaram chocadas, outras ficaram a postos, só aguardando o desfecho da história para começar a soltar foguetes e a comemorar. O fato é que quase fui para o "vinagre", ou seja, quase morri. Por sorte, única e exclusivamente minha, que foi apenas um pire-paque que me deu, nada mais. Tirando isso tudo correu normalmente. Lembro-me de quando tentei subir no muro para tacar um osso de galinha no gato, de um dos vizinhos, que vem até minha casa para cagar no jardim, como se não bastasse nosso vira-lata e o nosso próprio gato para fazer tal coisa. Isso me deixa louco da vida. O problema disso foi que num vacilo meu o pé escorregou e eu despenquei da incrível altura de um metro e meio, e vim até o chão sem dar tempo de piscar. O impacto foi tão forte que tremeu a casinha do cachorro. Isso chamou a atenção do bicho que veio até mim para me lamber, como de costume. Daí por diante tenho poucas lembranças das coisas. Mas talvez tenha sido melhor assim.

Fiquei sabendo que o prefeito playboy veio até minha casa, com seu carro ultra esporte, para dar suas condolências à Olga, mas quando ficou sabendo que eu ainda não tinha partido dessa para melhor ele resolveu se enfiar em seu veículo e caiu fora antes que a população resolvesse pedir melhorias para as ruas, melhor qualidade de vida, ou algo pior que isso. O mesmo aconteceu à vizinhança. Não, não sumiram do bairro como gostaria que fosse, eles ficaram desapontados quando souberam que eu ainda permanecia vivo. Segundo informações; o pessoal da rua, tirando a vizinha gostosa que mora em frente, compraram caixas e caixas de fogos de artifício para soltar após minha morte. Porém, acredito na hipótese de que esses fogos irão apodrecer muito antes desse acontecimento. E se depender de mim, esses vizinhos também vão apodrecer.

Bom, enquanto isso eu estava largado no leito do hospital, inconsciente, só tendo alucinações e coisas do gênero. Mas isso não me incomodava porque era diferente. Uma sensação única poderia assim dizer. Então, viajando numa nuvem bem fofinha dei de cara com aquele cidadão que se diz ser Deus. Ora, ora, disse assim a Ele. E Ele disse:
-- Sente aí e não enche o saco, pois estou ouvindo um disco do Cat Stevens entendeu? Além do mais, vocês humanos só fazem cagada nessa vida. Disse-me assim de maneira despachada.
-- Puxa vida! É dessa maneira que você olha por nós? Perguntei assim indignado.
-- Olha Baltazar; não vem com papo furado pra cima de mim, hoje não estou muito bem. Pô bicho; você não consegue viver sem incomodar os outros? Perguntou dessa maneira após um arroto.
-- Mas não sou o único que pensa e age assim. Disse assim sem medo algum, pois já estava todo lascado mesmo.
-- É, você tem razão neste aspecto, mas não dou meu braço a torcer por causa deste ponto que ganhou. Ó, e tem mais; volte já para teu mundinho porque você está me aborrecendo demais com essa lengalenga. Por sorte minha que todos vocês em breve vão destruir esse planeta. Dessa maneira essa raça idiota e prepotente vai para o beleléu sem deixar rastros ou lembranças. Mas espere um pouco; assim vou ficar sem diversão. Minha fonte de gargalhadas não pode acabar por causa de uma porção de estúpidos. Sendo assim, fique tranqüilo, vou ficar na cola desse povo e dar uma juntada assim que possível. Sabe, fico impressionado com a capacidade que vocês têm de não entender os sinais que envio, mas por que ainda fico perdendo tempo em me explicar, todos vocês são ignorantes. Ah, tanto faz. Acorde aí e não me incomode.

E assim que acordei dei de cara com a Olga, os netos e a sobrinha ao meu redor. Claro, o Azambuja estava me apalpando, como sempre faz. O Pereirinha fazendo alguns cálculos nos dedos e o chato do Adalberto, que por sinal naquela hora, ao contrário do que costuma ser, sua presença foi fantástica. Na verdade não era bem a presença dele, mas sim do rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves que tocava no momento a música Cantando ao Luar do Nhô Belarmino e Nhá Gabriela. Ai, ai, quanta saudade tenho deles. Mas a vida é assim mesmo. Um dia eu também vou embora, mas pelo jeito não vou deixar saudade. Creio até que será motivo de festa.


Aqui foi o momento que acordei. Bom a Olga, as crianças e os amigos estavam do outro lado. Esse era o pessoal do hospital.
Mario Bourges 22:53 [+]
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Sábado, Fevereiro 12, 2005


Esta semana que passou foi a do carnaval. Até aí nada demais. O que me causou indignação... Não, não é bem esse termo o ideal. O que me causou... O que me deixou emputecido no decorrer da semana foi descobrir, além da ressaca que não terminava nunca, que a empresa que hospedava minha coluna semanal resolveu não permitir a continuidade da mesma gratuitamente. Ora! Pensei. Onda já se viu, eu, figura respeitável nesta cidade, ainda que decorativa, com uma estátua minha de bronze (já roubada), na praça onda costumam ficar as prostitutas e tudo mais, ter de pagar para mostrar o ar de minha graça neste meio de comunicação. Isto é um absurdo! Gritei para todos os meus botões... Da camisa, obviamente. Mas tudo bem. A equipe que atualiza essa bosta ficou encarregada de procurar outro servidor para publicar isto, além de mandar o computador para o conserto, pois a máquina, milagrosamente, acabou quebrada depois desta notícia. Mas tudo bem.

O que fazer então? Pensei, pensei e pensei. E quando o mau cheiro se espalhou pela casa resolvi assistir televisão porque já estava cansado de tanto pensar. Mesmo porque, o dia parecia propício para esta atividade. E utilizando-me de destreza e rapidez pus-me a apertar os botões do controle remoto em busca de programas bons, menos bom, e até os ruins também. Mesmo porque isso tanto faz em minha vida em um momento como esse. Sendo assim, deixe-me ver o que passa na tv. Disse assim para mim mesmo.
-- Ó Jorge José; você me ama? Perguntou assim Gabriela Pontes.
-- Mas claro que sim minha doce Gabriela Pontes. Disse assim Jorge José.
-- Então me dê um beijo. Disse assim Gabriela Pontes.
"Mas o que eles não sabiam é que, no outro lado da cidade, Heitor Gutierrez, o maior malfeitor do pedaço fora posto em liberdade porque nem o pessoal do presídio agüentou com ele. E enquanto o casal se amassava loucamente a campainha tocou bestamente. E isso seguido de um..."
-- Abra essa porra agora! Gritou alguém.
-- Ó, quem será o estúpido que gritou desse jeito? Perguntou Gabriela Pontes assustada.
-- Não sei minha querida, mas penso que ele não é uma pessoa amistosa. Disse assim Jorge José sem saber ao certo o que fazer.
"De repente... SCABLAM!!! A porta partiu ao meio com uma cotovelada do celerado".
-- Quem, quem é você? Perguntou Jorge José com a voz trêmula e o rabo entre as pernas.
-- Sou Heitor Gutierrez, e agora que já me conhece saia daqui agora seu maricas! Berrou assim Heitor Gutierrez a Jorge José que apressadamente saia pelas ruas com uma coisa redonda e peluda numa das mãos enquanto gania feito um desesperado.

Porém, nesse meio-tempo, eu já me encontrava dormindo. Pelo menos é assim que penso, pois eu me via tentando desviar da imagem do Clóvis Bornay, aquele carnavalesco estranho, que ficava voando ao meu redor com umas enormes asas de borboleta, enquanto exibia as cores pouco discretas destas ditas asas. Por sorte minha, logicamente, consegui sair deste pesadelo bizarro. Também desliguei a televisão. Sabe, acredito na hipótese de que a novela mexicana da qual assistia foi a responsável pelo terrível sonho vespertino. E depois de toda essa maluquice resolvi dar umas voltas pelo bairro. A pé mesmo. Só para ver se esquecia daquelas visões terríveis que tive enquanto dormia. Eu até pensei em sair de carro, mas isso também seria frescura demais para um dia só.


Aqui estava o casal, Gabriela Pontes e o Jorge José tentando uma... Hum, hum, quando Heitor Gutierrez chegou de repente. Ah, antes que me esqueça; o blog não foi bloqueado. Foram apenas péssimas conexões junto com um computador fundido.
Mario Bourges 23:28 [+]
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Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005


Estava eu, louco de vontade para sair em pouco de casa. De beber um pouco, de rever os velhos conhecidos e de ver aqueles que nem penso e nem quero conhecer. Mas para isso era preciso, antes de mais nada, trocar de roupa. As velhas calças de moleton marcadas no joelho ficaram fazendo companhia para a destemida camiseta regata com seus abomináveis furos nas costas. Pois bem, como minhas saídas costumam ser acidentadas resolvi usar joelheiras, cotoveleiras e mais um outro negócio que protege do pescoço até a virilha, e que também termina com "eira". Creio que esta tenha sido uma atitude prudente de minha parte.

Pronto, estou pronto para mais um grito de carnaval, pensei. E quando estava saindo de casa, após ter me desvencilhado das velhas roupas, digo trapos, que me seguiram até a sala me chamando de "papai", me deparo com o prefeito em frente ao portão com seu carro pra lá de esportivo a pisar insistentemente no acelerador só para mostrar aos moradores da rua que ele (o motor do carro, ou ele mesmo) tem poder. Na verdade, o representante da cidade, da qual a turma dele mora, estava lá para me oferecer uma carona até onde eu quisesse. Mas, num movimento cauteloso o deixei, inerte na frente da minha casa com cara de bobo enquanto eu corria, feito um desesperado, para o ponto de ônibus. Definitivamente, não quero esse tipo de gente no meu pé. Isso me causa arrepios.

Depois de minha fuga espetacular fui até o bar do Odil, pois lá acontecia o 2° Grito de Carnaval desde a existência do boteco. Como sei que lá as festas costumam ser das boas, procurei comparecer bem cedo. Chegando lá dei de cara com o Pereirinha tomando de tudo e com todo o direito que lhe é concedido, mais o Azambuja que não parava de tatear as pessoas que lá estavam. E ainda, para completar a cena, estavam os velhos e os novos conhecidos, juntamente com o Odil, que exibia um novo visual. Estilo pelado, ou melhor, raspado. Aposto que usou de sua navalha belga para se livrar dos cabelos, barba e bigode.

Continuando; a festa era das melhores. Tinha gente de todo o lugar da cidade, de outras cidades e de outros países. Por sorte todos falavam a mesma língua. Mas isso, claro, com o auxílio do Botecário (dicionário de boteco) do Dante. Penso que poderia falar desta noite durante vários dias, pois estava muito boa. Mas aí eu ficaria cansado e de mau-humor por ter descrito tudo o que aconteceu. Ah, quer saber da música? Ora, sempre muito boa. Até os gringos dançaram bem. Se bem que, para nós curitibanos, que temos a ginga implacável de um polaco com as pernas engessadas, qualquer pessoa que der uma reboladinha meia-boca já está valendo.

Bom, acredito que seja isso. Ah, quase me esqueci. Quer dizer, nem me lembro direito o que me aconteceu naquela noite depois que tomei as dúzias de chope. Mas quanto aos machucados que sempre surgem durante uma noitada dessas, milagrosamente não aconteceram. Por sorte resolvi usar aqueles protetores todos. Confesso que fica um pouco ridículo, mas são eficientes. Agora, vou esperar o próximo evento acontecer para que eu possa me reunir com o povo novamente. Mas voltando um pouco no assunto; tinha tanta gente lá que me perdi nas idas e vindas até o sanitário. Mas tudo bem. Ninguém percebeu isso.


Mario Bourges 20:42 [+]
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Domingo, Janeiro 30, 2005


Ultimamente tenho percebido que os móveis aqui de casa têm se adaptado bem ao meu corpo. Minha poltrona, por exemplo, se tornou uma fiel companheira minha, e quase não desgruda das minhas costas. A mesinha de centro e o sofá, veja só você que coisa mais estranha, volta e meia se enfiam na minha frente para que eu os chute impiedosamente. E claro, a tv, que liga automaticamente só para eu não ficar pensando besteiras, digo, mais besteiras. Então, penso assim: já que todos fazem isso para meu bem estar, tenho de usufruir todas essas vantagens, e da melhor maneira possível. É por isso que tenho ficado mais tempo em casa. E para provar que tenho curtido todas essas vantagens, hoje, um saboroso pacote de batatas fritas, e uma caudalosa lata de cerveja fizeram às vezes enquanto meus dedos agiam, como os de um justiceiro sacando sua arma, para a difícil tarefa de escolher um canal que se pudesse assistir alguma coisa sem passar mal.

Muito bem; após eu ter liquidado com as batatas fritas e a cerveja encontrei um programa que consegue me segurar até seu final.
"Voltamos com o programa... De Olho no Insano".
APRESENTADOR: Olá telespectadores; dentro do nosso quadro de curiosidades contamos com a presença do cientista, professor de tear chileno, e Phd em observar o Universo, o Sr. Franz KeelO'Gramma. Boa noite professor, seja bem vindo e receba os aplausos de nosso auditório.
KEEL O'GRAMMA: Obrigado pela recepção, uma recepção tipo assim, tão calorosa.
APRESENTADOR: Que é isso professor, as pessoas do auditório são bem pagas para isso mesmo, iludir nossos convidados e o pessoal de casa. Mas vamos ao que interessa. Diga-me professor uma coisa, o senhor está aqui para nos contar sobre a teoria da expansão de nosso universo não é mesmo?
KEEL O'GRAMMA: Tipo assim; a nível de expansão é isso mesmo.
APRESENTADOR: Poderia explicar como isso seria possível?
KEEL O'GRAMMA: Perfeitamente. Veja bem, tipo assim; quando falamos em expansão é porque o universo tem limites, ou seja, é possível chegar até suas fronteiras. Além do mais, há desconfianças de que nosso universo não é o único.
APRESENTADOR: Não é o único? Que revelação bombástica essa a sua heim professor.

-- Uau! Olha só que coisa interessante! Disse isso espantado enquanto quase me afogava com minha outra lata de cerveja.
APRESENTADOR: Como foi que o senhor chegou a esta conclusão? E as tais desconfianças de o universo não ser o único partem de quais cientistas, ou pesquisadores?
KEEL O'GRAMMA: Veja bem; a nível de conclusão é o seguinte: através de observações pude perceber que todos os corpos celestes são atraídos por corpos maiores. Ou como preferir, por seus ápices. Um exemplo clássico dessa afirmação está nas luas de seus respectivos planetas, que são atraídos por eles, que por sua vez os planetas são atraídos pela estrela mais próxima, ou, o Sol. O Sol, por sua vez é atraído pela galáxia. E galáxias pequenas são atraídas pelas de maior tamanho. Muito bem, sabemos que tudo é um ciclo, e que este ciclo não termina simplesmente no universo. Agora, quanto aos cientistas e pesquisadores que discutiram sobre outros universos comigo... Olha; naquela noite em que conversávamos eles estavam fumando uns cigarrinhos estranhos, do qual também fumei. Realmente eram muito estranhos.
APRESENTADOR: Os cigarrinhos eram estranhos?
KEEL O'GRAMMA: É... Os cigarrinhos, tipo assim, também eram estranhos... Sei lá.

Depois desses devaneios e dúvidas quanto à qualidade intelectual dos cientistas, pesquisadores e cigarrinhos resolvi ligar para perguntar uma coisa.
TELEFONISTA: De Olho no Insano; Em que posso estar ajudando?
BALTAZAR: Eu gostaria de fazer uma pergunta ao professor. Isso é possível?
TELEFONISTA: Perfeitamente; assim que eu der o sinal o senhor poderá estar fazendo a pergunta. Atenção... É um, é dois e é três; faça sua pergunta porque o professor poderá estar respondendo para o senhor.
APRESENTADOR: Olá amigo! Pode fazer sua pergunta.
BALTAZAR: Obrigado! Professor, diga-me uma coisa; quando chegou a esta conclusão de vários universos também tinha feito uso dos tais cigarrinhos?
KEEL O'GRAMMA: Como é que é? Tipo assim, não entendi.
BALTAZAR: Olha, além de você ter um péssimo vício de linguagem ainda é meio chupeta. E tem mais, pare de usar estes preciosos tempos na televisão para falar asneiras. E antes que me esqueça; vá à p..iiiiiiiiiii...ariu! Você e essa telefonista burra que tem no programa.
APRESENTADOR: Putz, é aquele mesmo cara que em outra vez quase arruinou com o programa.

Neste momento eu já cuspia para o alto de tanta raiva que estava passando. E segundos antes de partir a televisão ao meio a Olga se aproximou de mim e desferiu um golpe de vassoura em minhas pernas. Depois desligou a televisão e me mandou para fora de casa. Disse que seria melhor eu dar umas voltas pelas ruas antes de voltar para minha morada. Veja só que coisa; nem consegui quebrar a televisão, e além do mais fiquei com as pernas inchadas. Mas tudo bem, assim é mais barato. Manco durante uns dias, mas não terei que comprar outro aparelho de tv. E sabe de uma coisa? Neste programa só vai gente doida mesmo, e que não diz nada com coisa alguma. Então, tentarei evitar assistir esta porcaria de novo. É isso mesmo.


Bom, aqui está o apresentador do programa De Olho No Insano. Um pouco estranho não? Pelo menos é assim que penso.
Mario Bourges 00:26 [+]
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Sábado, Janeiro 22, 2005


Meu cotidiano é mesmo de lascar. Veja você que esta semana estava eu lá, sentado em minha ociosa poltrona, observando o pó se acumulando sobre os móveis, coisa do qual me incluo, e as moscas fazendo seus balés voadores altamente entediantes que oscilam, vez ou outra, por sobrevoar as plantas da Olga, ou sobre mim. Que neste contesto não tem muita diferença, nem para mim e nem para elas. Ainda bem que a monotonia é quebrada de tempos em tempos quando uma delas (moscas) resolve descer até a mesinha de centro para depositar seus cocôs diminutos.

De repente fala-se:
-- Ei, vai ficar aí parado o dia inteiro observando este inseto maldito cagar sobre mim? Perguntou assim alguma coisa em algum lugar. E eu, cheio de esperteza perguntei:
-- Hum? O quê?
-- Não acredito no que acabo de ouvir! Esse velho, que se diz dono da casa não "apita" nada, nem sobre um simples cocô de mosca sobre os móveis do recinto. Aposto que também nem iria dizer nada se a nojenta mosca cagasse sobre sua cabeça. Disse assim uma outra coisa num canto da sala.
-- Quem disse essa blasfêmia? Perguntei todo louco enquanto me ajeitava na poltrona, pois estava quase caindo dela.
-- Fui eu velho! Continuou dizendo.
-- Eu quem? Mal educado. Gritei dessa maneira para as coisas que estavam na sala. E claro, com um chinelo na mão para dar uma lição ao engraçadinho que disse isso para mim.
-- O sofá!
-- Ora, pare com brincadeiras. Saia daí, digo, saia de onde estiver. Falei para todos os lados da sala.
-- Querem parar com essa gritaria? Gritou alguma coisa.
-- Quem foi que gritou assim? Perguntei assustado.
-- O aparelho de televisão. Disse a coisa toda indignada.
-- Ei, parem com isso. Esse tipo de coisa não pode estar acontecendo comigo. Todos sabem que sofás, mesas e aparelhos de tv não falam.
-- É isso aí, você tem razão! Disse desta maneira o vaso com uma planta estúpida dentro dele.
-- Olha, tem alguém de brincadeira, e de mau gosto. E ainda por cima quer me deixar maluco.

Minutos mais tarde a Olga, entra na sala com uma vassoura na mão para apartar com a briga. Pelo menos ela pensou que era uma briga, pois a gritaria ultrapassava a barreira dos muros da casa. Quando deparou comigo só de cueca, e com o controle remoto preso no elástico desta peça de vestuário quase desaparecendo por baixo da barriga, e ainda com os chinelos nas mãos enquanto urrava, sozinho, para as coisas (mesinha de centro, sofá, aparelho de tv, vaso, tapetes, quadros e minha poltrona), ela com muita delicadeza desferiu uma vassourada nas minhas pernas e disse aos berros com sua voz de veludo:
-- Pare com isso já antes que eu chame a carrocinha pra te pegar seu velho doido. E pra que este controle remoto preso na cueca heim?
-- Estou protegendo este pobre coitado dessa turma de víboras que compõem o mobiliário da sala. Disse-lhe enquanto alisava aparelho com carinho.

E numa caminhada pela sala para me dar outra vassourada a Olga chutou, sem querer, uma garrafa de absinto (vazia) que fez voar longe. Então ela falou paciente:
-- Ah, é isso aí que te fez ficar assim, fora de si não é? Não quero mais este tipo de bebida aqui dentro de casa. Se encontrar você bebendo isso de novo vai apanhar de vassoura, chinelo ou o que for. Até aprender a se comportar como gente... Decente. Agora vá tomar um banho de água fria já. Antes que eu te bata de novo. Entendeu bem o que eu disse?
E eu com as pernas inchadas balancei a cabeça positivamente no momento em que me dirigia para o banheiro. Mas também não disse mais nada. Sabe, tem horas que o homem tem que mostrar sua superioridade em relação às mulheres. Neste caso eu apenas tomei banho. Nem dei beijinhos de boa-noite na Olga. Mesmo porque no momento em que ela foi dormir eu já estava fora de sintonia há muito tempo. Ai, ai, que dia.


Sabe, é mais ou menos assim que me sinto quando bebo esse tal de absinto. Com o corpo livre para fazer qualquer coisa e a cabeça pesada e inchada que impossibilita que o corpo exercite tais liberdades. E ainda, totalmente perdido.
Mario Bourges 16:26 [+]
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Sábado, Janeiro 15, 2005


Padre: Olga; você aceita este homem como seu legítimo esposo? Para amar, respeitar, honrar... Ei; isso não é a mesma coisa? Ah! Enfim, para toda essa balela?
Olga: Er; sim.
Padre: E você Baltazar?

Com o olhar perdido, repousando sobre os santos da igreja, que por sinal estavam meio desbotados pelo tempo, nem entendi, aliás, nem escutei a pergunta. Na verdade eu nem sabia o que estava fazendo naquele local, e nem porque estava vestido daquele jeito. Sabe, o gosto ruim na boca e a tremenda dor de cabeça que sentia na noite de... Nem lembro quando, impedia qualquer linha de pensamento.

Padre: Ô Baltazar, acorde! Não sabe onde é que está agora?
Baltazar: Quem, eu? Desculpe-me, não sei informar. O senhor também não sabe?... E agora? Cá pra nós, depois que esse negócio terminar nós podemos juntar nossos trocados e pegar um táxi até a Praça Rui Barbosa, daí então cada um pega seu ônibus e vai embora. O que me diz? Afinal de contas; isso aqui é para ser um casamento, ou o quê?
Olga: O que é isso Baltazar, está louco? E deu-me uma ligeira e leve cotovelada no baço. Ou era no pâncreas? Sei lá.
Baltazar: Ai, ai! Que foi que deu em você? Para que toda essa agressividade?
Padre: Ei; será que podemos dar continuidade à cerimônia, se não for muito incômodo?
Olga: Oh, sim. Desculpe-me por isso.
Baltazar: Ah, claro. Mas afinal de contas, o que é que está acontecendo aqui?
Padrinho: Fique quieto e apenas responda as perguntas desse senhor de preto (padre).
Baltazar: E quem é esse senhor de preto? Ei; e quem é você?
Padre: Ô Baltazar!
Baltazar: É, sou eu, mas pare de gritar, pois estou com muita dor de cabeça.
Padre: Então Baltazar, o que decide? Aceita ou não a Olga?

Perdido naquele lugar que mais parecia uma igreja, ao lado de uma bela mulher, em frente ao velho que não parava de gritar para mim, e rodeado de pessoas estranhas eu realmente fiquei sem saber o que fazer. Pensei até na hipótese de fugir de lá, mas não fiz isso porque o local estava cheio de gente. Além do que, começava a me interessar pela mulher agarrada ao meu braço. Veja só como são as coisas; fazemos maluquices por causa das mulheres.

Lá pelas tantas senti um cutucão da Olga no braço que me deixou mais esperto. E então respondi:
-- Aceito!
Olga: O que você aceita heim? Não está vendo que o padre quer de você somente as alianças dos noivos? Agora seja bonzinho e dê-as a ele.
Padre: E então Baltazar, podemos desburocratizar essas alianças? Assim, quem sabe, poderemos ir à recepção dos noivos no restaurante mais tarde. Mas claro, só se você quiser.
Baltazar: E por que devo fazer isso?
Olga: Ora, só porque você e eu somos os padrinhos de casamento destes infelizes. Só por isso.
Baltazar: Então nesse caso tudo bem, tome seus anéis e termine logo com este casamento, pois já estou ficando com fome.
Olga: Que delicadeza heim!
Baltazar: Gostou? Sou craque com este tipo de coisa. Disse assim antes de levar invertida dela e do padre.

Mas sabe, as coisas não foram do jeito que eu queria. O casamento, para nós, terminou logo em seguida. A Olga me puxou pela gravata até o carro antes mesmo da cerimônia religiosa terminar. Lá dentro eu ouvi até o que não queria, ou seja, tudo o que ela tinha de falar. Quanto à recepção, não sei por que, mas ficou apenas para os outros convidados. É isso que dá ser amigável e prestar favores ao outros. Mas tudo bem. Da próxima vez que alguém quiser que eu seja padrinho, ou qualquer outra coisa assim vai ver uma coisa. Vou dizer apenas um redondo e dilacerante "não". Doa a quem doer.


Foi assim que o casal ficou (ambos alegres) depois que fomos embora, digo, que eu fui embora. Porque a Olga eles até queriam que ficasse. Mas eu não deixei ela ficar. E sabe de uma coisa? Tudo isso aconteceu por causa dos meus devaneios. Mas tudo bem.
Mario Bourges 21:20 [+]
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Sábado, Janeiro 08, 2005


Parte final da história anterior

Então resolvemos entrar, não mais nada para fazer fora de casa mesmo. Além do mais já estava cansado de toda essa bobajada de ano novo. Eu é que queria ficar novo, o ano que se dane, pensei enquanto olhava para as rugas do meu cotovelo. Então, para me ver livre de toda essa cambada que se encontrava ainda dentro de minha residência, comecei com a seção de caras feias. Mais ainda das normais que sei fazer. Por sorte eles já estavam pensando em ir embora, já estava tarde, digo, cedo. Passava das 2h da madrugada. E sem muito enrolar nos despedimos, e eu corri para o banheiro escovar meus dentes para dormir. Após toda essa manobra de higiene me joguei na cama. Quanto ao pijama eu pensei que seria melhor vestir, mas para uma outra oportunidade, pois já estava deitado e a preguiça me impedia de fazer isso.

Bom, de manhã, por volta das 11h me levantei. Cedo, diga-se de passagem. E aí! Pensei. O que fazer depois das festividades incansáveis da virada do ano? Continuei pensando. Decidi então em voltar às minhas atividades de ter nada para fazer. Vendo-me assim, desta maneira, resolvi ligar a televisão para ver se tinha um programa bom para assistir. E pasmem, digo, fiquei pasmo em saber que iria começar mais um capítulo de Hercule Poirot. Sabe, é aquele personagem famoso de Agatha Christie. Sendo assim, atirei-me na minha poltrona munido de salgadinhos, chocolates e cervejas só para ver o programa.

Hastings: Ora, ora; mais uma vez estamos em Curitiba. E aqui desembarcamos por mais uma vez na nova, e ao mesmo tempo velha estação ferroviária, porque na velha, e ao mesmo tempo nova estação os trens não mais circulam, pois virou shopping center.
Poirot: Brilhante dedução meu caro!
Hastings: Gostou Poirot?
Poirot: Para falar a verdade não. Assim você depressia ainda mais os moradores depressivos desta cidade depressiva. Que por um lado não é de todo o mal, porque pelo menos não ficamos vendo seus habitantes se "abrindo" para os próprios umbigos. Agora fique quieto porque não estou me sentindo muito bem do estômago, ou do fígado, ou da cabeça. Talvez seja pelo fato que bebi uma quantidade enorme daquela bebida horrível chamada de cidra naquela praia horrivelmente entupida de gente para ver aquilo que chamam de espetáculo de fogos de artifício.

E enquanto os dois retiravam suas bagagens do trem chegou uma comitiva com três carros pretos, um cinza, um azul-marinho e um com cor de abóbora. Estacionados um atrás do outro. Dos três primeiros saíram muitos ninjas (vigaristas do Japão feudal que se vestem de terno preto, camisa branca e gravata cor de abóbora). Todos eles armados com telefones celulares minúsculos e câmeras fotográficas digitais. Do carro azul-marinho saiu o ex-prefeito e seu ex-vice ainda vestidos de branco, efeito do reveillon. Do carro cinza, todo equipado, rebaixado, e com rodas de liga leve e vidros escurecidos saiu um playboy com um baita sorriso perguntando com um jeito estranho: "O ssenhors que é o ssenhors Poirote?". Agora do carro cor de abóbora; não saiu ninguém. Aliás, o motorista tirou a cara para fora e xingou todos eles porque estavam atrapalhando o trânsito dos taxistas naquele trecho da ferroviária.
Poirot: Pardon monsieur, mas eu me chamo Hercule Poirot. Poirot, entendeu? E não Poirote. Disse todo indignado assim ao prefeito recém empossado.
Enquanto o programa passava eu dava pulos de alegria ao ouvir isso. Este sujeito é dos meus, pensei assim.
-- Isso é para você ter mais respeito com os outros. Bradei assim para o aparelho de tv, digo, para o prefeito, ou melhor, para o ator que interpretava o prefeito. Que dá na mesma.

Nisso, sem mais nem menos, os tais ninjas sumiram sem deixar pistas. Misteriosamente o ex-prefeito e seu ex-vice também desapareceram. O prefeito puxava o saco de Poirot e Hastings com uma conversa chata. Quanto ao carro cor de abóbora do táxi ainda estava lá, e seu condutor louco da vida porque ninguém saía de sua frente. De repente, o motorista saltou de seu carro com um cano de ferro em uma das mãos e partiu em direção de todos. Poirot e Hastings correram pelas ruas da cidade para fugir da situação, e da situação anterior ao do taxista também, enquanto o prefeito falava literalmente às bicas para o tal motorista. E depois que encharcou o pobre homem o prefeito adentrou em seu carro esporte, ligou o possante, e saiu cantando os pneus de sua máquina para todos olharem e perceberem quem era o maluco que fazia tais barbaridades nos pátios da ferroviária.

Foi aí que pensei: que programa mais chato o desta semana. Sabe de uma coisa? Vou desligar esta porcaria de tv antes que eu a quebre. O que não é nenhum grande esforço para mim esse tipo de coisa. Quem sabe em uma próxima oportunidade as aventuras do detetive belga sejam melhores, porque o desta semana foi um verdadeiro fiasco. Então, diante desta coisa sem graça, terminei com as latas de cerveja e fui-me ao sanitário. Sabe, fui resolver uns probleminhas. Nada que causasse muita demora. Depois saí para o quintal olhar as coisas, qualquer coisa. E daí, para atirar pequenas pedras nos telhados dos vizinhos foi muito fácil. Mas também esta atividade tinha me cansado facilmente, pois logo vieram as reclamações e blá, blá, blá. Bom, mas isso é fruto do tédio que é os inícios de ano, espero que nas próximas semanas as coisas fiquem melhores.


Aqui estava Poirot, com cara de quem não sabe de nada à respeito de seu próprio desaparecimento, em se tratando de estar em companhia do prefeito é claro.
Mario Bourges 20:09 [+]
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Sexta-feira, Dezembro 31, 2004


Nesta semana passamos organizando as coisas e limpando a casa. Quero dizer, o resto da família, porque eu não fiz nada. Então como ia dizendo, limpando a casa para esperar o próximo ano chegar, pois este, 2004, já deu o que tinha que dar. E para comemorar mais um chato fim de ano chato, soltávamos, pela manhã ao levantarmos, e pela noite, um pouco antes de nos deitar (sempre perto da 1h da madrugada), alguns foguetes com explosões coloridas, e claro, barulhentas também, só por diversão. O que você quer saber sobre os vizinhos? O quê? Ah, eles que se danem. Eles não compraram meus foguetes, sendo assim, não podem me controlar.

Prosseguindo, no dia 31 de dezembro convidei meus amigos para comemorar a passagem de ano. Vieram para a confraternização o Pereirinha com sua digníssima nova namorada e seu filho arteiro, do qual deixa todos aqui de casa com os cabelos em pé. O Azambuja e sua senhora também compareceram, mas impusemos uma condição para que eles ficassem nos festejos, que era o de se comportarem como gente decente, ou seja, sem a prática das esquisitices habituais (arrastar cadeiras, mesas, copos e pratos de um lado para outro enquanto se alimentam, e ainda, cantar o Hino Nacional na virada do ano também não convém). Ah, quase esqueci, o Adalberto também veio para a festa, e veio acompanhado de sua chatice insuportável e seu inseparável rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves.

Enquanto os fogos de artifício clareavam o mundo com suas luzes maravilhosas os cachorros e gatos das ruas sumiam. Por um lado isso era bom, pois assim não haveria latido ou qualquer outra coisa no momento em que fossemos dormir. Quanto aos gatos... Que se danem os gatos. Bom, bebíamos e comíamos feitos loucos durante a passagem de ano, e para nos acompanhar neste evento o rádio do Adalberto tocava Elvis Presley num especial executado por uma emissora que não sei de qual parte do mundo é, mas tudo bem. Ninguém conseguia ouvi-lo mesmo, o barulho dos fogos impedia qualquer mortal de ouvir tais músicas.

Lá pelas tantas, todo mundo mais acalmado, pois a euforia da festa já tinha passado, bateram palmas em frente à minha casa. Deve ser gente pedindo alguma coisa, só pode ser isso, pensei. Então mandei alguém ver o que era, mas só depois da segunda ou terceira seção de batidas de palmas. Sabe, devemos valorizar nossos atendimentos, e essa valorização deve começar em nossos lares. Pois bem, minutos mais tarde minha sobrinha veio dizer que tinhas uns homens vestidos de preto e usando gravatas cor de abóbora querendo falar comigo no portão. Que estranho isso. Já vi, ou ouvi isso em algum lugar, mas não lembro onde, pensei.

Notando uma estranheza no ar fui ao portão acompanhado de meu cunhado, que não parava de fumar seu cachimbo nem para peidar, estranho, tem algo acontecendo com meu cunhado. Ele, um sujeito tão comportado e tão cheio de pompas agora, digo, depois da noite no bar irlandês, resolveu liberar gases sem maiores cerimônias, mas tudo bem. Continuando; o Pereirinha com seu filho insuportável, o Azambuja com sua mania horrível, e o Adalberto com seu rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves à tira colo, que neste momento tocava uma czarda húngara me acompanharam até o portão. Aquela cena me lembrou das grandes batalhas medievais onde tinha para dentro do castelo os guerreiros destinados a proteger a fortificação, e do lado de fora os invasores. Além do clima levemente perturbador existente naquele momento. De repente, um desses homens de preto com a gravata cor de abóbora falou: "pela manhã será a posse do novo prefeito, para a sua segurança é melhor não aparecer por lá". E num lance de magia eles sumiram após ter lançado no chão uma coisa que espalhou para todos os lados uma enorme quantidade de fumaça. Creio que meu cunhado neste momento aproveitou para soltar mais um peido, pois em pouco tempo começou a feder. Mas tudo bem. Enquanto isso nós, perdidos no meio da fumaça e sem saber o que fazer, ouvíamos, agoniados, aquela música maluca e sem saber em que direção rumar. E assim que a fumaça dissipou, coisa de uns quinze minutos, vimos ao longe, o carro daqueles homens de preto entrouxados na grande árvore existente do outro lado da praça. Vai ver também se perderam na fumaça, pensei.

To be continued...

Aqui estava todos na festa da virada do ano, mas o Pereirinha não aparece na foto porque foi ele que fotografou.


Mario Bourges 22:50 [+]
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Segunda-feira, Dezembro 27, 2004


Esta semana passou por minha vida de maneira diferente. Pelo menos é assim que penso. Estava eu de bobeira, observando os vizinhos ocupados em enfeitar suas casa para àquela data... O... Como é que é mesmo? Ah! O Natal. Pois bem; nesta quase operação militar colocavam sobre suas casas, árvores, e até sobre seus animais de estimação, as mais bregas luzes de pisca-pisca, e para completar, na porta de casa, a famigerada e ridícula guirlanda. Tudo para manter este fingido espírito natalino. Bom, até aí estava tudo igual. Então, para quebrar com minha rotina, fui convidado para conhecer um bar com características irlandesas.

Muito bem, chegando no tal bar procuramos uma mesa para acomodar eu, o amigo que me convidou, meu genro e meu cunhado, sim, aquele que é meio britânico. Imagine só se ele ia perder essa oportunidade de conhecer um bar onde seus proprietários são, em tese, irlandeses. E sendo assim, provavelmente ficaria a noite toda provocando o pessoal do estabelecimento. Só por farra. Não adianta; esses britânicos são assim mesmo. Até parece nós brasileiros em relação ao país vizinho. Mas deixa pra lá. Falando em deixar pra lá, não quero comentar sobre esta noite, e sim sobre o dia do Natal.

Pois bem, acordamos tarde no 25 de dezembro porque chegamos tarde da noite em casa. Certo, o problema não consistia em ter acordado tarde, e sim, como ter acordado. Veja, meu genro já está mais acostumado a beber quantidades enormes de cerveja, uísque, vodka e outras coisas mais, ou seja, um bêbado. Meu cunhado em compensação não tem desses hábitos mundanos. Após ter bebido uma quantidade respeitável de cerveja, uísque, vodka e outras coisas mais quase teve um chilique. E agora ele está fazendo companhia pra mim, ao meu lado, assistindo aquele programa "De Olho no Insano". Com o cheiro de peru pela casa, mais os aromas baixos provenientes das tripas gaiteiras do cunhado nós estávamos descobrindo sobre o mistério de como as renas do Papai Noel voam.

"E agora, de volta com vocês... 'De Olho no Insano".
APRESENTADOR: Muito bem telespectadores; hoje teremos em nosso quadro especial a presença do cientista Ubirajara para explicar como é que as renas do nosso conhecido Papai Noel voam.
CIENTISTA UBIRAJARA: Primeiramente, tipo assim, gostaria de dizer que é um imenso prazer estar aqui neste programa. E também, a nível de felicidade, desejar um Feliz Natal a todos. Bem, desde criança ouvimos falar da maravilha que é ver o Papai Noel com seu trenó e suas renas voadoras, na verdade, tipo assim, o esquema todo funciona da seguinte forma: semanas antes do bom velhinho partir do Pólo Norte para o resto do mundo, ele dá como alimento às renas quilos e quilos de uma mistura especial, tipo desses de bolo.
APRESENTADOR: O senhor quer dizer que as renas voam após comer mistura de bolo?
CIENTISTA UBIRAJARA: Não é bem isso que quis dizer, mas a nível de comida é o seguinte: esses animais se alimentam com uma combinação de feno, cevada, trigo, aveia e lúpulo misturados com água fermentada de milho.
Apresentador: Mas isso é quase uma cerveja.
CIENTISTA UBIRAJARA: Pois é, mas não é uma cerveja.

Pô, será que estou tão bêbado assim? Não consigo entender nada do que ele fala. Disse assim para meu cunhado enquanto ele se ajeitava para soltar mais um peido.
APRESENTADOR: Mas então, o que é afinal que faz esses bichos voarem pelos céus?
CIENTISTA UBIRAJARA: Na verdade, tipo assim, o efeito voativo desses animais não está no que eles comem, mas sim, a nível de voar pelos céus é o seguinte: o efeito posterior é que é o responsável por esse efeito quase ilusório.
APRESENTADOR: O senhor está querendo dizer que a vista voadora do Papai Noel é apenas um efeito ótico?
CIENTISTA UBIRAJARA: Olha; não me interpretem mal, mas não foi isso que eu quis dizer. Só estou tentando, tipo assim, através de explanações significativas relatar sobre como acontece o vôo fantástico desses cervos encantados. Pois bem, continuando com aquilo que me propus dizer; na verdade, o vôo é possível por três fatores:
A primeira: é o fato das renas se alimentarem com aquilo tudo e seus efeitos surpreendentes, que são os gases emitidos no ar. As altas concentrações do gás Metano nessas emissões quase laxativas das renas criam ao redor do Papai Noel e o trenó uma redoma extremamente leve.
A segunda: o trenó é equipado com um motor antigravitacional para facilitar nas manobras evasivas, quando necessário.
A terceira: o Papai Noel, por sua vez, tipo assim, cria uma mandinga forte, e com dois estalares de dedos seguidos e um "Ôu", eles conseguem içar vôo.

Puxa! Pensei. Será que isso é sério? Perguntei-me. Resolvi olhar então para meu cunhado e saber dele qual seria sua opinião. Digamos que foi uma tentativa em vão, pois ele estava deitado de lado na poltrona onda a Olga costuma se sentar, e lógico, peidando aos montes. Sabe, não esperei pelo término do programa. Resolvi desligar a televisão antes que eu liquidasse com ela. Fiquei estupefato com tanta explicação sobre o Papai Noel e suas fétidas renas voadoras. Quanto ao meu cunhado; deixei-o soltando seus peidos lá mesmo na sala. Por incrível que pareça a tal explicação parece-me plausível, porque o ar em torno daquele meu meio parente estava quente e com a sensação de tudo estar leve. Tanto é que tinha uns pedaços de papel flutuando ao seu redor.


Aqui, vemos o Papai Noel se divertindo enquanto suas renas voadoras voavam por aí atreladas ao trenó voador para distribuir nossos presentes. Ah, velho danado. E nós ainda pensávamos que ele é que fazia essas entregas.
Mario Bourges 01:23 [+]
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Sábado, Dezembro 18, 2004


Nesta semana aconteceu apenas a festa que marcou o ano, sem falsas modéstias ou verdadeiros exageros. Como havia comunicado anteriormente, a tal da 1ª Baratona (baris: bar, botequim / atones: corrida controlada até esta localidade) aconteceu em Curitiba. A imprensa mundial estava sabendo deste evento. Sendo assim, tinha equipes jornalísticas de três ou quatro países cobrindo esta corrida líquida/cultural.

Esse Odil, sujeito de sorte, durante os dias que antecederam este espetáculo, choveu, geou, caiu granizo e até nevou, mas no dia "D" o tempo ficou maravilhoso. Tanto é que o sol se pôs perto da meia-noite. Eu falei sobre as equipes estrangeiras que vieram cobrir a Baratona? Ah, sim. É que, por ter estrangeiros cobrindo o trajeto o proprietário do bar queria cobrar dessa gente em Euro, mas pensamos melhor e resolvemos cobrar o ingresso deles o mesmo que o nosso. Sabe, como tinha um grupo de jornalistas argentinos no super-ônibus fretado especialmente para a corrida, cedo ou tarde, através de chacotas, eles iriam descobrir a verdade. Mas tudo bem, se reclamassem muito dessa desigualdade monetária nós nos desculparíamos pagando uma bebida que começa com K, e que o povo ainda insiste em chamar aquilo de cerveja, para cada um deles. Viu como nós brasileiros somos bonzinhos?

Bom, então me deixe narrar esta adorável aventura. Como estava marcado para começar às 19h de quarta-feira todos estavam lá, uns minutos antes, pulando de um lado para outro num pé só. Acredito que isso fazia parte de um aquecimento ou algo parecido. Depois, cada um dos participantes ganhou sua camiseta, referente ao evento. Na seqüência foram distribuídos crachás com os respectivos nomes para cada um daqueles que iriam participar da Baratona. Ótimo; pensei. Isso demonstra profissionalismo, e o que é melhor, organização.

Sendo assim, convém contar como foi a festa em si, não é verdade? Pois bem; quando deu 19h em ponto o ônibus chegou, e assim que estacionou em frente ao bar, todos se reuniram, e em posição de sentido cantamos o Hino Nacional. Aquilo foi lindo. Quase cheguei às lágrimas com este ato de civismo. Mas assim que terminou tudo isso meu momento de frescura passou. Ainda bem. E sem mais demora me enfiei no ônibus para garantir um lugar bem bacana. "Certo!" Gritou o Odil. "Vamos partir!" Gritou ele novamente. Quinze minutos depois da partida e ainda estávamos há duas quadras do ponto de partida. Mas isso foi pela burrice do motorista que pegou a rua errada. Por sorte o congestionamento logo se descongestionou, e aí conseguimos chegar no local indicado à todos os meios de comunicação existentes para registrar o início do grande acontecimento.

Descemos do ônibus e brindamos aos berros à nossa felicidade, e a todos os distintos cavalheiros da comunidade etílica. E aí o resto foi só festa. Pelo menos até o momento que super-ônibus quebrou na transição do antepenúltimo para o penúltimo bar. Isso já passava das 3h da madrugada. E o pior; ninguém se enxergava naquela escuridão toda. Então eu pensei, quero dizer, pensamos: "que diabo de lugar é esse que viemos parar". Então alguém gritou: "cadê o burro do motorista? Quero torcer o pescoço dele e talecoisa". Por sorte o Odil, um sujeito prevenido, que sempre carrega consigo as dúzias de canivete suíço, as lanternas à prova d¿água, a navalha belga e as botas Sete Léguas, trouxe também, para nossa felicidade, um sinalizador, um telefone que faz ligações através dos satélites e mais um aparelho de localização para nos auxiliar neste momento de quase desespero.

Tempos mais tarde amanheceu. Então descobrimos que estávamos realmente num fim de mundo. Quer saber o ônibus? Já tinham levado embora. Como assim pra onde? Sei lá. Quando alguém rouba alguma coisa não vai dizer para onde irá levar. Mas tudo bem, mais uns quinze minutos se passaram, e ao longe podíamos ver uma porção de caminhões vindo em nossa direção. Apesar do azar era o nosso dia de sorte. Vieram nos socorrer após terem recebido mensagens do telefone especial do Odil. Mas o que facilitou a vinda deles até aqui foi o sinal luminoso emitido pelo sinalizador.

Assim que chegamos em Curitiba fizemos um abaixo-assinado para tirar o motorista da empresa. Onde já se viu uma coisa dessas; cobrar de nós para depois nos deixar ao relento. Agora quanto às notícias; fizemos uma "vaquinha" e pagamos o pessoal da imprensa para não contar isso aos argentinos. Eles iriam ficar loucos da vida de não terem ido com a gente nessa perdição toda. Quanto aos certificados; todos nós recebemos, pois seria injusto ficar sem receber nosso comprovante de participação desta primeira Baratona.


Este, como já está à mostra, era o super-ônibus antes de seu desaparecimento.


E aqui está o pessoal que nos resgatou do lugar onde estávamos, que era um lugar nenhum.
Mario Bourges 23:09 [+]
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Domingo, Dezembro 12, 2004


Deixe-me ligar a televisão e ver o que está passando: hum! Já vi este programa uma vez, mas não consegui entender nada porque naquele dia a casa estava cheia de gente gritando, e por causa disto fiquei sem saber do que se tratava. Porém, agora posso assistir.

Apresentador: Voltamos para mais um bloco do programa "De Olho no Insano" para discutir com o Professor Epaminondas, com exclusividade, sobre a teoria, e as possíveis hipóteses, de o homem conseguir dominar as técnicas do tele-transporte. E ainda, sobre a possível construção de uma base interestelar americana sobre os anéis de Saturno.
Hum, isso parece interessante! Pensei.

Apresentador: Então professor; conforme havia perguntado no bloco anterior, como funcionaria o tal aparelho de tele-transporte?
Profº Epaminondas: Perfeitamente. Isso é muito simples. Veja; a nível de informação é o seguinte: tipo assim; cientistas do mundo inteiro estavam tentando descobrir qual seria a melhor maneira de deslocar um objeto de um lugar para outro sem ter que tocá-lo. Muito bem, pensei. Primeiramente seria interessante criar duas bases distintas, ou melhor, dois terminais, assim o objeto poderia fazer a ligação, ou a viagem, de um lado para outro sem ter de sair de seu lugar original. Como numa ligação telefônica.
Apresentador: Isso quer dizer que o tele-transporte é parecido com uma ligação telefônica?
Profº Epaminondas: Hum... Veja bem; não foi bem isso que eu quis dizer, mas a nível de transferência é o seguinte: através de um aparelho telefônico se transporta a voz, correto?
Apresentador: Correto.
-- Correto! Disse eu.
Profº Epaminondas: Certo, mas não bem assim que funciona. Uma ligação telefônica precisa de um satélite de comunicação. Coisa que o tele-transporte não pode confiar, pois, qualquer problema nas ondas eletromagnéticas, tanto na emissão como na recepção delas, poderá comprometer o reaparecimento do tal objeto no lugar indicado, ou, no terminal já mencionado anteriormente.
Apresentador: A questão é a seguinte: como fazer a transferência deste objeto então?
Profº Epaminondas: Tipo assim; existem muitas tiorias a esse respeito, mas todas muito confusas. Veja; a nível de tioria é o seguinte: tentaram produzir algumas transferências com base na emissão da voz. Construíram aparelhos e tudo mais para conseguir tal feito. Porém, depois da terceira tentativa resolveram desistir achando que tudo isso era uma grande bobagem. E a conclusão foi a seguinte: a voz é a projeção das vibrações das cordas vocais, e ela percorre seu trajeto, ou, chega até seu destino, por causa do efeito de deslocamento do ar que ela provoca.
Apresentador: Então a voz percorre o trajeto... Como assim?
Profº Epaminondas: Veja; a voz, tipo assim; desloca-se através de um pseudovácuo que ela mesma produz quando desloca o ar que compõe o ambiente.
Apresentador: Que interessante professor; quer dizer que a voz se desloca através do vácuo?
Profº Epaminondas: Não foi isso que quis dizer.

Enquanto isso resolvi ligar para o tal programa e contribuir para a melhor performance do apresentador e do professor.
-- Alô!? Aqui é o Baltazar Ferro, e estou ligando para fazer uma pergunta ao professor Epaminondas. Disse assim à telefonista.
-- Pois não seu Baltazar; aguarde só mais um momento que já irá fazer sua pergunta diretamente ao professor, ok? Pronto seu Baltazar, está no ar... Faça sua pergunta. Disse assim a telefonista.
-- Olá, gostaria de fazer uma pergunta ao professor. Disse para o apresentador.
Apresentador: Muito bem Baltazar, o professor está aguardando sua pergunta, e ansioso para respondê-la da melhor maneira possível.
-- Tudo bem, então lá vai... Olha professor, por que não vai à merda e para de encher nosso saco com essa enrolação toda? E tem mais... Vá à p.....
Apresentador: Infelizmente, por motivos não sabidos ainda, a ligação com o telespectador apresentou um problema e caiu misteriosamente. Mas continuando com o programa...

A partir daí resolvi desligar a televisão emputecido e espumando de raiva, e parti em direção à cozinha para pegar uma cerveja, e ainda praguejando contra todas as emissoras de tv. Logicamente. Bebi logo de cara duas latas de cerveja. Depois disso liguei novamente para a emissora de tv para tirar umas satisfações. Por incrível que pareça não consegui com que me atendessem. Todas as minhas ligações caíam numa gravação dizendo: "Infelizmente, por motivos ainda não sabidos, todas as nossas ligações não poderão ser completadas. Por favor, tente mais tarde... Bem mais tarde". Diante deste complô televisivo resolvi desistir desta besteirada toda. Então, resolvi pegar uma outra lata de cerveja. Sentei-me confortavelmente na minha poltrona, e com golpes de lata de cerveja estraguei o aparelho de televisão.


Aqui, durante o programa de televisão, tentaram fazer uma experiência de tele-transporte com duas pessoas... Digo, uma pessoa e um coelho que estavam na platéia. Não sei se deu certo porque meu aparelho de televisão ficou quebrado momentos antes dessa tal experiência.

Mario Bourges 20:25 [+]
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Sábado, Dezembro 04, 2004


Para esta semana tentarei contar o que me aconteceu, dia após dia, e nos mínimos detalhes, se lembrar.

Segunda-feira:
Fiz o que sempre faço no início da semana, ou seja, nada. Acordei aproximadamente às 9h30, cedo à beça. Claro que é cedo! Para quem espera fica a cama até às 11h é cedo. Pois bem; o horário previsto já tinha ultrapassado há muito tempo. Então, às 12h37 desci as escadas de cueca e camiseta regata, aquela furada nas costas, e fui para a cozinha tomar meu café da manhã. Nisso aproveitei para almoçar também, pois assim economizaria meu precioso tempo. Depois disso coloquei uma roupa qualquer e fui dar umas voltas no centro da cidade, ver se encontrava alguém bacana para conversar. Na volta encontrei a Olga com olhares pra cima de mim. Pensei que era alguma coisa que tivesse feito de errado, por isso fui para cama cedo, para evitar que acontecesse algo de ruim para mim.

Terça-feira:
Às 10h despertei para mais um dia. Perfeito foi meu amanhecer ao som dos meus peidos cantarolantes embaixo dos cobertores. Após ter defumado a cama e o quarto resolvi me levantar. Sendo assim desci as escadas, de cueca e a minha camiseta regata, a mesma com os furos nas costas, para tomar café. Como estava cedo para almoçar fiquei sentado na passagem da porta da cozinha com o quintal praticando pontaria. Você quer saber onde? Nos passarinhos que vinham comer a comida do cachorro. Agora você quer saber com quê? Com cuspes ora. Mas logo parei também porque a Olga começou a me rodear, e eu estava cabreiro com aquilo tudo, pois ela me olhava de maneira diferente. Muito estranho. Então sai para evitar encrencas caseiras. Sei lá o que ela quer comigo.

Quarta-feira:
Ao som de porta batendo às 6h15 acordei, ou melhor, abri os olhos apenas, pois nesse horário não existo para ninguém. Na verdade o que aconteceu foi o seguinte: as crianças saíram de casa para estudarem, ou trabalharem, nunca sei o que essa gente está fazendo da vida. Enfim, saíram de casa e acabaram por bater a porta. Mas como tenho boa concentração não foi difícil de voltar para o meu sono. Às 10h33 decidi que estava na hora de levantar. Sendo assim desci as escadas de cueca e minha inseparável camiseta regata, aquela dos furos, lembra? Pois é. Após ter sentado à mesa recebi um beijo na testa da Olga enquanto pegava minha fatia de pão com geléia de pêssego. Não entendi o que a Olga quis com aquilo. Aliás, nunca entendo o que as mulheres querem dizer com essas aproximações repentinas.

Quinta-feira:
Acordei sei lá que horas, mas de uma coisa tinha certeza, minhas pernas estavam amortecidas pelo peso das pernas da Olga que estava se esfregando em mim. Então pensei: ela deve estar tendo um sonho bom. Foi aí que resolvi ir ao banheiro urinar. Sabe, minha bexiga estava cheia, precisava esvaziá-la... No local adequado. Fiz o que tinha de fazer, por isso voltei para a cama, recuperar os minutos perdidos no sanitário. Assim que voltei deparei-me com uma bandeja em cima da cama cheia de amendoins, castanhas de caju e outras sementes mais enquanto a Olga se aprontava para mais um dia.
-- Bom dia Baltazar! Dormiu bem? Quer saber de uma coisa? Amanhã as crianças ficarão o dia inteiro fora e... Que tal se nós fôssemos fazer alguma coisa interessante para passar o dia? Perguntou-me ela entusiasmada enquanto alisava o pouco de cabelo que eu ainda tenho. Depois saiu para suas atividades. Quanto a mim, desci as escadas de cueca e minha pegajosa camiseta regata com seus abomináveis furos. Claro que também fui para minhas atividades comuns, como por exemplo: O... A... Oras, tive que sair.

Sexta-feira:
Estava eu lá na cama, deitado, olhado para cima, sem saber o que fazer, quando de repente ouço minha senhora dizer: "seria muito bom se você fosse tomar um banho, senão...". Entendendo o que ela quis dizer não pensei duas vezes. Tratei de tirar meu traje de noite/dia e fui para o banho. Trinta e sete minutos cronometrados depois sai do banho. Estava um tanto enrugado e ligeiramente avermelhado pelo efeito da água quente, mas tudo bem. Assim que sai do banheiro vi a famigerada cueca e a infame camiseta regata furada pulando em frente à porta do banheiro, mas nem liguei. Como era um dia especial peguei roupas menos usadas, ou seja, limpas.
Na cozinha tinha um café da manhã todo especial me aguardando, mas a inusitada saraivada de beijos, por parte da Olga, me impediu de degustar as iguarias postas à mesa. Poderia dizer até que a visão era de um café colonial, que deixei de desfrutar, naquele momento. Porém, quando já estava pensando que iria ficar apenas na parte dos beijos e abraços, ela me atacou com uma seção de chupões e apertões. Confesso que quase me quebrou os ossos com esses apertos dela, mas gostei. E num curto espaço de tempo estávamos rolando por cima da mesa e coisa e tal. Lambuzamo-nos com geléias e patês, e a camisa de cetim que ela usava já estava pendurada em algum outro lugar para não ficar manchada com o café que esparramou por toda a cozinha. Enfim, para encurtar um pouco, a coisa foi fantástica. O momento era mágico para ambos, mais ainda para mim, porque nem lembrava que esse tipo de coisa era bom, e também não lembrava que meu equipamento ainda funcionava.

Sábado:
Acordamos tarde, muito tarde, mas agarradinhos, como se fossemos jovens namorados. Agora você pergunta se ainda foi bom. Nem devia responder uma pergunta tão estúpida, mas depois de uma semana tão surpreendente quanto esta eu até serei polido. Ignorarei-te categoricamente com uma música do Henry Mancini assoviada by my self. Como diria meu cunhado meio britânico e extremamente crica em uma hora como esta: It´s a wonderful day to feel the life. So, it´s enough.


Aqui estava a Olga, preparada para me atacar. Ai, ai! Isso foi demais!
Mario Bourges 23:19 [+]
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Domingo, Novembro 28, 2004


Estamos mais uma vez no fim do ano. Grande coisa! Mais um ano se acabando. Para diferenciar minhas atividades estava eu sentado em frente ao aparelho de televisão assistindo nada, pois estava de saco cheio desses programas estúpidos, quando tocou a campainha. Desta vez resolvi atender de imediato a pessoa no portão, só demorei para sair da minha poltrona porque não encontrava o pé direito do chinelo. Assim mesmo estava decidido em atendê-lo. Esse foi o meu erro. De repente vi o vira-lata de casa correndo com o chinelo na boca. Não deixei pra depois, fui atrás dele. E num lance de tirar o fôlego (meu fôlego) voei em cima dele. Como havia dito, esse foi o meu erro. Caí no chão, ou melhor, na bosta do cachorro feito um destrambelhado. Mas minha habilidade permitiu que eu pudesse parar antes de me rebocar na próxima bosta. "Que bosta!" Pensei, ou gritei, sei lá.

Neste momento o infeliz que estava no portão não se conteve, caiu na gargalhada. Será que não tem coisa melhor para fazer? Pensei. Com muito custo consegui levantar da calçada, e então olhei bem para a o cidadão e perguntei:
-- Está rindo do que, palhaço? Mas claro, isso foi feito com muita educação. Ele, sem jeito, mas ainda com um sorriso estampado em sua face ridícula disse que eu estava sendo presenteado pelo prefeito com uma passagem de trem até a cidade de Paranaguá - PR. Talvez ele (prefeito) quisesse me explodir junto com algum outro navio, ou fazer com que os vagões, inesperadamente, despencassem ribanceira abaixo comigo junto. De qualquer maneira aceitei o presente, e tratei de tocar esse entregador imbecil de frente da minha casa antes que fizesse alguma besteira.

Dois dias depois estava eu sentadinho, lá no lugar indicado do trem. Já estava quase na hora de partir, e os vagões só contavam com a minha presença. Confesso que isso me preocupou porque aquele meu pensamento absurdo poderia acontecer. Imaginou o trem caindo comigo no precipício? E nem é uma coisa muito difícil de acontecer, pois esses trens vivem despencando por aí. Porém, faltando apenas um minuto para a partida o trem milagrosamente entupiu, de tudo quanto era tipo de gente. Menos mal, pelo menos assim, se os vagões vierem a cair não vou sozinho, pensei.

Passadas duas ou três estações e a movimentação dentro do trem se tornou um inferno. Sujeitos usando capas de chuva e chapeis pretos circulavam pelos corredores de posse com embrulhos estranhos. As pessoas conversavam tão baixinho que até pareciam estar sussurrando. Inclusive as equipes do atual e do próximo prefeito da capital estavam lá confabulando aos cochichos. Provavelmente tramando alguma para a próxima gestão. Muito bem, pensei, pelo menos assim o trem não cai pelas ribanceiras abaixo. Pensando bem, não posso descartar a hipótese de um possível atentado. E tal idéia poderia ser perfeitamente executável, pois vindo de um certo governante malucão que temos, e sabendo de sua rivalidade com o outro governo tudo é possível. Ele poderia pensar como o Mal. Floriano que mandou fuzilar o Barão do Cerro Azul, e mandar fuzilar essa gente toda que está neste vagão. Do qual me encontrava no momento, mas, deixa pra lá.

Sabe, dentro daquele vagão claustrofóbico tinha vontade de gritar, mas não fiz isso porque poderia morrer de outra maneira. Aquela viagem arremetia meus pensamentos para o trem do Expresso Oriente, porém, dentro de uma maldita litorina que parte de Curitiba para Paranaguá. Por isso preferi ficar quieto. Dessa maneira tinha quase certeza que voltaria para casa são e salvo. Quando chegamos lá em Paranaguá para olhar os restos do navio, aquele que causou o desastre no porto eu literalmente sumi. Corri para a rodoviária e peguei um ônibus para voltar para casa. Nem esperei o trem para retornar à capital. Se por um acaso, num dia qualquer, o prefeito perguntar por que eu não estava lá direi que sai pela cidade para comprar um panetone e acabei me perdendo da comitiva. E tem outra coisa; não me encham o saco.

Mario Bourges 21:03 [+]
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Sábado, Novembro 20, 2004


Nesta semana, após várias semanas sem pisar no café (recinto), estava eu sentado com as pernas doendo, por estar com elas cruzadas, e encarando um velho estúpido que estava posicionado à minha frente enquanto eu bebia uma xícara de café com leite. Diante desta situação não me agüentei;
-- Está olhando para mim por quê? Perguntei educadamente.
-- Tipo assim; a nível de informação; quando duas, ou mais pessoas conversam, é natural que elas se olhem. Mas a título de curiosidade; qual seria o melhor lugar, tipo assim, para eu olhar num momento como esse?
-- Para seus pés seria ótimo. Respondi olhando para a bunda de uma das garçonetes.
-- Deixe de ser assim tão ranheta Baltazar. Procure ser mais agradável com os outros. Disse um terceiro que nem sei que era, mas em se tratando de velho, e dentro de um café, só podia ser daqueles sujeitos metidos em terno e gravata que te olham de cima, mesmo sendo baixinhos. E o pior de tudo, conversam como se estivessem lendo algum livro de Direito.
-- Odeio vizinhos. Disse-lhe com voz de cansado.
-- Oras, mas não sou teu vizinho! Insistiu esse terceiro.
-- Então cale a boca e não se meta na conversa dos outros. Disse-lhe levemente aborrecido.
Neste momento uma cadeira caiu, e este terceiro junto com ela. A partir daí o ambiente ficou com ar pesado, e não foi por causa dos peidos que soltei durante toda a tarde.

Pensando que a situação poderia piorar... Para o sujeito que falava comigo, ou este outro, o terceiro, resolvi ir embora. Porém, antes tive que calçar meus sapatos, pois havia tirado para arejar meus pés. Fazia muito calor naquela tarde. Como assim "fugiu"? Saí para evitar problemas com esses ignorantes. Sabe, odeio ignorantes. Assim mesmo não consegui me agüentar. Atravessei a rua, e parado na calçada imediatamente em frente ao café comecei a desferir palavras pouco agradáveis para esses dois imbecis. Por sorte sou um sujeito esperto, antes mesmo de voar a primeira xícara lá de dentro eu caí fora. Fui tomar uma cervejinha num boteco qualquer. Entrei no primeiro pé-sujo que encontrei aberto e tomei uma cerveja qualquer, e antes mesmo de uma diarréia me atacar rumei para minha casa. Afinal de contas, não sou bobo de esperar, na rua, o efeito disso passar.


Aqui estavam o velho chato mais o terceiro sujeito que me deixou levemente emputecido.
Mario Bourges 21:35 [+]
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Segunda-feira, Novembro 15, 2004


Esta semana tinha a nítida impressão de ser totalmente inútil. Daquelas que se arrastam para passar por nós. A televisão passava uma infinidade de porcarias, só para variar, e eu firme e forte no mesmo esquema da tv. De repente comecei a ouvir músicas do Trio Nagô, vindas do meu quarto. Que agradável! A Olga! Pensei. Hum, a Olga! Faz tempo que não dou assistência para ela. Continuei pensando. Muito tempo por sinal. Até nem lembro quando isso aconteceu. Se não me falhe a memória, as últimas vezes que essas assistências aconteceram foi no tempo daquele programa Vila Césamo, do Garibaldo, do Ênio e do Beto, mas isso é apenas um detalhe. E não gosto de me ater em detalhes. Mesmo porque odeio lembrar disso assim, dessa maneira.

Bom, deixe-me continuar; decidi fazer algo inusitado para chamar sua atenção. Peguei a escada, que usamos para trocar lâmpadas e fazer outras coisas mais, e parti para fora de casa. Mais precisamente falando, para o jardim. Ótimo, aqui está bom. Já posso pôr em prática meu plano, que não sei qual é. Pensei. Mas como já falei, isso apenas é um detalhe, e como não dou a mínima para isso nem liguei. Então, de posse de uma mangueira comecei a subir aquele objeto, degrau por degrau. Sabe, aquilo dava a sensação de jovialidade... E burrice ao mesmo tempo. Simplesmente porque não fazia o menor sentido esse tipo de atitude. Mas para quem estava derretendo em frente ao aparelho de tv isso é divertido, ou pelo menos parece ser. Continuei pensando. Nossa, que loucura! Creio que devo parar com pensamentos, pois começo a ouvir as fofoqueiras da rua falar sobre aromas estranhos surgirem repentinamente pela região.

Sendo assim era momento de agir. De novo. Comecei a subir os degraus da escada. Agora, aposto, que você vai dizer: "mas você já contou que estava subindo a escada". Sei disso, mas acontece que após ter subido o primeiro degrau comecei a divagar sobre alguns assuntos pertinentes à minha vida. Mas também nada de muita importância. Só para variar um pouco. Lá pelas tantas, assim que passei para o segundo degrau, a vertigem começou a me atacar. Mas não desisti... Logo de cara. Sendo assim, não vi motivo para voltar atrás. Mesmo porque eu não faria isso em sã consciência. Por quê? Oras! Descer uma escada significa ter de olhar para baixo. Hum; isso pode causar problemas para minha labirintite. Tudo bem, passei então para o terceiro degrau, mesmo com as pernas tremendo feito vara verde.

Estava indo tudo muito bem até eu ouvir o cantarolar da minha vizinha peituda. Qual? Aquela que gosta de correr em volta da casa. Pois bem, ela parou em frente ao portão e começou a rebolar aquele bundão formoso, e eu resolvi olhar. O resultado não poderia ser outro; quando estava conseguindo depositar todo o meu peso no quarto degrau um pé escorregou. Aí foi tudo de ruim que aconteceu comigo. Primeiro de tudo; fiquei dependurado por uma perna no maldito quarto degrau da escada. Segunda coisa que me aconteceu foi que a escada de bosta não agüentou com meu peso e quebrou. A terceira coisa foi um espetacular tombo pelo gramado de casa, mais os pedaços da escada que me acompanharam no espetáculo. O resultado disso foi, para terminar, um belo alvo de chacota para a vizinhança. Quanto a Olga, a pessoa da qual queria impressionar, nem percebeu o acontecido. Ainda bem.


Ah, mulheres! Sempre me causando problemas. Pensei que ia me dar bem desta vez, mas só me estrepei.
Mario Bourges 20:52 [+]
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Domingo, Novembro 07, 2004


Nesta semana me aconteceu uma coisa muito interessante. Para mim foi, pelo menos. Bom, talvez nem para mim isso cause tanto interesse assim, mas como vivo um dia após o outro neste mundo ocupado por desocupados, o que me aconteceu até pareça agradável. Puxa! Enrolei tanto para dizer o que era que quase me esqueci do assunto do qual decidi tratar. Mas também, que diferença isso faz? Ah! Nenhuma. Então me deixe prosseguir; estava eu observando o crescimento daquelas flores estúpidas, que ficam dentro daquele vaso imbecil. Ai, ai; esse é mais um dos ridículos afazeres da Olga. Na verdade ela devia procurar algo mais interessante para fazer. Por exemplo: ... Ah, sei lá.

E enquanto olhava para todas essas anomalias caseiras o telefone, além de quase ter me matado do coração, resolveu escancarar-se em toques indecentes. Maldito! Pensei. A primeira coisa que fiz foi arremessar a primeira coisa que estava próxima de mim no aparelho telefônico. Por que fiz isso? Para ver se parava que essa barulheira. Não suporto estardalhaços. Todavia, o que eu acabara de fazer naquele momento era um estardalhaço, mas tem um pequeno detalhe, a produção foi minha. Então tudo está normal. Continuando; peguei a garrafa vazia de cerveja e taquei na direção do fone, mas, por uma falta de habilidade errei, obviamente. Assim que a garrafa beijou a parede quebrou-se em mil pedaços. Até que foi bonito de ver, mas surgiu um pequeno problema; cacos por todos os lados. E sabe de uma coisa? O maldito telefone ainda estava tocando.

Impossibilitado de vislumbrar um pequeno momento de paz para minhas tardes sem nexo resolvi atender aquela incoerência sonora. E feito um lorde britânico... Um gentleman, atendi ao telefone na melhor das educações:
-- Que que qué aqui porra? Perdeu alguma coisa? Perguntei tranqüilamente.
-- Vou te colocar num hospício Baltazar se não aprender bons modos. Porém, antes disso, vá desligar a panela de pressão que já deve estar fervendo. Disse assim minha adorável senhora.
-- Não está fervendo coisa nenhuma. Disse-lhe com a voz um pouco mais mansa.
-- Não? Perguntou ela.
-- Não! Acabou o gás. Disse-lhe com a voz enfatizante.
-- Então o que está fazendo que ainda não trocou o botijão? Perguntou ela delicadamente aos berros.
-- Eu... Sabe... Porque... Quer saber? Porque não consigo! Essa porcaria ? muito pesada. Peça para teu neto, aquele vagabundo que trabalha durante o dia e estuda durante a noite para fazer isto. Após meu desabafo desliguei o telefone delicadamente. Detalhe: quase quebrei o aparelho de tão delicado o meu ato.

E num ato de fúria coloquei uma roupa menos indecente e me enfiei no meu fusquinha. Liguei o possante e introduzi um cd no aparelho novo que acabei de instalar. E em meio a uma nuvem de fumaça (produzida pelo cano de escape) e ao som de Young, Gifted And Skint do grupo inglês New Model Army saí pelas ruas desvairado em direção à casa do Pereirinha. Talvez lá conseguisse esfriar minha cabeça. Ou talvez esquentá-la de vez com aquele estoque de uísque que ele possui. E após cantar pneus nas esquinas e sucessivos cavalos-de-pau pelas ruas consegui chegar em sua casa. Ôpa! Essas grosserias feitas por mim nas ruas não foram imprudências. A culpa de todas essas maluquices cai diretamente sobre as galochas velhas que estava usando no momento, que se engatavam freneticamente entre os pedais do carro.

Por sorte, minha é claro, cheguei são e salvo para me acabar na vasta coleção de bebidas do meu amigo. Lá chegando me deparei com toda a família dele amontoada na sala de estar, e foram lá com a mesma intenção da minha, e que, aliás, foi o grande motivo para a fuga de minha casa; se acabar na bebida. A vantagem desse povo est? no bom humor deles, costumam se divertir com qualquer coisa e facilmente se esquecem dos maus momentos. Resumindo um pouco; são virtuosos. E depois de muitas horas de pura diversão resolvi voltar para minha casa, mas antes de partir acabei emprestando um calçado do Pereirinha, pois essas galochas poderiam abreviar a vida de um infeliz qualquer que se atravessasse na minha frente enquanto estivesse dirigindo. Você deve estar se perguntando: "e os cacos da garrafa que arremessei na parede da sala?". Ora, sem problemas. Tranquei o gato na sala. Assim dá a impressão que foi ele quem fez a tal bagunça.


Aí está, toda a família do meu amigo. Tem algo estranho com essa gente, mas ainda não consegui identificar o que é. Enfim, tudo bem. Sabe, mesmo com toda a algazarra que fazem suas companhias são agradáveis.
Mario Bourges 17:10 [+]
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Segunda-feira, Novembro 01, 2004


Nesta semana aproveitando a gama de variedade existente em meus passa-tempos, resolvi passear pela cidade. Entende o que quero dizer? Andar de ?nibus feito um desocupado profissional, que fica admirando durante horas os variados lugares passados por este ve?culo. E claro, esperando por uma boazuda qualquer que queira se sentar em meu colo por falta de lugares vagos. Mas quanto esta id?ia posso logo ignorar, porque isso ? praticamente imposs?vel de acontecer. Hei! Espere a?, n?o ? o que voc? est? pensando! Isso n?o aconteceu (uma gostosa sentar em meu colo) porque o hor?rio que resolvi fazer o tal passeio era no per?odo da tarde. Como assim: "o que eu tenho com isso"? Acontece que por essas horas as mulheres (gostozudas) n?o saem de ?nibus. T?, est? bem, elas saem de ?nibus esse hor?rio tamb?m, mas... Olha, vamos mudar de assunto, j? estou me aborrecendo com isso.

Bom, continuando; estava eu bem confortavelmente sentado num dos bancos quando entrou uma dona com uma grande sacola e sentou-se na minha frente, e virada para mim. At? a? nada de mais, por?m, como num passe de m?gica, surgiu de dentro da sacola um pequeno cachorro, e p?s-se a olhar curiosamente para todos os lados poss?veis. Enquanto isso a dona do cachorro comia um horroroso peda?o de p?o cheio de mortadela, daquelas meio sebentas. O mais surpreendente de tudo isso foi quando o bicho come?ou a lamber a boca da mulher para aproveitar o restinho do lanche dela. Pavoroso isso, quase vomitei quando vi a cena. Voc? quer saber se a mulher ficou brava com o indecente do cachorro? Qual nada! Nem ligou. Penso at? que os dois s?o amantes.

O ?nibus continuou com seu trajeto, e eu tive que mudar de lugar. Sinceramente falando, esse tipo de coisa me enoja. Tendo em vista que o ?nibus havia se transformado, a partir daquele momento, em uma p?ssima id?ia obtida por mim, decidi permanecer, ainda, no ve?culo. Porque n?o saberia voltar para casa, na verdade n?o sabia nem em qual bairro me encontrava. Isso ? triste, mas ? verdade. E mesmo que soubesse n?o sairia do lota??o porque estava com pouco dinheiro em meus bolsos... Al?m da pregui?a dominante que se apossa de minha pessoa num momento como esses. Ali?s, esse tipo de coisa tem se apossado de mim por quase todo o momento. Por?m, isso ? apenas um detalhe.

Quase duas horas enfurnado neste meio de transporte, percebi que estava pr?ximo do meu ponto de parada. Sabe de uma coisa? Quando estamos concentrados em alguma coisa sempre surge algo para nos tirar de nossos focos, n?o ? mesmo? Pois bem; como havia dito, estava de olhos abertos, ver se conseguia avistar minha parada, mas num lance de distra??o fui parar longe ? be?a. Por causa de um velho trajado com sua camisa e palet? de maneira torta acabei perdendo meu ponto. Isso fez com que voltasse a p? para casa. Por sorte eram s? algumas quadras. Mas tamb?m j? serviu para me acabar no cansa?o. Maldi??o. O bom de tudo isso foi que ao voltar para casa estava faminto. O que tem de bom nisso? Acontece que o caf? j? estava feito, e ainda por cima tinha: p?o feito em casa, bolo de milho e pudim de leite. Isso serviu de alento para minha situa??o frustrante. Agora me d?em licen?a, pois n?o consigo comer e falar ao mesmo tempo. Quer dizer; at? consigo, mas n?o ? muito agrad?vel de ver tal cena.

Mario Bourges 23:03 [+]
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Terça-feira, Outubro 26, 2004


Dia desses flagrei-me penando sobre... Não lembro o que enquanto coçava os vãos dos dedos do pé esquerdo com uma caneta de ouro que ganhei, ainda no tempo em que as pessoas, de uma maneira geral, se aproximam de mim recheados de segundas ou terceiras intenções. Mas também logo desistiam de me bajular, pois este tipo de coisa costumava não dar certo. Aliás, nunca deu certo, e pelo que me consta, nunca dará. Bom, vejamos agora o que seria o tal pensamento... Esta dúvida começa a me incomodar. Ah, já sei! Era sobre o tempo em que jogadores costumavam pedir palpites para mim, de qual bicho ia dar no horário das quatorze horas. Então, eu, com toda classe dizia: "bicho; é uma braza, mora?", e depois lascava um: "vá se danar, e não me encha o saco".

Passado algum tempo, enquanto eu contemplava uma mosca varejeira voando ao redor do dedão do meu pé direito, surgiu, do nada, melhor dizendo, surgiu de uma nuvem de fumaça cheirando alguma coisa que não consigo definir o que é, mas fedia muito, a figura desfigurada daquele mesmo sujeito estranho. Qual? Aquele que disse ser o criador de tudo. Pois bem, após a aparição Dele surgiram as dúvidas. Claro! Sempre surgem dúvidas. E Ele, sempre paciente respondeu categoricamente:
-- Pode parar Baltazar! Vim aqui apenas para trocar uma idéia, curtir um som, mas não para responder perguntas, e daquelas que me aborrecem. Sabe, simpatizo com tua raça, mas às vezes fico de saco cheio com a ignorância de todos vocês. O que me faz preservar a raça humana neste planeta é o fato de que as pessoas, de uma maneira geral, são muito hilárias. Vivem reclamando e se queixando das coisas, até mesmo quando tudo vai bem e suas míseras vidas.

Indignado, resolvi ir à cozinha pegar uma manga para comer enquanto pensava sobre a existência do sujeito que me visitava. De repente Ele perguntou:
-- Qual o problema Baltazar... Quer ouvir alguma música?
-- Como é que é? Perguntei ligeiramente confuso com a situação na qual me encontrava.
-- Ô Baltazar, está bobo? Perguntei se gostaria de ouvir algum tipo de música. Saiba que minha intenção é distrair tua mente perturbada e repleta de pensamentos inúteis. Mas peço para não se ofender comigo. Entretanto, se assim preferir, o azar é unicamente teu. Não vá culpar tuas vizinhas fofoqueiras e desorientadas mentalmente por isso. Mas, vamos mudar de assunto? Ótimo. Enquanto você se baba por inteiro com essa fruta vou colocar um disco para tocar. Talvez lhe ajude a pôr para fora toda tua frustração. Sabe, Eu costumo tocar este disco quando quero pôr o mundo a baixo com os temporais, vendavais ou sei lá o que mais. Olha, até rimou! Espere um pouco, antes quero soltar um peido. Upa lá, lá! Este foi dos bons. Ah! Antes que me pergunte quem toca isso já vou falar; é um conjunto escocês chamado The Exploited. Costumo ouvir este tipo de música, ou melhor, este tipo de som quando quero descarregar as tensões diárias que vocês, humanos, me submetem. Que é! O som pesado está irritando os ouvidos da "boneca"? Ô Baltazar, se liga. Descarregue as tensões também. Então, como você não tem os poderes que Eu tenho, faça o seguinte: solte um peido. Garanto que é a mesma coisa.
-- Vou tentar seguir seus conselhos. Disse-lhe enquanto me lambuzava com a manga que estava comendo. Quanto ao peido; isso é fácil.
-- Vamos fazer o seguinte; disse-me Ele durante o afrouxamento do cadarço de seus tênis. Vá se danar! E não me aborreça, pois você é muito chato. Complementou Ele do alto de sua poltrona (minha poltrona) celestial. Ah! Antes que me esqueça; tem cerveja na geladeira em sua casa? Ô cara! Quero cerveja. Estou com sede.

A tarde foi passando e nada se resolveu nesse tremendo papo-furado. Tanto é que decidimos fazer outras coisas. Eu fui dormir, e Ele foi embora, mas não sem antes tocar sua música de despedida, que é sempre uma surpresa, pois nunca se repete. Mesmo porque Ele tem a maior coleção de vinil do planeta, e tem a maior vontade de mostrar este outro poder sobre os reles seres humanos. E para completar; deixou sua tradicional mensagem para todos nós. "Ó, é o seguinte: prestem atenção no que fazem, e no que são. Seus umbigos não fazem parte do centro do Universo. Portanto, se liguem, ou Eu acabo com a raça de vocês". E mais uma vez desapareceu numa nuvem de fumaça mal cheirosa.


Mario Bourges 00:46 [+]
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Domingo, Outubro 17, 2004


Estão lembrados daquela vez que o Ao Distinto Cavalheiro completou seu primeiro ano de existência? E do primeiro grito de Carnaval, lembram também? Tiveram ainda aquelas festas danadas de boas que surgiam esporadicamente. Ah! Quase me esqueci, o primeiro ano deste blog imbecil, que os leitores insistem em telefonar, passar telex, enviar fax, e-mail, carta, bilhete, correio elegante, e o tradicional sinal de fumaça para que eu continue escrevendo minhas neuroses. Puxa, falei, falei, falei e cheguei a me perder nessa bobajada toda. O blog? O que tem ele? Ah, sim. Comemorei o primeiro ano de publicação dele lá no boteco do Odil também. E haveria de ser diferente? Creio que não.

Pois bem, deixe-me lembrar qual era o foco de meus comentários nada pertinentes desta semana. No sábado... Ah, lembrei! No sábado fomos convidados a participar dos festejos comemorativos de dois anos de existência do boteco do nosso camarada e sua equipe inseparável. Agora você pergunta: fomos, quem? Ora, eu, o Azambuja, o Pereirinha, e o chato do Adalberto. Meu genro também quis participar da festa novamente, mas teve que ficar em casa porque alguém precisava conter minha senhora. Que por sinal ficou espumando num sururu daqueles quando soube que eu iria sair de casa para beber com os amigos. Ela esperava uma carona até a casa de uma fofoqueira qualquer. Quem era a fofoqueira? Parece-me que é uma prima dela, ou... Sei lá. Que importa isso? Por conta disso acredito na teoria de ter que procurar um lugar para passar a noite. A casa dos amigos foi a primeira coisa pensada por mim. Restava saber se poderia ficar na casa de um deles até o dia seguinte. E nas condições que eu me encontrava, até dormir na casa do Adalberto poderia ser. Sabem, sou bastante tolerante quanto a chatice dos outros.

Continuando; chegamos todos, cada um com seu sorriso amarrado na nuca de tão felizes que estávamos. Quando adentramos no boteco recebemos, cada um de nós, um maravilhoso copo de chope gratuitamente. Até um sujeito que veio em nossa companhia, que não ousei perguntar quem era nem com quem estava, recebeu um desses prêmios magníficos. Desconfio de ter acontecido algo de errado com ele, ou talvez, de maneira antecipada comigo, pois quando eu olhava para seus pés simplesmente não os encontrava. Muito estranho isso, e mais estranho ainda era aquele terno e chapéu, ambos brancos. Não entendo muito de moda, mas tenho a impressão que esse tipo de roupa não orna com o tipo de ambiente. Enfim, não era o momento para preocupações ou pensamentos errados, e sim, para diversão.

Então, lá pelas tantas, o Odil, o bamba do pedaço por mais uma vez, subiu no balcão enquanto quase todos gritavam "obas" e "vivas" de maneira desconcertante, como se ninguém conseguisse se entender. Talvez fosse isso mesmo. Não sei bem ao certo. Prosseguindo; nosso amigo subiu no balcão com um charuto pendendo para o lado esq... Direito da boca e "miou": "Viva... O... Buteco, pe... (burp) pessoal!?". A grande maioria das pessoas gritaram isso também, assim penso eu. Depois disso começou a seção de abraços, e a confraternização rolou solto pelos trinta centímetros quadrados que cada um dispunha para ficar lá dentro.

Vendo esta pequenina multidão resolveram, não sei quem, levar a chopeira para fora. Isso mesmo, colocaram na calçada, junto dos músicos, que, vendo a máquina do chope ao lado deles tocaram todos os ritmos feito loucos. Claro, sem desviar os olhos da máquina. Mas isso aconteceu porque os funcionários do bar estavam com um pouco de dificuldade para se servirem desta magnífica bebida. Tanto é que precisavam pegar senhas para trabalharem. Realmente esta medida foi a mais plausível para a ocasião. Sem dúvida isso também facilitou para os motoristas de ônibus, pois enquanto passavam com o lotação por ali pediam para encher suas garrafas térmicas de chope. E ainda, com a vantagem de não precisar descer no veículo para efetuar a compra.


Realmente estava tudo muito bom, certo? Talvez tivesse sido a noite perfeita se não fosse o pequeno dilúvio que caiu na transição noite/madrugada. Inclusive, alguns conseguiram ver o fantasma de Noé com sua Arca. Sei não, mas pode ser a imagem do velho com seu carrinho de papel que passou a toda na frente do boteco no momento do temporal.
Mario Bourges 21:49 [+]
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Sábado, Outubro 09, 2004


Durante esta semana meus familiares e alguns amigos conseguiram me convencer de que seria melhor fazer um implante capilar, ou mesmo um tratamento para que pudesse cobrir o terreno baldio (couro cabeludo) com algum tipo de mato (cabelo). Certo, pensei. Após várias tentativas frustradas no passado sobre isso eles venceram a parada agora. Bem, o problema do convencimento eles não tinham mais, mas acabara de surgir um outro, que era simplesmente encontrar um bom profissional para executar tal tarefa.

Quase uma semana de intensa procura para conseguir o médico... Haja saco! Pensei. Ainda não entendi porque tanta vontade de consertar meu "telhado". Nunca incomodou ninguém. Enfim, eram eles que estavam dispostos a pagar a cirurgia. Nesse caso seria estupidez fazer qualquer tipo de reclamação. Nem mesmo quis saber qual o motivo dessa implicância boba. Mas como eu disse: sendo de graça; vinde a mim os cabelinhos novos. E nesse embalo dirigi-me, acompanhado de netos, sobrinha, a Olga, minha irmã e seu marido como tira-colo para a clínica.

Foi uma festa para todos, pois descobrimos que tinha para os clientes uma bancada de chás, torradas, geléias, pés-de-moleque, coalhada, fatias de melão e melancia, e ainda para completar, um prato cheio com salsichas bock (da branca e da vermelha). Claro que para melhorar o visual e o paladar tinha ainda muito molho de mostarda escura. Isso tudo era para deixar as pessoas bem tranqüilas. Sabe, amenizar a situação... O nervosismo. Se é que tinha alguém dessa maneira. Mas pasmem. Após ingerir alguns desses quitutes certos probleminhas começaram a surgir, como: idas constantes aos sanitários, e entre uma abertura de porta e outra (do banheiro) aromas baixos subiam até nossos narizes displicentemente.

Penso que não deviam servir estas coisas numa clínica. Acredito na hipótese de que isso tenha um forte apelo desconcentrante para os pacientes. Talvez até seja essa a intenção. Porém, devido ao forte "apelo", quem começou a ficar desconcentrado foi o especialista e toda a sua equipe, os outros pacientes também ficaram desnorteados, e para completar, alguns transeuntes que passeavam despreocupados pela calçada em suas caminhadas matinais. Alguns inclusive, chegaram a desmaiar. Por este motivo fui chamado para que pudessem, se conseguissem, fazer a tão encantada cirurgia. Por um momento senti uma vantagem nisso, pois todos os profissionais da clínica, mais os outros pacientes, estes consternados com minha situação, decidiram que seria melhor, para todos dali e outros que nem pensavam em estar ali, adiantar meu horário em uma hora.

O sentimento de vantagem pairou sobre nossas cabeças, digo, sob nossas cabeças. Então entrei na sala cirúrgica acompanhado da Olga, da minha irmã e seu marido a tira-colo, dos netos e da sobrinha. A equipe médica tentou impedir a invasão, mas diante da pressão resolveram trabalhar rapidinho. De repente o médico sacou de um bisturi e mirou para minha área genital. Como não sou bobo nem nada. Pelo menos penso dessa maneira. Rolei na cama para desviar da investida do louco como se fosse um contorcionista. Tá, tudo bem, exagerei um pouco, e cai da cama mesmo, e a barulheira fez despertar o cirurgião, que se encontrava em transe profundo, devido aos gases espalhados por todos os ambientes da clínica. Essa foi a minha sorte. Vocês não vão acreditar, mas ele segredou que em seu pensamento faria uma pequena cirurgia de fimose numa criança de dez anos. Ora vejam só. Foi aí que pensei, quero ir embora. Que implante capilar o quê. Vão se danar todos. Se quiserem um implante que façam em suas próprias cabeças. E com este pensamento sumi do lugar antes que o Corpo de Bombeiros interditasse o local, porque segundo informações, algum desavisado chamou a corporação para conter um possível vazamento de gases.


Vejam só o tipo de médico, não tem um tipo de louco? Eu é que não ia deixar este sujeito chegar perto de mim.
Mario Bourges 14:30 [+]
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Domingo, Outubro 03, 2004


Esta semana estive matutando, entre uma abaixada e outra para pegar os grampos de cabelo caídos no chão, sobre os artifícios que as mulheres costumam usar enquanto estão se aprontando para uma festa ou coisa parecida. Poderia dizer que esta atividade até faz parte da estratégia para conseguir entediar seu parceiro, inibindo-o ou esmorecendo-o sem precisar de estratégias mais sofisticadas, e o melhor de tudo, sem precisar mexer um dedo sequer. Quer dizer, até mexe, mas é para nos mostrar onde está o próximo objeto a ser usado por elas. Certamente que a indicação feita é para que nós possamos alcançar o tal objeto sem que elas cansem com movimentos desnecessários. Dessa maneira podem se concentrar em arrancar, a golpes de pinça, os pelos de suas fossas nasais. Logicamente que isso é feito sempre com muita destreza e graciosidade.

E durante uma hora aproximadamente, observei, pacientemente o que tanto era feito para deixar o rosto das mulheres uniformemente iguais, como a de qualquer outra mulher do mundo. Exagero? Claro que não, estou falando isso com o conhecimento de causa. Ainda duvida? Então deixe-me mostrar quais os itens utilizados que a Olga, em uma seção de maquiagem "básica", usa para uma simples saída ao supermercado. Bom, talvez esta produção sirva para ir ao banco, retirar a aposentadoria. Minha aposentadoria obviamente.

Após ter escolhido que roupa usar nesta ocasião, ou seja lá qual outra, vai ao banheiro para realizar os trabalhos técnicos, mas não sem antes escovar os dentes, pois se fizer isso depois de tudo pronto corre o risco de estragar todo o serviço. Assim que resolveu o problema da escovação passou, com o auxílio de chumaços de algodão o tal do demaquilante. Muito bem, para que serve isto? Começo com uma simples e ignorante pergunta. Em seguida descubro que serve para fazer a limpeza do rosto. Hum! Isso é bom; penso. Depois é a vez do tônico, muito bem. Após ter tonificado tudo entra a vez do hidratante. Sabe, hidratar é bom, qualquer coisa é bom quando está hidratado. Continuemos então com a seqüência; o próximo da lista é a emulsão. Para que serve isto, penso, logo descubro que é para ser aplicado na área dos olhos. Muito bem, agora penso novamente; em que área dos olhos, interna ou externa? Bom, deixe pra lá. Agora chegou a vez do tonalizante. Hum! Este eu sei para que serve; é para dar tom, já pensou nisso? É fantástico! Comecei a gostar desse esquema.

Toda essa observação me deu vontade de peidar, e como já estava no banheiro soltei o rojão. Nada mais justo, pensei. Simplesmente era o lugar ideal para esse tipo de coisa. Nisso a Olga resolveu dar um tempo em suas atividades, e claro, cair fora rapidinho, pois em poucos segundos criou dentro do ambiente uma densa névoa levemente aromatizada. Passados quinze minutos ela voltou para o término de sua arrumação. Por sorte ela tinha levado consigo o estojo de maquiagem. Por quê? Olha, não sei direito o que aconteceu, mas quando conseguimos voltar para o banheiro coisas estranhas aconteceram em nossa ausência, como as toalhas enrugadas de maneira nunca antes vista. Ah! O espelho também estava fora do lugar. As portas do boxe e a tampa do vaso sanitário estavam estranhamente empenadas. Não sei porquê. Mas também não fiquei preocupado com isso.

Continuando; conseguimos, quero dizer, ela conseguiu dar continuidade no trabalho. O último item foi o tonalizante não é mesmo? Oh, sim. Pois bem, depois veio a vez da base. Só queria saber uma coisa: por que emplastar tanto isto na cara? Enfim, deixe-me continuar; e com muita habilidade o corretivo entrou em ação agora. Deixe-me pensar; a finalidade do corretivo é corrigir, tudo bem, mas o quê? Será que as mulheres têm tantos problemas assim em seus rostos? Mas isso não vem ao caso agora. Vocês devem estar se perguntando, como assim o fiz, será que já terminou com essa sessão de funilaria e coisa e tal, ou ainda tem mais? Lamento informar-lhes, mas ainda tem mais.

Veja você, que depois de tudo isso surge ainda o pó-de-arroz, coisa que sempre pensei, dentro do meu limitado conhecimento sobre beleza, ser a primeira coisa a ser usada, e depois um batom para terminar, e pronto. Mas qual nada. Depois que a nuvem de pó que este produto fez baixou, e todos puderam se localizar, os intermináveis trabalhos técnicos prosseguiram. Na seqüência a sombra foi utilizada, e com seus olhos densos e cansados de tanto peso sobre as pálpebras a Olga fez uso do delineador. Ufa! Como estou cansado disso. Bom, agora era a vez do rimel, e depois a famosa ordem do batom, brilho e o lápis de contorno. Vocês pensam que já terminou? Não, ainda falta o blush e o pó iluminador. E com a cara toda iluminada ela começou a se vestir. Não comentei antes porque pensei ser inútil, mas teve também, fazendo parte do pacote de "como ficar perua", as sessões de cuidados com os cabelos e as unhas. Mas quanto a isso resolvi poupar todos desse martírio embelezante.

E após um breve espaço de tempo de aproximadamente três horas minha senhora estava na rua, com meu cartão de crédito na bolsa obviamente. Agora você pergunta se eu me incomodo. Até fico assim, incomodado, pois suas amigas são essas vizinhas da rua, uma mais fofoqueira que a outra, e adoram gastar com comprinhas inúteis. Diabos, ela devia escolher companhia melhor, como por exemplo: os netos e a sobrinha. Até aquele chato do meu cunhado resolveria, pelo menos assim saberia que os gastos seriam limitados. Pensando bem talvez não seja assim tão boa idéia, o povo daqui também adora um gasto excessivo. Ai, ai, ai, onde foi que amarrei meu cavalo? Bolas.


Aqui a Olga estava tentado amenizar os gases tóxicos que soltei pelo ambiente.
Mario Bourges 15:25 [+]
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Domingo, Setembro 26, 2004


Esta semana irei divagar sobre filosofia, contar algumas curiosidades sobre os grandes filósofos e coisa e tal. Não? Não devo fazer isso? Mas o que farei então? Ah! Já sei. Todos gostam de ver lançamentos não é mesmo? Uns gostam de ver lançamento de foguete, outros de produtos no mercado como: carros, aparelhos de televisão etc. Existem até aqueles que lançam cuspe à distância para os outros poderem ver. O que é de extremo mau gosto, mas não vem ao caso agora. Em compensação, eu fui ver o lançamento de um livro... Não pela janela como alguns pensaram, mas no mercado. Olha, ninguém falou em supermercado, mas pode ser até uma dica para o Dante (um dos autores da obra). De qualquer maneira... Como é difícil contar essas coisas pra vocês, até parece que não querem entender.

Bom, a festa começou, e todos lá no boteco (Ao Distinto Cavalheiro) do Odil estavam animados. Logicamente que também fiquei assim. Afinal de contas o objetivo era bem esse, ficar animado. Pois bem, deixe-me continuar com a história se não acabo desistindo dessa idéia. Que também não é de todo mal, pois já estou de saco cheio isso tudo. Diga-me, era de um livro que havia mencionado? Ah, sim. Sabe, ultimamente ando meio esquecido, talvez seja pela monotonia. Mas também quem se importa com isso?

Assim que cheguei no bar me deparei com um pessoal um pouco diferente, tinha lá também os já conhecidos, o que causa um grande alívio numa hora dessas, pois gosto de ver pessoas conhecidas num lugar, mesmo quando procuro me esconder para ninguém me avistar. Por que isso? Simplesmente porque odeio ser avistado enquanto bebo. Melhor dizendo; odeio ser avistado. Deixe-me retificar tudo isso que disse há pouco; odeio pessoas. Mas por que vou lá? Por causa de bebida, oras. Acontece que os outros clientes estão lá pelo mesmo motivo, mas acabamos trocando palavras por educação, ou talvez pelo pacto de mediocridade que formalizamos após a entrada no lugar. Acredito, até, na hipótese de que os outros pensem o mesmo, no mesmo nível e com as mesmas palavras. Assim, um dia, eles possam refletir nisso e parar com o papo furado. Que de tão furado não chega nem a formar papo.

Por sorte que todos fazem pose de que estão se divertindo, assim consigo me animar um pouco. Talvez seja pela boa música, ou talvez pelo bom chope, ou talvez pelo bom ambiente, ou ainda pelo pessoal que atende lá. Olha, não sei o que é, mas sei que me sinto bem lá. Precisa mais explicações? Creio que não. Por um acaso você quer saber mais sobre o livro? Vá lá e peça um para o Odil, ou para a Lúcia, ou para a filha dela, ou ainda, para o Marcelo que vai lá de vez em quando, só não me aborreça, pois posso pegar meu exemplar e tacar na tua cabeça. Agora me deixe tomar minha cerveja tranqüilamente enquanto assisto o Faustão / Gugu / Fantástico e outras bostas mais. Ah, esse dia de domingo. Um dia irão criar dois sábados ou duas segundas-feiras, só para me satisfazerem emocionalmente. Não vejo a hora em que um dia isso possa acontecer.


Mario Bourges 21:59 [+]
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Domingo, Setembro 19, 2004


Todos sabem o quanto eu detesto televisão, mas como não tinha nada melhor para se fazer resolvi ligar aquele aparelho detestável e ver se estava passando alguma coisa interessante. E enquanto utilizava o controle remoto para mudar rapidamente de canal... Aliás, fui apelidado pelo meu neto de "fast finger in the remote control", pelo uso frenético e extremamente rápido que costumo manusear este objeto. Voltando ao assunto; encontrei um programa dedicado à dança. Neste programa abordava de tudo, desde sua criação até os dias de hoje. Incluindo ainda os grandes dançarinos e suas grandes dançadas. Casos como os do Império Romano, do Napoleão e do Hitler também são mencionados. E claro, muitas outras dançadas homéricas e danças que decorreram na história, e logicamente, das músicas que também fizeram parte disso tudo.

Foi aí que pensei, é isso que estou querendo ver, pois isso faz lembrar que eu e meu amigo Pereirinha éramos realmente muito bons neste tipo de atividade. Puxa! Pensei. Como sou nostálgico. Juro que naquele momento cheguei até a deixar rolar uma lágrima, de tanta saudade que senti do tempo dos concursos de dança. Costumávamos ganhar todos os prêmios possíveis. Logicamente que combinávamos de nunca um participar na mesma categoria do outro, pois ficaria difícil para a comissão julgadora agraciar nós dois juntos com um único prêmio apenas. E também nós evitávamos fazer isso para não criar desavenças.

O tempo foi passando, e, em uma dessas competições eu e o Pereirinha conhecemos uma bela jovem no meio do salão, mas daqui à pouco volto a falar dela. Era um concurso muito importante, de nível internacional, que iria considerar apenas dois competidores como sendo os melhores do mundo na categoria "single". Pois bem, estávamos nós rodopiando para um lado e para outro como dois malucos, mas claro, esbanjando charme. Afinal de contas essa era nossa especialidade. Continuando; durante a grande noite e entre as várias músicas dançadas, e, antes mesmo do término do concurso, já havia dois vencedores. O mundo acabou descobrindo o que já sabíamos. O que descobriram? Está querendo me tirar do sério? Pô, eles descobriram que nós éramos os melhores nisso. Voltando ao assunto; realmente foi uma grande noite. E após as várias danças resolvemos, já devidamente premiados, escolher nossos pares para mais uma saraivada de músicas.

Então, conforme prometido, a moça da qual estava falando se encantou pelo meu amigo logo de cara. Até casaram. Mesmo assim não abandonaram os salões de baile. Ficaram famosos e tudo mais. Sabe, eles formavam um belo par. Mas também não durou muito a relação deles. Enquanto eu, fui freado pela dama que conhecera naquela noite. Ela delicadamente me convenceu de parar com isso, disse que não teria futuro na pista de dança. Na verdade já era sinal de ciúmes, pois uma vez me falou que deixou ser escolhida por mim porque eu estava arrasando os corações da mulherada. Enfim, nos conhecemos num baile, depois fui obrigado a procurar um emprego. Na seqüência entrei no exército onde segui carreira militar. E agora, estou aqui, aposentado, e peidando alto para quem quiser ouvir.


E nos passos do Cha Cha Cha eles começaram com um romance.
Mario Bourges 22:17 [+]
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Domingo, Setembro 12, 2004


Aproveitando o feriado de Sete de Setembro resolvemos conhecer um hotel fazenda que acabara de inaugurar. Ganhamos, eu e a Olga, três diárias, e lá podíamos usufruir de toda a infra-estrutura existente. Podendo fazer tudo, resolvi jogar golfe, mesmo sem saber jogar esse tipo de coisa. Por sorte o tal hotel era muito bem organizado, pois lá existia um programa intensivo de como jogar golfe em um dia. Claro que resolvi participar desse programa. Afinal de contas eu gostaria muito de saber jogar este jogo... Esporte... Sei lá que tipo de coisa é isso.

A primeira coisa que ganhei após ter concordado fazer parte do ensinamento foi ganhar um taco, de golfe obviamente. Na manhã seguinte, enquanto tomava meu café tranqüilamente, chegou um sujeito barbudo perto de mim, e usando um kilt todo xadrez, começou a falar sobre as aulas de golfe entre uma baforada de seu cachimbo e as alisadas em sua barba. E usando um sotaque pra lá de estranho falava sobre o monstro do lago Ness. Como se eu tivesse perguntado alguma coisa sobre isso. Aliás, falava como se eu tivesse perguntado alguma coisa para ele.

Percebendo que eu não estava nem aí para sua conversa fiada largou um manual sobre a mesa, e disse para estar no campo dentro de trinta minutos. Nem um minuto a mais, ou menos. E ainda disse que, se conseguisse aprender a jogar isso no prazo previsto eu ganharia uma ducha escocesa como recompensa. Sem saber do que se tratava concordei. Pensei ser a melhor coisa do mundo, mas não fazia a menor idéia do que seria a tal ducha. Talvez tivesse associado àquelas saunas tailandesas, sei lá. Assim mesmo concordei, e ainda disse-lhe que seria um exemplo de aluno. Claro que estava louco para ver uma escocesa me dando banho na ducha. Mas deixe-me continuar.

No manual que ele me deu dizia que seria importante a dedicação total para o aprendizado. Sendo assim, teria de praticar em todos os momentos, e em todos os lugares possíveis e impossíveis. Muito bem, pensei. Após meu tradicional café da manhã veio a tradicional vontade de cagar matutina. E lá estava eu sentado no vaso, junto com o taco de golfe e o kit de golfe portátil para banheiros. Formidável, pensei. Enquanto alivio o peso da minha barriga posso ainda praticar o tal esporte, o jogo, ou sei lá o quê.

Para terminar com a história desta semana sem cansar a beleza de ninguém vou resumir. O curso que exigia imersão total rendeu lucro, ou seja, aprendi jogar o golfe. O problema foi que me senti iludido com àquela história de tomar uma ducha escocesa. Pensei que iria tomar a tal ducha com uma escocesa, ou melhor ainda, que uma dessas moças, trajando apenas um kilt, fosse me dar banho. Mas isso foi pura ilusão. O que aconteceu foi o seguinte: me largaram pelado em pé, e de frente para um parede começaram a esguichar água através de duas potentes pistolas. Não! Não era a moça com roupas mínimas que fazia isso, era sim, o escocês barbudo, que não parava de rir um instante sequer. Enquanto eu tentava me safar daquela situação. Como? Esquivando-me da água, que vinha com toda a força do mundo. Parecia até um pelotão de fuzilamento. Mas não deu muito certo. Acabei parando no pronto-socorro depois que a água bateu em minha barriga, quero dizer, no estômago. Fui jogado contra à parede, e em seguida arrastado com a potência da maldita pistola para fora da enorme câmara de tortura aquática. Assim que melhorar das escoriações voltarei neste hotel só para dar o troco neste escocês estúpido.


Como havia dito, aqui estava eu praticando o aprendizado em um cômodo lugar.


Aqui era o setor do campo de golfe dedicado para os iniciantes deste programa de imersão total. Não parece moleza praticar isto?

Mario Bourges 21:29 [+]
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Terça-feira, Setembro 07, 2004


O dia de hoje foi muito importante para nós brasileiros. O quê? Não! Não foi por causa do sol ensurdecedor que tivemos. Foi por causa do Sete de Setembro. Como assim, e daí? Daí que é o dia da nossa independência. E isso é muito importante sim. Por essas e outras resolvi acordar bem cedo para ver o desfile lá na avenida Cândido de Abreu. Mas acordei cedo mesmo. Tanto é que eu fui o único que acordei na rua naquele horário. Que horas eram? Por volta das cinco da madrugada. Talvez um pouco mais tarde, não sei bem ao certo. Então tratei de procurar minha bandeira e a corneta para as comemorações. Devo ter me demorado um pouco nesta procura, pois quando os encontrei já passavam das dez horas.

Troquei de roupa, tomei meu café e fui voando com meu fusquinha para lembrar do meu passado militar. Logo na chegada tive problemas com estacionamentos. Realmente não sabia como fazer para deixar meu carro em segurança pela região. Após quase uma hora encontrei um lugar digno para acomodar meu automóvel. Próximo passo, encontrar um lugar para mim. De preferência sob uma bela sombra. E mais trinta minutos de apresentação eu desperdicei com o tal lugar. De repente começou o Hino Nacional, e de estanque eu parei, em posição de sentido, para cantar esta música tão maravilhosa. Enquanto eu tentava lembrar da letra surgiu, ao longe, um lugar para ficar. E era bem daquele que procurava. Não pensei duas vezes, deixei de cantar e pus-me a correr feito um louco no meio da multidão.

Posso dizer que valeu à pena. Consegui uma visão privilegiada do desfile a partir deste momento. Na verdade não consegui o lugar almejado, um outro engraçadinho chegou antes de mim. Você deve estar se perguntando por que valeu à pena; é porque fiquei à frente das arquibancadas. Sim! Fiquei praticamente junto com o pessoal que desfilava. Sei que estava um pouco complicado de ficar por ali. Tinha que desviar constantemente dos blindados, dos caminhões, das tropas, dos carros, dos aviões e até dos cachorros. Principalmente dos cachorros, pois estes bichos quiseram me atacar por umas duas ou três vezes consecutivas. Por sorte seus donos estavam lá para segurá-los, senão ficaria difícil fugir deles no meio daquela confusão toda.

Bom, para resumir um pouco, tive que voltar para casa sem cumprimentar meus colegas militares no final do desfile. Sabe, essa correria toda quase me levou ao desmaio. No começo estava preocupado em me proteger do sol, mas lá pelas tantas eu estava era ocupado em fugir de tudo que se mexia. E o pior de tudo, estava correndo no sol forte sem a devida proteção para a cabeça. Capacete? Quem falou em capacete? A proteção era para o sol mesmo. Olha, o recurso para mim foi ter que voltar para casa descansar. Uma hora depois, aproximadamente, eu encontrei meu carro. Aí então pude voltar definitivamente para casa.

Assim que cheguei os comentários maldosos começaram. Por quê? Porque as emissoras de TV estavam lá para filmar o evento, mas no final das contas, quem virou atração fui eu. Correndo de um lado para outro da avenida com uma bexiga na mão para tentar espantar os cachorros que me atacavam impiedosamente. Além de, ao mesmo tempo, tentar manter minhas calças sem cair, pois eu me esquecera do cinto naquele momento. O pessoal do jornalismo tentou traçar um perfil para minha pessoa durante os noticiários da hora do almoço. Disseram que o irlandês que correu de encontro ao maratonista brasileiro nas olimpíadas era fichinha. Nós, curitibanos, temos um maluco que corre atrás de tudo quanto é coisa que se mexa. Inclusive dos cachorros da polícia. Esses sujeitos da TV são desaforados mesmo.


Isso aqui é para confirmar que esse pessoal da TV são realmente uns chatos, pois não perdoam nem os que estão marchando sossegado.
Mario Bourges 17:13 [+]
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Sábado, Setembro 04, 2004


Estava eu, sentado aqui na minha poltrona preguiçosa pensando, preocupadamente, sobre a vida. Com uma garrafa de cerveja numa das mãos, e um pacote de salgadinho no colo olhei por todos os lados da sala onde estava. Observei tudo, pensei em ligar a televisão, mas acabei desistindo facilmente. Foi aí que me deu vontade de ver algumas fotos. Lembrar dos velhos tempos e coisa e tal. Coloquei então a garrafa com todo o cuidado ao lado da poltrona, enquanto tentava levantar do assento com a famigerada habilidade que todas as pessoas muito experientes na vida têm. Os grandes momentos começaram a acontecer com uma certa antecedência naquela tarde, pois assim que consegui ficar em pé o pacote com os salgadinhos caiu, isso fez com que espalhasse tudo pelo tapete da sala. Que maravilha! Pensei. Mas acabei ignorando a situação, e fui buscar o álbum de fotografias para me distrair. Os salgadinhos eu deixei para o gato e cachorro comerem.

Depois de quase uma hora encontrei o tal álbum. Sabe, acredito na hipótese de que todas as pessoas, assim que ultrapassam uma faixa etária, começam a ter lapsos de memória. E como esses lapsos de memória podem causar transtornos em nossas vidas. O que estou querendo dizer com isso? É o seguinte: após ter voltado do quarto com as fotos passei pela cozinha para pegar uma garrafa de cerveja. Entendeu agora o que eu quis dizer? Pois bem, dirigi-me até a sala, em direção à minha poltrona, com o álbum embaixo de um braço e a garrafa de cerveja na mão oposta ao braço com o álbum, para manter o equilíbrio sabe. Porém, antes de conseguir me sentar senti o dedão do pé esquerdo doer profundamente, e logo em seguida escutei uma coisa estourar lá na frente, mais precisamente falando, na parede da sala. Até aí estava sem saber o que acontecia, mas no decorrer da a cena, e para completá-la também, notei que, o liquido que escorria pela parede era da minha antiga garrafa de cerveja. Tudo bem, o que contei até agora não é nenhuma grande surpresa para ninguém. Mas deixe-me continuar.

Com o dedão inchado e parte da sala alagada resolvi fazer a coisa mais sensata no momento, sentar na minha itinerante poltrona. Por que chamar a poltrona de itinerante? Porque foi preciso. Tive que arrastá-la para sair de perto do lago de cerveja que se formou em uma parte do cômodo. Após eu ter criado uma mini Atlântida na sala tive que ver as fotos rapidinho, rir um pouco, e arrumar tudo antes que todos, em especial a Olga, voltassem de seus afazeres corriqueiros. O quê? Limpar a sala? Não! Coloquei o gato trancado lá com uma tigela de água. Assim poderiam pensar que o gato ficou mijando a tarde inteira pelo lugar. Depois disso joguei a garrafa de cerveja fora, bom, pelo menos o que restou dela, pois estava moída e espalhada por todos os lados. Guardei o álbum no seu devido lugar, do qual não me lembrava muito bem onde era. Depois peguei meu maravilhoso fusquinha e saí para dar umas voltas pelo bairro, ou qualquer outro lugar. Tudo para não ficar em casa. Sabe, poderia ser perigoso permanecer no local num momento tão único quanto aquele. Posso dizer que foi a melhor coisa feita, por mim, naquele dia. O máximo que aconteceu com o gato foi levar um tapa na bunda. Se fosse comigo, provavelmente iria ficar sem meus doces, salgados, e sei lá mais o que prediletos. Teria apenas os tradicionais amargos e azedos. Além de ter alguma peça do corpo levemente arroxeada. Maldade para com o gato? Creio que não. Realmente, era o melhor a se fazer naquele momento.


Vejam só que interessante; foi bem aqui que conheci a Olga. Enquanto eu me divertia com meus amigos num posto de gasolina (enchendo a cara) esta moça (Olga) apareceu com problemas em seu automóvel. Categoricamente me fingi de cego e enfiei a bomba de combustivel em seu...Costas. Isso! Foi em suas costas que bati com a bomba. Ah, que maravilha! Quase apanhei neste momento. Foi aí que nossos sentimentos afloraram, e em três dias nos casamos.
Mario Bourges 17:25 [+]
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Sexta-feira, Agosto 27, 2004


Por esses dias eu e a Olga saímos passear, atividade que não fazíamos há muito tempo. Ela deixou tudo arrumado para as crianças comerem durante o dia e fomos a uma praia qualquer. Apenas para lembrar dos momentos que tivemos juntos, enquanto solteiros. O nosso namoro permitiu um grande conhecimento mútuo, entre nós dois é claro. Então, durante a nossa viagem até o litoral ela comentou comigo um negócio bacana que aconteceu:

-- Puxa vida em Baltazar! Disse ela.
-- O que foi minha querida? Perguntei eu com toda atenção do mundo enquanto observava uma bela jovem nos passando com um carro importado último tipo, e muito bonito por sinal.
-- Passou meu aniversário e você nem me cumprimentou. Disse ela novamente toda indignada.
-- Oh! Desculpe-me, poderia repetir? Sabe, a estrada não permite desvio de atenções.
-- Tudo bem. Disse ela. -- Mas nós estamos há uns dez minutos parados no posto de gasolina não lembra?
-- Claro que lembro. Respondi. -- É que eu estava olhando aquele carro importado que passou por nós, viu como era bonito? Perguntei-lhe tentando consertar a situação.
-- Qual, aquele Chevette velho dirigido por uma moça com a cara toda besuntada de pintura e ainda usando roupas sumárias? Indagou-me ela com a voz ligeiramente alterada.
-- O quê? Era um Chevette? Com roupas sumárias? Moça besuntada? Claaaaro que não! Mas que tal se fossemos viajar, hum? Perguntei suando frio.
-- É o que estou esperando faz algum tempo. Disse-me então.

Partimos rumo ao litoral, para nos divertir um pouco. Sabe como é que é; ficar sempre em casa cansa. Um tempo depois chegamos em uma praia pequena, e como já estava perto da hora do almoço partimos em busca de um que fosse bom. Porque numa dessas viagens acabei me dando mal com uma baita diarréia, por causa de comida claro. Por sorte tudo correu conforme o planejado. Que aliás, ninguém planejou nada. E depois de uma farta refeição resolvemos nos sentar nuns bancos à beira-mar. Admirar a natureza mostrando sua força através das ondas, e quem sabe também, até conversar diante de tal beleza.

-- Olga!
-- Hum? Quer alguma coisa?
-- Bom... Quem sabe se nós, talvez, sei lá, pudéssemos... Sabe?
-- Pode ser mais claro, não consigo te entender. Disse-me ela olhando apaixonadamente... Para o mar.
-- Ah, nada não, esquece. Disse-lhe já desanimado.
Ficamos um tempo sem falar nada, apenas olhando... O mar. E por um longo momento eu lembrei de algumas coisas. E com o olhar fixado em sei lá mais onde eu comecei a pensar que teria que comprar gasolina para abastecer o fusquinha, mas não poderia ser naquele posto na beira da estrada porque o preço estava muito alto. De repente mudei a linha do pensamento: puxa, o camarão estava bom demais, só espero que aquele molho não me desarranje, pois não tem banheiro por perto. Enquanto ela pensava que já estava de saco cheio de ficar ali olhando aquele mar mais sem graça. Também, ela, ficou lembrando das crianças lá em casa deixando as luzes de todos os cômodos acesas, do cachorro cagando e mijando pela garagem, lavanderia e nos pés de alface que plantou semana passada. E o gato. Ah esse maldito, fazendo as mesmas artes que o cachorro, mas com maior intensidade, e maior abrangência em seus ataques.

Vocês devem estar se perguntando, como é que posso falar isso da Olga sem ao menos ter falado com ela sobre isso. Muito fácil. Ela exterioriza suas emoções através das mordidas nos lábios, acompanhados de apertos nas próprias mãos, ou ainda, tamborilando seus dedos na primeira superfície plana que encontrar. Tudo muito previsível. Todos esses anos juntos me forneceram informações suficientes para descobrir, ou pelo menos pensar que descobri, todos os seus segredos, defeitos e ansiedades. Enfim, essa é a vida de um casal. Duvida do que estou dizendo? Então case e confira. Depois que vivenciamos este dia insosso voltamos, finalmente para casa. Curtir aquela vidinha chata de todo santo dia.


Aqui estávamos nós agarradinhos... Ou quase. Mas isso era para não passarmos frio. Sabe, ali, diante do mar estava ventando muito neste momento.
Mario Bourges 22:13 [+]
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Domingo, Agosto 22, 2004


Depois de minhas experiências com a marcenaria e outras coisas que nem sei quais são, resolvi dar um tempo nas atividades extra residenciais, como se fizesse muita coisa, para assistir um pouco de televisão. Mas antes de me afundar na min há poltrona preferida resolvi me armar com um pacote de bolachas e um litro de leite. Claro que é muito melhor assistir alguma coisa enquanto se come do que não comer nada enquanto se assiste. Entendeu o que eu disse? Não? Burro.

Então, o que ia dizendo mesmo? Ah, sim; estava eu esparramado na poltrona e com as pernas apoiadas num negócio lá que não sabia o que era, mas tudo bem. Não me incomodando não tem problema, pensei. Após muito me enrolar liguei a dita televisão. E dotado da minha grande arma, o controle remoto, experimentei todos os canais. Quase desisti de ficar ali em frente, encarando aquele aparelho estúpido enquanto era bombardeado por imagens e diálogos fúteis quando, de repente, estava ali, Hercule Poirot. Uau! Pensei. É este que eu quero assistir. Pensei novamente. Agora peço silêncio, senão ficará difícil prestar atenção.

-- Hercule Poirot? Perguntou um senhor trajando um terno cinza claro. Aliás, sabia-se que era cinza claro porque nosso destemido investigador observou a barra italiana das calças que o sujeito usava. E era cinza. O resto da roupa foi por dedução mesmo. Logicamente que poderia ter visto naturalmente qual seria a cor do traje se não estivesse usando, por cima de tudo que poderia ser usado como roupa, um enorme e grosso sobretudo. Aquilo parecia até uma carapaça, de tão escondido que ficava o cidadão. Por sorte ele também usava chapéu, o que causou um certo alívio para quem assistia ao programa, pois desta maneira podia-se ver, ou imaginar a existência de uma cabeça no meio daquela montoeira de roupa.
-- O que lhe causou tal espanto meu bom homem? Perguntou o investigador enquanto procurava o rosto de seu interlocutor.
-- Especialmente falando? Hum... Nada. Mas o lanche que acabei de preparar não dará para dividir com o senhor.
-- E o que seria este lanche monsieur...? Fitou-o profundamente, por entre uma brecha no meio do sobretudo do homem, com uma de suas sobrancelhas erguida, tudo isso para saber o nome do homem-roupa.
-- Albert! Disse-lhe então com uma voz levemente abafada.
-- Oui, monsieur Albert. Poderia dizer que delícia seria esta? Perguntou Poirot curioso.
-- Vísceras de carneiro, e estando elas no lugar onde sempre deveriam estar, nadando num molho feito com mostarda escura, molho de tomate com pimenta, alho picado e molho inglês. Ah, para completar o prato, tem maionese... Mas daquela que usa páprica doce. Nosso herói belga, com o rosto passando do vermelho para um verde oliva apenas disse: -- Burp!!!
Um mal-estar baixou na sala onde os dois se encontravam, que ficava na Prefeitura da Capital paranaense. Mas logo melhorou tal situação assim que o assistente, Capitão Hastings, entrou também nesta mesma sala a fim de relatar o que viu durante sua caminhada até a sede do governo municipal.
-- O que encontrou de interessante Hastings? Perguntou-lhe Poirot com avidez. -- Mas, antes que me responda isso espere um pouco. Monsieur Albert diga-me uma coisa: como foi que reapareceram todos esses tratores, caminhões, kombis, carrinhos-de-mão e esses instrumentos para esburacar os asfaltos da cidade, já tão prejudicados? Perguntou ao senhor Albert com avidez também. Porém, antes mesmo dessa pergunta ser respondida começou a esguichar, pelas barras italianas das calças cinza claro, um líquido vermelho-amarelado para todos os lados. E após uns minutos tudo sumiu, quero dizer, o que sustentava aquele monte de roupa.
-- O que aconteceu Poirot? Perguntou Hastings.
-- Não sei explicar ainda, mas desconfio que isso era um engodo para nos distrair de alguma coisa importante que está para acontecer. Respondeu enquanto observava centímetro por centímetro do cômodo. Enquanto isso surgia nos céus da cidade um dirigível com a foto do antigo ex-prefeito com um baita sorriso estampado nas lonas da aeronave e uma gravação ensurdecedora dizendo: "vote nimim". O investigador olhou para os lados à procura de alguma pista, a fim de descobrir o que acontecia, mas nada que surgia ligava aos fatos. Para quebrar um pouco a concentração o programa entrou em intervalo.


Hercule Poirot fazendo-se de sério enquanto tentava lembrar se tinha ou não deixado alguma torneira de sua casa aberta.

Intervalo

Eu aproveitei o momento para atacar a geladeira, o forno, à procura de restos do almoço, e os armários. Tudo isso para encontrar coisas diferentes para mastigar enquanto me distraia em frente ao aparelho de tv. E claro, largar aquele leite sem graça para pegar minha garrafa de cerveja preta, que estava por mais de uma semana na geladeira, apenas me aguardando. Com o estoque reformulado estava pronto para terminar de assistir o que eu havia me decidido assistir. O programa voltou dos comerciais, e eu, estava novamente equipado com minha cerveja, um pacote de batata fritas. Para completar tinha uma barra de chocolate e um pedaço de bolo do aniversário de uma das vizinhas mais fofoqueiras da história da rua, da qual a Olga foi convidada a comparecer. Claro que ela acabou trazendo um generoso pedaço dessa iguaria para mim. Mas vamos ser francos, o bolo não estava lá muito bom. Porém, como estava de graça eu relevei tal falta.

Voltemos então ao programa, ver o desfecho dessa história tão estranha. Aliás, me parece que este episódio termina de uma maneira diferente. Como assim? Alguém, não me lembro quem, contou que Poirot desiste de investigar o caso, não pela dificuldade, mas pela mediocridade dos personagens escolhidos para contracenar com ele. Segundo uma entrevista concedida a uma emissora local, David Suchet (Hercule Poirot) disse que o pessoal que faz política não segue uma regra, ou seja, não lêem os scripts, nem decoram as falas, mas improvisam fantasticamente, mesmo quando deixam de falar coisas importantes para citar frivolidades.

Mas continuando com a cena... Poirot após ter visto o dirigível pensou um pouco e concluiu. Bingo! Então disse enquanto sorria com a boca mole: -- Hastings, pegue meu casaco s´il vous plait.
-- Por um acaso está embriagado Poirot? Você já está de casaco.
-- Oh, sim. Não havia percebido isto. Pardon. Disse enquanto se detinha com a imagem do dirigível. ¿ Gosta de comida alemã meu caro Hastings? Perguntou isso sem tirar a aeronave de seu raio de visão.
-- O que foi que descobriu? Perguntou seu ajudante.
-- Por que pergunta isso Hastings?
-- Porque você odeia comida alemã.
-- Oh sim, tem razão. Na verdade existe algo de estranho neste aparelho voador, pois ele está sobrevoando o Schwarzwald há mais de quinze minutos. E de vez em quando é jogado ao chão alguma coisa que não sei o que é.
-- No chão do Schwarzwald?
-- Não! No chão em frente aquela cabeça de cavalo que vomita água. Disse isso enquanto alisava seu bigode.
De repente surgiu na sala onde estavam um sujeito usando uma máscara preta e armado com uma pistola de água dizendo: -- Não se movam, vocês estão sob minha mira. Se tentarem alguma coisa eu estrago o terno do sujeito que usa o bigode estranho. Assustados ficaram imóveis, pelo menos até que Hastings, capitão experiente da polícia britânica, arremessou um grampeador na direção do meliante. O tal sujeito nem precisou se mexer, o grampeador não passou nem perto de onde estava. E numa gargalhada histérica acabou esbarrando na maçaneta de uma das portas desta sala. E como num passe de mágica o lustre caiu sobre o indivíduo, imobilizando-o imediatamente. Porém, mais uma coisa estranha aconteceu; antes mesmo que ele pudesse dizer um "A" sequer, começou a esguichar um líquido vermelho-amarelado das barras italianas de suas calças cinza claro.
-- Incrível! Disse Hastings estupefato.
-- Isto é uma tática para nos deixar atordoados. Enquanto isso o ex-vice prefeito faz sua campanha livremente, com o aterrorizante dirigível sobre a capital dos curitibocas observando com desdém as bocas escancaradas de seu eleitorado babando pelas calçadas de tão feliz que estão. Disse Poirot durante uma grande coçada no ouvido esquerdo.
Mas sem uma explicação plausível, a tal aeronave perdeu o controle, a altitude e a compostura também. E em poucos segundos se engatou numa das inúmeras torres de telefonia celular de nossa cidade, o que causou uma catástrofe para ambos (candidato e empresa). Porém, os jornalistas correram imediatamente para o local. E no melhor estilo Nem Que Morra registraram a campanha já falida do ex-futuro prefeito sumir diante de nossos olhos.

E assim terminou este episódio. Uma frustração total, pois ninguém descobriu nada. Entretanto, Poirot e Hastings receberam seus cachês numa boa. Puta merda! Pensei. Comi todos meus negócios e ainda fiquei sem saber quem fez o quê. Porra! Gritei enquanto pensava. No que eu pensava? Em nada. Vivenciava um vácuo após o término do programa. Mas procurei não me preocupar com isso. Dei uma mordida em um pedaço de pão com patê de fígado e saí para o quintal, olhar a grama crescer, ou algo assim. Para completar meu dia meti um chute na bunda, com todo o carinho, do nosso maravilhoso vira-lata. Ah! Como gosto disso.


Esse foi o mal resultado das peripécias mal calculadas do piloto mal instruído do futuro prefeito mal resolvido.
Mario Bourges 00:46 [+]
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Sábado, Agosto 14, 2004


Estava eu sozinho mais uma vez em casa. O pessoal, mesmo sabendo que posso aprontar das minhas, ainda insiste em me largar pela casa. Bom, azar o deles. Desta vez, ao som de Silvio Caldas executava um dos meus passatempos mais agradáveis, no passado, pois atualmente nem fazia mais dessa atividade porque tinha esquecido que era capaz de fazer. O que é? Ah, sim. É a marcenaria. A vizinhança desta vez não reclamou, pelo menos da música. Agora por parte do que estava fazendo alguém, mais tarde apenas, foi fofocar para a Olga sobre a barulheira que produzi durante todo o dia. Sempre fazem dessas. Ninguém diz as coisas para mim diretamente.

No meio daquela ratoeira gigante que fica ao lado da lavanderia, do qual chamam de quarto de bugigangas, eu comecei com a diversão, mesmo com aquele vento gelado que fazia os pêlos do nariz, do ouvido e do... Das costas encaracolarem. Mas veja bem, era a minha diversão. Então a princípio pensei em criar um móvel novo para a sala de estar, mas não sabia o que fazer, pois ando fraco de idéias. Então resolvi reformar alguma coisa que viesse, por acaso, precisar deste serviço. Pois bem, lá estava eu de joelhos no gramado, me equilibrando para não cair naquele mundo de cocô, obra que o nosso vira-lata é campeão em produzir. Além de ficar babando e lambendo as pernas e os pés da gente, como todo cachorro bobão.

Encontrei um monte de tábuas velhas espalhadas pelo porão da casa, e ainda uns brinquedos e mais umas coisas que poderiam servir como desculpa para reformar. Quanto aos brinquedos eu realmente não soube o que fazer. Então dei um jeito neles. O que eu fiz? Meti o pé e terminei de quebrá-los. Não vi que utilidade este tipo de coisa poderia oferecer. Então comecei a martelar, serrar, roer, blasfemar e a praguejar durante o dia todo, que não terminava nunca por sinal. Claro, muitos vizinhos passaram em frente de casa falando alto sobre a barulheira feita, mas fiz de conta que não era comigo. Mesmo porque essa gentalha toda nem conhece minha mãe para falarem o que falaram.

As horas passaram de uma maneira alucinante, e o sol já estava só num amarelo avermelhado cegante quando terminei minha obra. Você quer saber qual foi o resultado? Três dedos martelados, inchados e sangrando. Minhas calças, na região do joelho com marcas de bosta de cachorro, além de mijadas obviamente. Minhas mijadas estou falando. Mas podia ter as do cachorro também. Agora você pergunta: por que obviamente? Com o frio que fazia nem senti quando me urinei. Ah, você quer saber qual foi o resultado do meu serviço? Tudo bem. Bom, não fiz lá muita coisa. E a pouca coisa que fiz não foi lá muito boa também. Resumindo; foi um fracasso total. E ainda por cima a casinha do vira-lata quase veio abaixo quando escapou o martelo das minhas mãos. Menos mal, porque este objeto poderia ter alçado vôo e ter alcançado a vidraça da cozinha. Aí sim os problemas iam surgir de verdade. Mas tudo bem. Não sei trocar vidros. Portanto, o azar seria o deles.

O resultado disso não poderia ser mais previsível. Daquele monte de tábuas que encontrei, mais os cacos de todos aqueles brinquedos velhos (mais aqueles que deixei velhos, ou invalidados) consegui, na maior dificuldade, fazer uma coisa totalmente inusitada. Você me pergunta se é útil; depende do ponto de vista. Eu pelo menos encontrei uma utilidade, a de fazer pequenas compras no mercadinho do bairro sem precisar cansar com caminhadas. Porém, tive que abandonar essa idéia porque a vizinhança, para variar, começou a falar de mim. Disse que eu não precisaria entrar em banheiros públicos para aliviar-me em caso de necessidade. Era só fazer ali mesmo, em cima da minha invenção. Então decidi por fazer uma fogueira com o monte de entulho que produzi. Isso mesmo, com a ajuda de um pequeno machado acabei destruindo meu invento. Só para não ficarem falando de mim, exageradamente. Sabe, além do normal.



Neste dia, nem minhas habilidades como marceneiro, nem minha criatividade estavam em alta. Mas tudo bem

Mario Bourges 16:45 [+]
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Sábado, Agosto 07, 2004


Por esses dias fui convidado por uns parentes que moram no interior, passear por lá, ou coisa parecida. Sabe como é ficar uns dias sem fazer nada em terra estranha? Foi isto que me aconteceu. Na verdade, a única diferença nesta história toda foi o lugar apenas, porque a falta de atividade pra mim já faz parte da minha atividade. Pois bem, assim que cheguei na casa dessas pessoas, que fica na tal cidade que nem me lembro do nome, fui recebido com a euforia tradicional que toda a minha família tem ao chegar visitas. Apenas um deles levantou a bunda do sofá para me cumprimentar, o resto continuou fazendo suas tão manjadas atividades, ou seja, nada. Mas pra mim isso não faz a menor diferença também, provavelmente eu teria feito o mesmo que eles.

O tempo foi passando e poucas pessoas se manifestaram em favor de um bom papo-furado, apenas eu e um sujeito que estava lá. Não, não era parente. Aliás, nem sei quem era. E também nem estava tão bom esse papo-furado, pois ele só servia para responder às minhas perguntas, e ainda assim as tais perguntas só surgiam de tempos em tempos. Resumindo um pouco esta parte, estava uma bosta. Lá pelas tantas alguém surgiu com a idéia de fazer café, e isso me alegrou muito porque a fome já estava me incomodando. O tal sujeito daquela quase conversa que tive não foi convidado para se sentar à mesa, confesso que estranhei essa atitude, então perguntei o porquê. Um parente meu, que não sei o nome, disse-me cochichando que ninguém conhece o camarada, nem nunca viram o cidadão por lá. Chegaram a pensar que estivesse me acompanhando na viagem. Estranho isso não? Pois é. Mas deu no que deu. Todos da casa, inclusive eu, botamos o sujeito pra fora à ponta pés. E após este pequeno contra-tempo fomos fazer o tal lanche da tarde.

Comemos bastante, e por incrível que pareça, começamos a conversar. Passou a ficar divertida minha viagem. Alguém, não sei quem, surgiu com a idéia de fazer uma visita ao primo Emental. Sei que ele tem nome de queijo, e de certa maneira foi proposital. Seus pais quando provaram esta iguaria gostaram bastante. E para não esquecerem do nome deste queijo resolveram chamar seu primeiro filho assim. Bom, saímos bem cedo de casa, pois o primo mora num sítio, e um tanto longe dali. Pois bem, tivemos uma grande surpresa assim que chegamos lá. Justamente naquele dia estava acontecendo uma feira diferente, para não dizer estranha. Lá haviam pessoas vendendo e comprando, obviamente, quinquilharias variadas. Tanto o aspecto da feira quanto a sua organização era simplesmente uma bagunça. E o povo que lá passeava não ficava para trás, ou seja, combinava com a tal feira.

Andamos por todos os lugares a fim de encontrar com o primo sorrindo, na melhor das hipóteses, por aí. Mostrando seus dentes podres a outras pessoas como se fosse um circo de horrores. Bom, se bem que faz algum tempo que não o vejo. Então, é possível encontrá-lo agora sem seus dentes, pensei. De repente um tumulto em torno do lago. Quero dizer, de uma grande poça de lama. A bizarrice alcançava seu ápice naquele evento. Encontramos o primo Emental fazendo parte da comissão julgadora dos saltos ornamentais no lamaçal. Como assim? Veja; o candidato a saltar, ou o maluco a se jogar, melhor dizendo, deve fazer umas piruetas, o máximo que conseguir, até tocar no alvo (lama). Quem conseguir o melhor salto, se é que existe melhor para isso, vence a competição. E o primo estava ali justamente para anunciar os pontos alcançados pelo competidor, e também para a entrega do prêmio.

Como o dia estava agitado para ele resolvemos nem incomodá-lo. Assim poderia desenvolver sua atividade tranqüilamente, sem bater em ninguém, o que é de seu costume. Realmente foi uma pena não ter conseguido falar com o Emental, pois ele e sua família costumam fazer uma ótima cachaça. E o melhor de tudo, sempre nos oferece algumas de suas especialidades. Enfim, não tem problema. Outra vez farei uma visita a ele. Digo isso porque sei que a família é importante, nem que seja em volta de uma fogueira comendo bom churrasco. Se preferir também, pode ser tomando uma boa cachaça, ou as duas coisas juntas. O importante é a união. Bom, após toda essa viagem eu decidi voltar para meu lar. Sabe, olhar aquelas caras amarradas do pessoal lá de casa é tão... Tão... Sabe o quê? Esqueça aquele negócio que disse sobre a família.



Aqui está o primo Emental com seus lancinantes olhos cor de safira levemente desbotados, e ainda irradiando loucura.
Mario Bourges 17:21 [+]
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Sábado, Julho 31, 2004


O amor é uma coisa estranha. Não sei explicar o que é, nem porque acontece. Acredito mais na hipótese do cheiro, isto é, na afinidade aromática encontrada na pessoa com a qual decidimos ficar para o resto de nossas vidas. O que estou querendo dizer é o seguinte: enquanto eu me embriagava compulsivamente lá no Distinto eu pensava na revanche, quero dizer, na pendenga que tinha para resolver com a Olga. Ah, não me venha com cretinices agora, nem com bricadeirinhas sem graça. Realmente estava me sentindo mal quanto àquelas duas tentativas frustradas. Com assim do quê? Você não sabe que tentativas são essas? Ora, cale a boca e escute! Não consigo lembrar de detalhes quando ficam perguntando sem parar.

Estava eu com três copos de chope, e meia garrafa de cachaça na cabeça. Além dos pensamentos absurdos me bombardeando a cada gole, ou a cada baforada, tanto minha quanto dos outros, de charuto. Pois bem, cansado eu estava há muito tempo, pois tinha andado pelo centro da cidade a tarde inteira. Então resolvi me agarrar no balcão para conseguir sair da maldita cadeira, que por teimosia não me largava de jeito nenhum. Então tive que mostrar à cadeira que eu era o maioral. O que fiz? Virei-me para trás e mordi o encosto. Quase quebrei meus dentes, mas foi o único pensamento que me ocorreu naquele momento. Pelo menos foi eficaz, pois ela (cadeira) me largou na hora.

Após muito custo consegui ficar em pé, ou quase. Pedi para usar o telefone... Queria avisar a Olga para me esperar usando uma daquelas roupas bacanas que ela tem. Pelo jeito não consegui convencê-la disto, ou qualquer outra coisa sequer, pois ela desligou o telefone na minha cara após ter ouvido eu declamar um poema criado por mim mesmo enquanto bebia. Maldita, pensei nisso enquanto cuspia o gole de chope roubado de um sujeito na janela de um carro estacionado. Foi sorte, minha, eu ser conhecido do pessoal. O carro em que cuspi era de um cliente também, mas era a primeira vez dele no bar. Acalmado todos os ânimos, eu disse todos, fui até o Odil e paguei minha conta. Penso nisso piamente. E pus-me a caminhar até a Rui Barbosa pegar meu ônibus, mas antes tive que desviar, ou pelo menos tentar, da floreira exposta em frente ao boteco. Posso adiantar uma coisa; não consegui me desviar a tempo, logicamente tombei com tudo na calçada. Claro, depois de todo este vexame fui obrigado a sair de lá o quanto antes.

Bom, agora tinha um grande problema para meus parentes. Acredito que para mim também. Talvez tenha sobrado até para o Odil. Sabe, eu consegui chegar à praça Rui Barbosa, mas peguei um ônibus errado. Nessa história o que dá para se esperar? Uma grande bosta. Onde fui parar nem Deus sabe. Vá lá, Ele deve saber, mas não vai contar pra ninguém. Porque na minha opinião, e acredito que seja a opinião Dele também, todos têm que saber se virar sozinhos, sem ter que pedir a Deus para limpar suas bundas assim que terminam de defecar. Dias mais tarde eu me achei andando seminu perto da cidade de Contenda, no meio de uma plantação de batatas. Tudo bem; pensei. Gosto de batatas.

Consegui voltar para minha casa um ou dois dias mais tarde. E após ter chegado em casa tinha até umas comemorações na rua, por parte dos vizinhos, em prol do meu desaparecimento. Que desaforados! Pensei, e pensei mais ainda; até fazer todos aqueles parasitas se entocarem em suas casas devido o grande fedor que eu acabei por produzir. Quanto ao meu desejo de resolver minha dívida com a Olga, ficou apenas na vontade, pois demorei uns dias, e vou demorar ainda mais, para conseguir me recuperar por completo da grande aventura que vivi. Ah, essas bebedeiras. Por sorte, ainda consegui trazer umas batatas para o pessoal de casa comer. Sabe, eles também gostam de batatas.


Como eu disse: o amor é algo estranho, pois, mesmo querendo bater de tanta raiva ainda sente vontade de beijar e abraçar. Hum... Talvez nem tanto assim. Porém, aqui a senhora do velho Baltazar está apreensiva com o sumiço do marido.


A prova da sua preocupação está aqui. Usando o telefone vermelho (usado somente em emergências) ela chamou uma equipe especial de resgate e primeiros socorros. Com treinamento na AMAN, e fazendo estágios na AFA, RAF, CIA e KGB esta equipe só é chamada em casos especiais. O maior exemplo disso está aqui: o resgate do Comendador Baltazar.
Mario Bourges 17:31 [+]
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Sexta-feira, Julho 23, 2004


Detenho-me por um instante, e após uns minutos ouvindo outros motoristas a me xingar e a buzinar resolvo enfiar meu adorável fusquinha naquele imenso buraco que cruza a rua de um lado a outro. Certamente que a confusão estava criada, pois ao contrário dos outros motoristas eu desci do carro para ver o estrago feito nos pneus do meu carro. Imagine só, aqueles pneus com faixas brancas nas laterais, coisa fina, e coisa cara também. Alguns outros motoristas resolveram descer de seus veículos, mas não foi em solidariedade a mim que fizeram isso, e sim para me xingar, só porque eu estava atrapalhando levemente a passagem de praticamente todos os carros que ali transitavam. Lembro até de um sujeito que saiu de um automóvel portando um pequeno, e quase insignificante cano de ferro. Eu não costumo perder as pelejas que entro, e essa não foi diferente, caí fora sem saber o que tal sujeito queria fazer com aquele artefato de metal. Claro, não sou burro.

Durante a fuga desordenada pelas ruas resolvi olhar para meu cunhado (homem culto, criado em colégios ingleses, e filho de ingleses. Porém, mora há muito tempo aqui, e resolveu casar-se com minha irmã. Resumindo um pouco; um tremendo chato) que estava sentado ao meu lado, e imediatamente fez uma censura ao meu estupendo ato de bravura com um gritante levantar de uma sobrancelha só. Imediatamente, também, fiz menção de meter-lhe um murro naquela face pomposa. Só não o fiz porque quase enfiei o carro numa caçamba de entulhos que estava colocada de maneira proposital em cima de uma calçada. E que até este momento o meu fusca já andava pelas ruas de marcha-ré. Logicamente que tínhamos percebido este pequeno erro de direção, mas só depois de termos estacionados, ainda que acidentalmente, ao lado da dita caçamba. E logo depois desta manobra fantástica meu cunhado quis fazer outra de suas reprimendas, mas desistiu com um sorriso de deboche depois de ter visto meus dois punhos cerrados e apontados em sua direção.

Querem saber quem é o grande responsável por toda essa confusão? Não, não é meu cunhado. Na verdade o prefeito, como da vez passada, resolveu transformar a cidade num imenso canteiro de obras. Mas isso já é óbvio, pois as eleições estão se aproximando, e como ele quer colocar um substituto de seu partido no poder, não poupará esforços. Mesmo assim não o culpo, sei que ele não é o único que faz disso. Agora, quero ver quem é que irá me ajudar a sair com meu fusca da calçada. Quem falou, ligando o carro e engrenando a marcha? Seria perfeito se o motor ainda estivesse em seu devido lugar. Querem saber o que aconteceu? Quando fui averiguar porque o carro não funcionava ao acionar a ignição percebi, sem muita dificuldade, que o motor do automóvel tinha se soltado e simplesmente sumido. Provavelmente foi em virtude dos buracos e valetas espalhados pelas ruas e avenidas da cidade.

Meu cunhado desceu do veículo muito calmamente, e com seu peculiar senso de humor disse: "tenho a impressão que este motor foi levado pelo caminhão de lixo". E como eu estava cheio de paciência naquele momento não fiz nada que cansasse minha beleza, apenas peguei seu cachimbo, prestes a ser aceso, e introduzi na sua boca delicadamente. Logicamente que assim o fiz de maneira polida, para enaltecer ainda mais a classe que ele tem. Quinze minutos mais tarde chegamos ao pronto-socorro às pressas para a retirada deste pequeno objeto de prazer, que, aliás, nem estava tão prazeroso assim. Só porque o tal objeto estava entalado em sua garganta. Todavia, acredito que agora meu querido cunhado aprenda a usar umas palavras mais adequadas para a ocasião que estiver presenciando futuramente. Mas é isso; está dado o recado. Que recado? Ora, não me aborreça.


Neste momento o velho Baltazar estava ensandecido, correndo pelas ruas da cidade com seu fusca. Ah! Quanto aos dizeres no espelho retrovisor... É melhor nem comentar.


Mario Bourges 23:41 [+]
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Sábado, Julho 17, 2004


Nesta semana estava decidido em não fazer nada. Mais que o normal, ou menos que o habitual. Mas para não ficar em casa apenas olhando as paredes, ou observar o pessoal resmungando pelos cantos da casa sobre minha presença resolvi pegar uns filmes para assistir. Munido de uma porção de filmes, todos agitados, ou quase isso, eu estava pronto para a distração. Logicamente que tal evento requer bebidas e refeições adequadas. Para começar bem um momento desses e preciso cerveja. Um bom copo desta bebida faz surgir um belo sorriso em nossas faces não é mesmo? Claro que para isso acontecer é preciso uma cerveja de verdade, e não essas misturadas com arroz ou outras porcarias que vendem por aí. Aliás, tem algumas dessas bem conhecidas em nosso mercado que realmente eram boas, mas modificaram suas fórmulas para se tornarem competitivas. E quem é que se ferra nessa história? Nós, pobres ignorantes pobres.

Bom, chega de papo furado, deixe-me continuar com mais uma inutilidade pública. O primeiro filme que pus no aparelho foi: "O Holandês Voador". Gostei do filme, mesmo não entendendo nada. Mas teve uma coisa que deixou-me um tanto quanto desconfiado; tinha tanta bosta de porco nas imagens que comecei a sentir o maldito aroma na sala onde eu estava. Agora não sei explicar a origem deste cheiro. Poderia ser psicológico, pois tinha muito deste material na filmagem. Mas também poderia ser o efeito dos amendoins, pipocas, batatas-doces e pinhões (tudo isso sobrou da época da festa junina que pensamos fazer aqui em casa e não deu certo) que eu devorava enquanto assistia a fita. Mas esqueçamos isso sim? Ótimo.

Para não perder tempo, assim que terminei de rebobinar a fita coloquei a próxima no aparelho para assistir. "E o Vento Levou". Tirei na hora. É a décima vez que pego este filme, e durante as outras nove execuções eu acabei dormindo. Cheguei a roncar na nona vez. Por que peguei? Porque sempre me esqueço disso. O próximo filme era japonês, me parece que o título era "As Chaminés Fantasmas", ou algo parecido. Era uma filmagem expressionista em preto e branco bem interessante. Porém, o que me ajudou a torná-lo assim foi sem dúvida a minha companheira cerveja. Na seqüência pus mais uma ou duas fitas e já fiquei de saco cheio de tudo isso. Então fui até a cozinha e pegar uma fatia de pão com manteiga, mas logo desisti da idéia também, pois o pão encontrava-se levemente azulado. Ai, ai. Voltei para a sala desliguei tudo e fui para meu quarto relaxar desse estresse tecnológico.

Do alto da minha janela pude ver minha vizinha, aquela peituda gostosa, rebolando mais uma vez pelo quintal de sua casa. Sempre com roupas provocantes a moça conversava com um rapaz. Até aí tudo bem, mas, já disse a vocês que acredito na hipótese de que minha vizinha seja maluca? Pois então, e esse pensamento também se estende ao seu namorado. Há algo muito estranho naqueles dois, e isso se torna engraçado e ao mesmo preocupante. Mas tudo bem, não vindo me incomodar aqui em casa tudo bem. Agora, voltando aos filmes; nem quero falar deles agora. Cansei de todos eles. E assim que conseguir ânimo para caminhar irei devolvê-los à locadora, mesmo aqueles que não assisti. Já estou farto deste passa-tempo, quero dormir. Sabem, vou seguir o conselho do Criador; vou viver a vida sem me preocupar com nada, nem com os malucos dos vizinhos.


Após ver uma cena dessas, você não iria pensar a mesma coisa sobre a vizinha e seu namorado? Depois disso o casal saiu passear. Logicamente que foram com esse mesmo "carro".
Mario Bourges 21:01 [+]
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Quinta-feira, Julho 08, 2004


Nesta semana estive eu pensando sobre a extinção da raça humana neste planeta, devido os maus tratos para com a natureza e coisa e tal. Isso é uma coisa nada agradável de se pensar, sei disso, mas há um certo momento em nossa vida que isso se faz necessário. Bom, pelo menos é isso que penso. E durante minhas conjecturas comecei a ouvir, não sabia dizer de onde vinha, a música Dreamer daquele grupo inglês Supertramp tocando baixinho. Como se fosse música ambiente de consultório odontológico. Coisa estranha essa, não tem ninguém em casa além de mim, então, de onde vem esta música? Pensei.

-- Hei Baltazar! Disse uma voz grave vinda não sei de onde. Será que é algum vizinho querendo me incomodar logo pela manhã? Pensei enquanto coçava minha virilha.
-- Ô Baltazar, sou Eu. Disse a voz. Será que voltei para aquele sonho maluco que tive esta noite e não estou sabendo? Continuei pensando.
-- Pare de pensar Baltazar, pois já está fedendo aqui em cima. Disse mais uma vez a tal voz.
-- Quem é que quer falar comigo? Gritei para fora da janela enquanto ajeitava minha cueca.
-- Pô cara, se liga! Aqui quem fala é Deus.
-- Deus? Não acredito nesta hipótese. O ser supremo não estaria falando dessa maneira comigo.
-- Você esta duvidando do quê? Perguntou novamente a voz.
-- Do palavreado, parece um hippie, ou coisa parecida. Respondi indignado.
-- Ô meu, enquanto vocês homens tentam falar a língua dos anjos Eu falo a língua dos homens sacou? Ou você esperava que Eu falasse de maneira rebuscada e proclamando às pessoas como se fosse um trovão, só para dizer que existo por aí. Ah, largue mão. Mas também não vá esperando escutar da minha parte os "a nível de", ou o "tipo assim" tão comuns entre os intelectuais de plantão nas portas de ministérios, ou entrada de museus de arte moderna. Bom, mas o babado é o seguinte... Mas antes me responda uma coisa: você prefere Bee Gees ou Abba?
-- Como é que é? Perguntei um pouco confuso.
-- Você prefere a música dos Bee Gees ou do Abba? Insistiu na pergunta.
-- Ah, sei lá. Na verdade não gosto de nenhum deles. Disse-lhe sem saber se era isso mesmo que eu queria dizer.
-- Tudo bem, vamos ouvir então o malucão do Tom Waits para dar um clima. Ótimo, comece a contar suas preocupações e suas angústias. Mesmo que Eu já saiba quais são gosto de ouvir as pessoas se lamuriando como crianças choronas. Dá vontade de rir. Mas antes espere até Eu tirar meus tênis, assim posso ficar mais confortável.
-- Bem, eu, sabe, tem muitas coisas que gostaria de contar; poder desabafar, entende? Enquanto isso a música era trocada. Aquele cara (Tom Waits) com voz rouca estava incomodando. Até mais do que eu mesmo. Então começou a tocar uma música chamada Noite de Natal, do Joelho de Porco, e que me deixou ainda mais confuso sobre tudo.
-- Bom Baltazar, é o seguinte: deixe-me dizer umas coisas, porque se depender de você não vai sair assunto nenhum. Falou-me Deus.
-- Você, como tantas outras pessoas do mundo pensa em ser feliz um dia e coisa e tal, muito bem, porém não faz nada para alcançar essa felicidade, como todas as outras pessoas do mundo. Procuram apenas em se incomodar com a vida do vizinho que mora ao lado, ou do vizinho do vizinho que nem te conhece. Mas quanto a isso já estou acostumado, pois vindo do ser humano isso não é nenhuma novidade, porque são todos assim, ou pelo menos 99% da humanidade. Tá ligado no que estou querendo dizer? Então tenho um conselho para te dar, mas antes quero te revelar uma coisa: Eu não acredito em conselhos, mas como todos vocês crêem nisso nem me incomodo em dá-los. Enfim... Olha meu velho; se você quer ser feliz, seja. Não meça esforços. Quer dinheiro? Conquiste! Mas não venha pedir em Meu nome porque não irá vingar. Mesmo porque ninguém sabe Meu nome, e se te contar qual é ninguém vai acreditar. Então vão te internar num asilo de loucos por isso. Mas também se fizerem isto contigo não venha me culpar, pois Eu não tenho nada haver com essa história, morou? Agora vá viver uma vida de verdade, e não essa vidinha que costuma viver. Ah, e tem outra coisa; não me venha com pensamentos mesquinhos, como é o costume de todo o ser humano, assim poderei tomar minha cerveja tranqüilamente. Mais uma coisinha: avise o povo para não destruir o mundo, como há muito tempo vem acontecendo. Tem neguinho aí que pensa encontrar um planeta legal no universo para se viver, mas deixo um aviso: não sejam bobos, vocês são frutos de bactérias desenvolvidas para viver neste planeta. E se a tapera de vocês cair, já era, bicho. É isso aí meu chapa, já está na minha hora. Vou nessa; bye.

E ao som da música, O Calhambeque, de Roberto Carlos, Deus se foi. Logo após este incidente fiquei remoendo meus pensamentos sobre o que me aconteceu. Confesso que nada entendi, mas também nada fiz para entender o acontecido. Talvez estivesse entorpecido pelo aroma que o Divino deixou em meu quarto. Nisso a Olga chegou em casa com suas tradicionais sacolas de compras, todas sendo despejadas nos seus devidos lugares, e em seguida subiu até o quarto para ver se havia alguma novidade. Ela tenta me enganar com perguntas do tipo: "alguém ligou?", ou "a vizinha já trouxe as minhas agulhas de crochê que emprestei na semana passada?", mas na verdade ela (Olga) faz isso para ver se não destruí nada durante sua ausência. Então veio a pergunta:
-- Por um acaso você acendeu um incenso?
-- Claro que não. Você sabe que não faço isso. Disse-lhe com a voz sonolenta.
-- Não me diga que fumou aqui dentro do quarto.
-- Não! Claro que não. Na verdade eu nem deveria dizer nada, pois você mesma disse para não dizer, mas como dizem que quem cala consente preferi falar algo.
-- Então quer dizer que ficou peidando a tarde inteira neste quarto enquanto estive fora é? Trate de abrir a janela para arejar, e venha para a cozinha que já vou fazer o café.
Pensei em contar o que aconteceu comigo, mas ela não iria acreditar, e também seria a primeira a chamar a ambulância para me pegar. Então resolvi ficar quieto. Creio que tenha sido a melhor opção para mim. Até a semana que vem.


Mario Bourges 22:34 [+]
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Sexta-feira, Julho 02, 2004


Aproveitando as comemorações de São João, São Pedro e São Paulo, fui convidado a participar de uma Festa Junina, dentre as milhares que aconteciam pela cidade. Sabe, é bom saber que as pessoas têm interesse em manter esta tradição. O resultado disso está nas escolas, igrejas, farmácias, açougues, mercados, armazéns de secos e molhados, onde as pessoas comem os secos e bebem os molhados, logicamente. Mas é possível, constatar depois de algumas horas de festa nestes recintos uma parte das pessoas cometendo barbaridades, como por exemplo: comer os molhados e tomar os secos. Bom, neste momento festivo as casas de bingo também entram na folia. Porém, ao invés de pularem fogueiras, como todo mundo costuma fazer, os proprietários dessas casas pulam liminares, ou coisas assim, e o termo pular pode tranqüilamente ser substituído por burlar. Enfim, deixe-me continuar com o relato, porque senão fico me desviando muito do assunto que resolvi tratar.

A festa, na qual fui convidado a comparecer, era na casa de uns conhecidos meus. Mesmo com os imprevistos que surgem em todas as festas, sinto-me satisfeito em narrar o acontecido (uma verdadeira raridade). Chegamos então na tal casa (eu e os familiares desses conhecidos apenas, pois a Olga encontrava-se com pequenos problemas de ordem intestinal) doidos para começar com os trabalhos técnicos, ou seja, comer e beber a valer. E enquanto eu devorava meu primeiro cachorro quente pude perceber que estava encostado na fogueira da festa, mas isso foi por acaso, pois até então pensava que estava encostado em um andaime feito de madeira. A partir deste momento comecei a me preocupar sobre aquele negócio de seguir à risca todos os costumes da festa de São João. Imaginem só quando tivesse que saltar este monstro aceso. Conseguiram imaginar? Eu não fui capaz de pensar sobre o caso. Mas tudo bem.

Lá pelas tantas, enquanto todos comiam os quitutes como se fossem máquinas moendo grãos, ou qualquer coisa assim, o dono da casa resolveu acender a dita fogueira. Toda esquematizada com um sistema elétrico... Talvez fosse com dínamo, sei lá. Só sei de uma coisa; todos que estavam num raio de cinco metros em torno daquele empilhamento de madeiras ficaram com os cílios, sobrancelhas, bigodes e cabelos sapecados. Aquilo ardia de uma maneira que parecia que todos estavam no inferno. As cadeiras de plástico já não eram mais tão seguras como antes, e a bancada com os doces parecia um tablado de circo com os pés-de-moleque saltando de um lado para outro, e os grãos da canjica se misturando no quentão como se estivessem numa apresentação de nado sincronizado. Mas falando em circo; o que era aquela passeata gay no centro da cidade esses últimos dias, parecia até o circo dos horrores. Oh! Desculpem-me, não queria mencionar este fato bizarro agora. É que este fato me chamou atenção num aspecto, os integrantes desse grupo de excluídos, acostumados com o preconceito que sentem na sociedade, resolveram excluir alguns integrantes do próprio grupo sob a alegação que tais integrantes estão infectando e alterando a ideologia do grupo. Ora! Mas o que é isso? Oh! Mais uma vez peço desculpas pelo desvio de assunto. Agora diga-me uma coisa; e esse nosso inverno, o que está acontecendo com o tempo? Hum, hum, desculpa. Não farei mais disso.

O que eu estava falando mesmo? Ah, sim. Após todos ficarem com seus cabelos chamuscados pelas imensas labaredas saídas da fogueira, que ocasionou também o derretimento da calha do vizinho, e o enrugamento simultâneo das cinco mil bandeirolas espalhadas pelo quintal, tudo voltou como estava antes; animado. Então, não satisfeito com emoção da fogueira, o dono da casa resolveu soltar uns rojões. Mas daqueles que estouram, não pensem outra coisa, por favor. A primeira caixa de fogos foi muita bonita, muitas cores e pouco barulho, o que é agradável para mim. Já a segunda caixa... Também foi muito bonita, mas surgiram uns estrondos que deixaram meus ouvidos frouxos, além do famoso momento de bobeira que desceu em mim. O que aconteceu? Aconteceu que eu estava, como todos os outros da casa, observando ao espetáculo de luz quando um infeliz ameaçou correr, simulando uma fuga de um possível rojão rebelde. Então, eu, que não bobo, pelo menos não era até àquela hora, resolvi correr também para evitar que a bomba estourasse em cima de mim.

O grande problema disso consistia na proximidade de um cesto de lixo, desses que ficam nas calçadas. O resultado dessa aventura? Calma. Só quero dizer que acabei me amontoando no próprio cesto. Claro que caí dentro dele. Se fiquei machucado? Ainda hoje encontrei uma marca roxa em um dos ombros. Qual deles? Mas pra quê tanta pergunta besta? Por que não perguntam sobre a fogueira? Isso foi o melhor de tudo. Bom, não sei se foi tão melhor assim. Mas quanto à fogueira é o seguinte: como já havia comentado anteriormente, ela era muito grande, tinha aproximadamente quatro metros de altura, e mesmo preocupado com o tamanho daquilo eu estava decidido a saltá-la. Nem que fosse no dia seguinte. E foi bem isso que aconteceu. Já passava das cinco horas da manhã quando resolvi saltar, nisso, quando olhei atrás de mim fiquei impressionado com a determinação das pessoas da festa em me ver saltando. Colocaram até um trampolim para me ajudar no salto. De fato ajudou, mas eu saltei tão alto, pelo fato de todos pularem juntos na outra extremidade da porcaria do trampolim, que acabei parando no telhado da casa do vizinho... Do outro lado da rua. A correria foi total, todos me resgatando antes que vizinho acordasse para ver o que tinha acontecido. Foi divertido, apesar de ficar todo enfaixado por uma semana. Mas sabem de uma coisa? Já estou cansado de escrever. Então poderemos nos encontrar na próxima semana para uma nova aventura. Não é uma boa idéia? Então está combinado. Até lá.

Mario Bourges 22:38 [+]
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Quinta-feira, Junho 24, 2004


Nos dias desta semana que passou meu humor não estava muito bom. Acordava todos os dias mal humorado e ainda com dor nos ouvidos. Talvez fosse pelo volume do rádio, sempre ouvindo as músicas e aos programas, algumas vezes incompreensíveis, com toda a potência do aparelho, ou seja, de maneira totalmente insana. Provavelmente seja este o motivo para que eu tenha devolvido meu companheiro dessas últimas noites ao Adalberto. Ou talvez o motivo seja a quantidade enorme de reclamações recebidas. Bom, de qualquer forma alguma coisa aconteceu.

Então decidi esquecer um pouco meu cotidiano, resolvi ligar a televisão para ver se encontrava algum programa menos estúpido para assistir. Largado em minha poltrona preferida e com o controle remoto na mão procurei, incansavelmente, um canal que estivesse passando algo bacana para se apreciar. E quando estava quase desligando a tv por falta de opção encontrei, para meu alívio emocional, a distração que tanto procurei neste meio de comunicação. Não, não era futebol, nem Fórmula 1, muito menos telejornal, pois sabemos que ambos são manipulados e completamente sem graça.

Pois bem, infelizmente o programa estava quase terminando, mas já serviu para me deixar animado. Agora eu peço licença para transcrever os últimos momentos deste episódio. Ah, um detalhe; todos os diálogos terão travessões para ajudar na leitura.
-- Monsieur Charston, este é o Capitão Hastings, meu ajudante, e eu sou Hercule Poirot. Estamos aqui para solucionar o caso do desaparecimento do prefeito de Curitiba, seu vice, e os vereadores.
Boa Poirot! Não dá mole para essa gente! Bradei neste momento enquanto tentava tirar a casquinha da pipoca de meus dentes.
-- Oh, oh, oh meu caro detetive. Isto é impossível de acontecer! Disse Charston. Sei que é conhecido por desvendar os casos considerados impossíveis, mas nesse caso é impossível!
-- Monsieur Charston, o senhor está duvidando de minha capacidade? Pois fique sabendo que hoje mesmo descobri, para um futuro próximo, um aumento abusivo na tarifa de ônibus da cidade, e que o Vice-prefeito surgirá do nada para dizer que tudo isso não acontecerá, porque se trata de boato. Assim que Poirot disse isto todos ficaram estarrecidos com a notícia, inclusive eu, que não parava de tossir por ter engasgado com essas malditas pipocas.
-- Hercule Poirot?! Gritou uma jovem senhora após ter entrado na sala onde todos estavam reunidos para chegar a um acordo sobre o desaparecimento do prefeito e sua trupe.
-- Oui Madame Dubrè! Mas por que do susto? Indagou Poirot.
-- A senhora sabe de algo que nós ainda não sabemos? Pressionou-a somente com uma simples pergunta. Ela afirmou, sem titubear, movimentando a cabeça positivamente, mas disse que só iria contar o que sabia se lhes oferecessem os bombons que estavam sobre a mesa. Poirot, Hastings e Charston relutaram em concordar, mas acabaram cedendo à proposta. De repente todos ouviram um forte barulho, e imediatamente se atiraram ao chão (quase todos) temendo tiros. Mas não era isso, era o Capitão Hastings que fez espatifar no chão o pote com os bombons. Só para não ter de dividir suas guloseimas com Madame Dubrè. Ranhetices à parte ouviu-se outro barulho. Desta vez foi um estampido vindo de fora do palácio. Olharam-se todos para ver se tinham sofrido algum ferimento. E infelizmente a elegante Madame Dubrè fora morta com um tiro. Peritos analisaram o ferimento e a arma, que tinha sido encontrada no gramado do jardim, e chegaram a uma conclusão: "O que matou esta jovem senhora foi um tiro de garrucha". Muito bem; pensaram todos.
-- E agora, como iremos descobrir quem foi que a matou, e como descobriremos onde o prefeito e seu time foram parar? Perguntou Charston eufórico.
-- Tenha calma Monsieur, em breve descobriremos. Aguarde a época da campanha para os cargos de prefeito e vereadores, pois em pouco tempo as respostas para todas essas perguntas surgirão como fumaça. Respondeu Poirot tranqüilamente. Nossa! Pensei. Este sujeito é bom mesmo. Continuei pensando, mas deixe-me continuar com a solução do problema.
-- Veja Poirot, o carpete está manchado com café. Disse Hastings empolgado.
-- Sim, mas, e daí? Perguntou Poirot querendo mais informações para concluir suas teorias a respeito do caso.
-- Daí que o café não tem nada haver com esta história toda, mas me chamou a atenção porque o café derramado é desprovido de cafeína. Disse o capitão com ar de sabedoria barata. Então nosso detetive ergueu uma de suas sobrancelhas e disse:
-- Ces´t magnifique Hastings, pena que não poderemos usar isso para desvendar nenhum mistério. O Capitão Hastings desanimado com o pouco caso feito à sua teoria resolveu ligar um rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves que estava sobre a mesa de uma das salas do palácio. Vendo que o Capitão dançava de maneira estranha sob o som desconcertante e ridículo daquilo que costumam rotular de música Poirot perguntou:
-- Que porcaria é essa que estamos ouvindo meu caro Hastings?
-- Regae. Gostou?
-- Lamento te decepcionar, mas, odiei. Desligue isso já! Tudo bem assim para você? Ótimo.
Nesse meio tempo os dias, no programa, foram passando. E a previsão de Poirot sobre a volta dos políticos começou a acontecer. Em uma bela manhã de garoa e com aquele vento cortante vindo da serra do mar, paisagem tipicamente curitibana, podia se ver ao longe um bloco de pessoas trajando terno preto, com camisa branca e gravata cor de abóbora, segurando faixas escrito: Estamos de volta, e vocês terão que nos engolir.
-- Monsieur Charston, como eu havia dito anteriormente ao senhor, eles iriam aparecer, cedo ou tarde. Mas se aparecessem tarde não conseguiriam fazer suas devidas campanhas para as próximas eleições. E agora tome nota; em pouquíssimo tempo começarão a fazer obras e mais obras. Só para dizer que estão pensando no bem-estar das pessoas.
-- Devo admitir que estava errado ao seu respeito. Duvidei de sua capacidade. Por esse motivo deverei me retirar do país, mas antes preciso limpar os cofres da prefeitura. Assim não sobrará nada para o próximo que entrar.
-- Mas o senhor não é o prefeito! Falou o detetive indignado.
-- Eu sei disso, e todos da cidade também, mas isso é irrelevante neste momento. E num passe de mágica sumiu diante dos olhos de Poirot e do Capitão Hastings. Então Hastings perguntou:
-- Como foi que ele fez isso?
-- Ele usou de técnica ninja.
-- Mas o que é um ninja? Perguntou Hastings ainda.
-- Eram vigaristas japoneses que trajavam preto com camisa branca e gravata cor de abóbora. Mas isso era na época do Japão feudal.
E assim terminou mais um episódio de Hercule Poirot.

Puxa que bacana; pensei. Tenho que saber o horário de transmissão deste seriado, é muito bom. Complementei meu pensamento. E depois de juntar as pipocas que pularam para fora da minha boca resolvi pegar meu fusquinha e dar umas voltas pelo bairro. Quinze minutos mais tarde tive que ligar para casa, pedir a meu neto para que viesse me encontrar, só não soube dizer onde porque eu estava perdido no meio de uma favela. Mas é isso. Até a próxima semana.



Aqui está o famoso detetive belga Hercule Poirot e seu fiel companheiro Capitão Hastings à procura de pistas pela cidade de Curitiba.


Tentando descobrir novas pistas Poirot observa os quero-queros se preparando para um ataque aéreo, do qual ele seria a vítima dessas aves imbecis que ficam no Jardim Botânico.
Mario Bourges 23:11 [+]
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Sexta-feira, Junho 18, 2004


Devido a minha condição de não ter o que fazer, e também não ter o que comer em casa, depois da semana passada, resolvi levar um rádio para casa. Não que ainda não tivesse um, mas este era especial. Era um rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e ondas almost waves. O único inconveniente nessa história consiste no fato do aparelho pertencer ao chato do Adalberto. Por sorte eu tomei emprestado por poucos dias. Isso quer dizer que ele não precisará vir aqui em casa cobrar a devolução.

Cheguei em minha adorável morada todo animado para ouvir às notícias e músicas do mundo inteiro, e talvez algumas coisas vindas de Marte, aquele planeta vizinho considerado por nós como o Paraguai do nosso sistema solar. Mas deixe-me continuar. Como não sou bobo fui me trancar no meu quarto equipado com rádio, bolachas, amendoins torrados e chocolates, de múltiplas formas, e tamanhos, e claro, para completar tudo isso; cerveja. Perfeito! Pensei. Falta apenas sintonizar as emissoras e relaxar. Curtir o momento. Tudo que eu sempre quis, mas só para esta semana, pois não agüento mais que isso.

Logo que começou a funcionar o rádio senti uma enorme dificuldade em entender o idioma das pessoas durante as transmissões. Porcaria! Por que não fiz aquelas malditas aulas de inglês, alemão, grego, russo, mandarim, gaélico e latim no tempo que o quartel resolveu bancar. Mas tudo bem, ignoro o que estão falando e tudo vai ficar bem. Pensei nisso na hora, mas descobri que não seria assim tão simples nos momentos seguintes. Música que é bom vinha lá de vez em quando, tinha mais um povo que não parava de falar, isso sim. Assim mesmo fui ouvindo, só para ver onde isso ia parar.

A Olga não gostou do que viu após ter entrado no quarto. Eu fazendo sujeira na cama com farelos de bolacha e casca de amendoim, uma molhadela de cerveja pelo chão e a barulheira daquele rádio infeliz. Receita infalível para conseguir uma boa bronca. Detalhe; fui obrigado a sair da cama imediatamente, ou melhor, do quarto, e ainda por cima limpar a sujeira que fiz. Tentei argumentar sobre a sujeira, mas foi em vão tal tentativa. Tive que deixar o cômodo limpo, sem aquela porcariada toda, incluindo a mim. Não sei porque ela criou esta implicância comigo nesta semana. Não me lembro de ter feito algo à ela que fosse ruim. Bom, talvez fosse pelo fato de não ter feito. É, pode ser.

Fui à cozinha com toda a minha parafernália tentar um certo comodismo, mas como o som do rádio ecoava pela casa toda não consegui privacidade. Todos vieram através de gestos exigir que eu baixasse o volume, pois eu não conseguia ouvir outros sons que não fossem aqueles saídos do aparelho. Logicamente conseguiram me convencer de ouvir tais programas incompreensíveis em outro lugar. Na lavanderia. Mas não demorou muito para todos aqui de casa e da vizinhança ordenar o término imediato da algazarra. O pessoal aqui de casa disse que já tinha passado, por duas vezes, o carro da polícia para ver onde é que estava o motivo das inúmeras reclamações. Puxa vida! Logo agora que tinha encontrado uma rádio em que o locutor falava português, mesmo assim a emissora era britânica.

Enfim, logicamente tive que parar com o barulho. Resolvi então diminuir com o volume do rádio. Aquilo parecia ser injusto, pois logo naquele momento estava passando um especial com um grupo musical chamado... Como é que era o nome do conjunto mesmo? Parece que era De Bondes... Não, não era isso. Ah, lembrei. Era The Pogues. A voz do sujeito que cantava era bizarra, mal entendia o que ele cantava. Aliás, não entendia o idioma que ele cantava. Melhor dizendo; não entendia idioma nenhum daquelas estações todas que estava ouvindo, mas posso dizer que a música do grupo era bem agradável. Parecia até aquelas festas regadas com chope. Resumindo o assunto, gostei muito disso. Vou pedir ao Adalberto para deixar o rádio por mais alguns dias. Assim não precisarei sair de casa para me divertir.

Mario Bourges 21:13 [+]
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Sábado, Junho 12, 2004


Nesta semana passou tudo tão rápido que nem lembro direito o que fiz. Grande novidade! Bom, também fiquei concentrado apenas no sábado, o Dia dos Namorados. Queria o quê? Continuando; além do mais, acredito que sábado seja um ótimo dia para surpresas. Pelo menos é o que penso, e tendo isso como base resolvi colocar algumas idéias em prática. Que tipo de idéias? Não me venha com perguntas desse tipo agora, posso não saber responder, pois ainda não sei que tipo de idéias brilhou em minha mente. Não consegui tempo suficiente para analisar o quê surgiu, se é que surgiu alguma coisa. E enquanto eu roia as unhas da mão direita a mão esquerda batucava no braço do sofá. Tudo isso para lembrar o que eu havia imaginado dar no sábado em matéria de presente, e que por pouco também acabo não lembrando para quem era.

A barulheira que eu estava fazendo naquele momento atraiu a atenção da Olga. Ela, sempre disposta a me dar uma bronca veio logo perguntando: "você está louco, quer que eu chame uma ambulância?". Nesta hora a lucidez bateu em mim. Foi aí que descobri o real motivo do meu nervosismo. A Olga! Deixe-me explicar; ela não é motivo para nervosismos, e sim, quando lembro daquele fiasco do dia "D" que não aconteceu com ela fico nervoso. Explicado agora? Não? Então azar, o teu é claro.

Decidido a reparar esta falta pisquei um dos olhos marotamente para ela. Após este movimento pude acreditar na hipótese de que ela não entendeu o sinal feito. Imediatamente veio e perguntou carinhosamente e educadamente, conforme aprendeu comigo ao longo desses anos todos: "quer que eu pingue o colírio? Ah, já sei, entrou um mosquito no olho. Quer marcar um oculista? Responda logo, esse jogo de adivinhação me incomoda tanto quanto você". Emocionado, e ao mesmo tempo assustado com essas perguntas respondi pianinho; dizendo que esta piscadela seria um sinal de romantismo para uma futura noite de amor. "Tudo bem"; disse-me então. Mas se reclamou daquela nossa última aventura, pois não tinha acontecido o tão esperado momento de amor. Disse-me ainda que tinha sido propagando enganosa. Concordei com seu ponto de vista, mas avisei-a sobre o sábado (dia dos namorados) dizendo que desta vez seria diferente.

Depois de tudo avisado e concordado era momento para me preparar. Sabe como é; promessa é dívida. Então sai para procurar algo que gostaria de dar à ela neste dia. Eu apenas não sabia o quê era e nem para quê servia, mas tudo bem. Sai à procura assim mesmo. Após ter saído pensei na hipótese das flores. Perfeito! Pensei. E de imediato pensei também em arranjar um plano infalível para que nada falhasse na hora "H". Amendoins? Não, muito perigoso. Uma bebida para descontrair. Isso! Grande idéia; pensei novamente. E como estava tudo planejado tratei de me descontrair desde já. Quarta-feira, ótimo dia para começar com os serviços de descontração. Fui até o Odil tomar uns chopes... E porque não umas cachacinhas também, hum? Ora; eu mereço! Preciso dizer que tais preparativos para o grande momento duraram dois dias? Ai que dor de cabeça!

Vamos lá. Sábado de manhã, mesmo com toda a preguiça do mundo, acordei cedo e fui ao Mercado Municipal comprar algumas flores. Sabe; eu ainda estava um pouco verde devido às chuvas caídas nos dias anteriores, e ainda para completar um pouco tonto devido o porre tomado nos mesmos dias de chuva. Agora vocês devem estar se perguntando: "será que demora tanto assim para sarar de um porre? E por que verde?", vocês pensam assim porque não têm a minha idade. Não que eu seja velho. Não! Longe disso; é que eu sou mais experiente, cultivo melhor e por mais tempo o efeito que a bebida causa. Agora, quanto ao verde eu ainda não descobri, mas deixe-me resumir um pouco. Comprei um monte de flores e fui-me embora. Estava louco de vontade de sentar e descansar daquela agitação toda. Nossa! Como canso fácil de pessoas. Nisso, enquanto eu saia do temível lugar um engraxate perguntou se eu queria engraxar os sapatos, e eu, deixando aflorar todo meu bom humor disse: "se você encostar suas mãos nos meus sapatos eu te quebro a cara!", aí então pude me retirar de lá.

Assim que cheguei em casa tratei de dar logo o arranjo comprado há pouco. Não é sinal de ansiedade, mas sim, para não esquecer mesmo. Mas sabem, tive de esperar, minha senhora estava trancada no banheiro se aprontando para depois me derrubar na cama e... Perguntei então: "vai demorar muito aí? Estou quase me urinando". E estava realmente. Ah, essas mulheres quando se trancam nos banheiros para se produzirem demoram horas na seção de latoaria, e no final... Bom, deixa pra lá.

De repente ela abriu a porta, e eu, levemente excitado corri em sua direção, mas desviei dela no exato momento da aproximação, pois a intenção era outra, urinar é claro. Depois é que fui prestar melhor a atenção na minha senhora, e posso dizer que... Puxa vida, que tetéia! Imediatamente peguei-a pelas mãos e fomos para o quarto agarradinhos enquanto deslizava minhas mãos naquelas roupas de cetim que ela tem. Sempre provocantes. E entre beijos, arranhões, agarrões, beliscões, mordidas e apertões saiu misteriosamente do meu umbigo uma enorme barata. Daquelas que voam ainda por cima. Logicamente que tudo parou depois do grito de espanto que ela deu, e o reflexo deste espanto veio como raio, um chinelo fez com que a barata se esfarelasse em cima do meu travesseiro, e o outro ardeu na minha cara. Gozado isso não? Pois é. E depois de mais um grande fiasco, ficarei sem meus deliciosos doces e dos salgados por uma semana. Pelo menos aqui em casa. Segundo o que ela me disse; ficarei apenas com os azedos e amargos que surgirem. Gozado isso não? Pois é.



Não sei se vou comentar algo sobre este episódio. Mas cá para nós, ela não é uma tetéia? Mas é minha. Quanto as flores que havia comprado, nem sei onde foram parar.
Mario Bourges 19:20 [+]
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Sábado, Junho 05, 2004


Algumas vezes ficamos feito bobos diante do aparelho de televisão, assistindo aos programas que as emissoras apresentam aos telespectadores, de uma maneira geral, como se fossem zumbis. Pois bem, o que eu quero dizer é o seguinte: para variar esta situação resolvi apenas mudar o canal. Como já somos considerados zumbis pelos programadores e produtores dessas emissoras decidi assumir esta condição. Mudei do canal de pesca, que ensina ao pescador como pegar tubarões pelos olhos, para o canal de corrida de carros. Nada muito diferente para se acompanhar, apenas carros passando pelas câmeras em alta velocidade. Uma coisa sem graça, mas induz a pessoa que está sentada em frente ao aparelho de tv para dormir mais rápido.

Pois bem, estava para acontecer uma corrida de Fórmula Candy, e era na pista mais famosa desta modalidade de corridas, em Draculea Racer, na Romênia. Conhecida por ter a maior ocorrência de acidentes estranhos durante a noite que precede a competição. Mas, continuemos com aventura então. O único representante brasileiro nesta corrida, quero dizer, neste tipo de corrida, é o Magro Edson. Conhecido por conseguir, raramente, chegar ao final das competições. Porém nesta pista ele teria grandes chances de concluir o trajeto, pelo menos.

"Foi dada a largada, e o Magro Edson saltou do último lugar para décimo oitavo. Vale ressaltar que nesta etapa temos apenas dezenove competidores". Este sujeito é ruim mesmo; pensei comigo mesmo. Decidi que seria melhor abrir uma lata de cerveja para acompanhar as transmissões. Fui até a despensa e peguei umas latinhas. Já estavam com o prazo de validade vencido, mas nem liguei pra isso. O importante foi beber pelo menos umas três ou quatro para relaxar a tensão, e o resto do dia foi apenas uma conseqüência. Incluindo assistir a corrida de carros.

Enquanto via aqueles automóveis passando em alta velocidade por dentro dos quitais das casas da região eu pensava na hipótese de algum deles errar o caminho e sair da pista. Mas isso era apenas um pensamento absurdo, pois eles (os pilotos) eram bastante experientes naquilo que faziam. A corrida estava ficando excitante a cada volta completada. O Magro Edson, por incrível que parecia, despontava na dianteira. E faltando apenas quatro voltas para o término da competição ele estava bem, e mantendo um ritmo forte começou a distanciar dos outros pilotos. Neste momento até parei de tomar a quinta lata de cerveja de tão emocionado que estava ficando.

De repente, sem explicação nenhuma, faltando apenas trezentos metros para terminar a corrida, de um total de cento e quinze voltas, o piloto brasileiro Magro Edson derrapou seu veículo e sumiu atrás de um barranco e não mais voltou a ser visto. Pelo menos até todos os outros pilotos cruzarem a linha de chegada. A equipe de resgate foi acudi-lo em poucos segundos, mas não tinha mais recurso, porque a corrida já estava terminada. Neste momento levantei da poltrona num susto, pronto para enfiar o pé na televisão, de tanta raiva que estava passando. Mas a cerveja não permitia um perfeito equilíbrio. Com isso quis dizer que, fui obrigado a me sentar novamente.

Sinceramente falando, não conseguia me conformar com a ruindade deste nosso representante. Por que não despencou do barranco logo no início da corrida? Assim não perderia meu tempo à toa. Pensei aos berros enquanto tentava abrir a sétima lata de cerveja e caminhar até o banheiro no mesmo instante. Devo admitir que tive uma enorme dificuldade para executar essas duas tarefas no mesmo tempo, pois mal conseguia ficar em pé sem a ajuda das paredes, cadeiras e sei lá mais o quê espalhado pelo caminho que poderia me auxiliar neste momento. Com um tempo a mais que o habitual acabei chegando no banheiro. Mas tive a nítida impressão que não tinha mais nada para fazer dentro do sanitário. Veja bem, a lata da cerveja eu deixei cair, não sei onde. Quanto a vontade de urinar também já tinha passado. Mágica? Não! Acabei por aliviar a pressão da bexiga no corredor da casa mesmo. Não foi porquice da minha parte. O problema consistia na canelada que havia dado num negócio no meio do caminho, que até agora não consegui identificar o que era o objeto. Que porcaria.



Este é o carro do piloto Magro Edson, foi encontrado desta maneira entre as casas da região, e ainda funcionando. Agora o piloto ninguém encontrou... Perto do carro. Viram o sujeito correndo feito louco à pé pelas ruas. Mas não foi possível confirmar esta informação, pois os moradores daquela região adora pregar peças em turistas.
Mario Bourges 20:22 [+]
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Sábado, Maio 29, 2004
Espaço reservado para o amigo Pereirinha.



Estou com meu "eu" em polvorosa. O motivo é, aparentemente, o mais óbvio possível. Trata-se do nascimento do meu filho. Ah, crianças! Por mim povoaria o mundo com esses pequenos exemplares de inocência. Sabemos, pois, que ao se tornarem adultos, essa inocência é automaticamente revertida em ignorância. Na verdade sabemos que esses dois termos têm o mesmo significado, mas usamos essa diferença para não ofender as crianças. Melhor dizendo; para não traumatizá-las.

Sinto-me extasiado, tamanha admiração (para não dizer, bobeira) que estou sentindo neste momento. Já falei sobre povoar o mundo? Oh, sim. Devo me policiar para não tornar o assunto repetitivo. Mas eu cheguei a comentar sobre a beleza da mãe que pariu esta criança? Ah! Que beleza! É certo que a conheci em um lugar...Suspeito, digamos assim. Pouca luz, bebida à vontade, música com batidas fortes e altamente alucinantes. Resumindo; o lugar tinha a situação perfeita para se cometer besteiras, digo, aventurar-se amorosamente. Acredito que o resumo fica melhor com esses termos. Por um acaso devo mencionar sobre o dia seguinte? Oh, sim. Ah! Fantástico! Mas quê diabos estou falando? Eu ainda estava sob efeito do álcool, mal conseguia identificar a fulana que acordou ao meu lado no sofá da sala de uma casa que nunca tinha entrado. Mas tudo bem. Ela até me parecia ser bonita, ou quase.

Enfim, após o nascimento do meu filho a sujeita sumiu de lá de casa, onde ela tinha ido passar uns tempos. E ainda levou minha carteira, meu talão de cheques e algumas peças de roupa minha consigo. Que romântico. Não é fantástico? Oh, sim. A minha sorte foi ter o Baltazar como amigo, pois ele me ajudou bastante. Só não me lembro direito como foi que recebi sua ajuda. Mas tudo bem. Agora devo me despedir, não quero abusar da boa vontade dele, que cedeu tão gentilmente seu espaço para que eu pudesse expressar meu momento de felicidade. Muito obrigado meu amigo Baltazar. Agora, quanto aquele vaso que meu filho quebrou ontem, eu darei um jeito de pagar outro, ou mesmo consertá-lo assim que eu tiver tempo.



Esta é a primeira fotografia do guri quando nasceu. Estava ainda na maternidade.

Mario Bourges 17:01 [+]
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Sábado, Maio 22, 2004


Nesta semana resolvi passear todos os dias de carro, só para compensar o fiasco com minha senhora na semana anterior. Bom, pelo menos era essa a minha intenção. Ver como estava a cidade, e coisas desse gênero. Sem pressa e sem rumo quis sair pelas ruas. Apenas por sair. Mas como havia dito há pouco, era essa a minha intenção, pois logo no segundo dia de passeio meu fusquinha quebrou o eixo da frente, devido a enorme variedade de buracos existentes nas ruas e avenidas da cidade. Oras! Pensei indignado. O prefeito vai ouvir umas boas. E foi o que fiz.

Todos os funcionários do gabinete do prefeito estavam em polvorosa após meus insistentes telefonemas. O governante, propriamente dito, resolveu "viajar". Alguns de seus assessores disseram que ele tinha até morrido num jantar engasgado com o guardanapo. Acreditei na hipótese de que isso não fosse verdade. Mas deixe-me continuar. Então tive a pachorra de escrever uma carta endereçada ao nosso prefeito. Logicamente que esta carta continha algumas verdades, e ele precisava saber disso.

Pois bem, nesta carta dizia que as ruas da cidade estão parecendo um campo minado após a detonação dos ditos artefatos. Que os curitibanos estão virando tatu, pois volta e meia acabam entrando em algum buraco com seus carros, que por sinal estes estão virando carroças, de tanto que trepidam e batem enquanto circulam pelas vias de trânsito. Além das várias maneiras descobertas (por esse órgão) para se multar motoristas pouco informados, mas isso é assunto para um outro momento. Sabem, antigamente a cidade era conhecida como Cidade Sorriso, depois como Capital Ecológica, em seguida como Capital Social, e aí veio o título de Capital Cultural. Sabemos todos que isso tudo é papo-furado dessa gente, pois nada disso é verdade. Você deve estar se perguntando por quê falo dessa maneira não é mesmo? Tentarei explicar; Cidade Sorriso: Alguém já viu um curitibano rir à toa, ou não estar ironizando através do riso? Acredito que não. E ainda bem que não, pois gosto disto. Capital Ecológica: Veja; seguindo os moldes dessa ecologia adotada ainda não sei o que é ecologia. Capital Social: Ah! Ah! Ah! Eu rio disso. Capital Cultural: Eu também rio disso. Agora a cidade ganhou um novo título, talvez esse seja o mais adequado para a ocasião. Curitiba, de agora em diante será conhecida como Capital Sandy e Júnior, porque é tudo plástica e nada funciona. E se funciona, não é como deveria ser, e nem para quem deveria ser.

Fiquei sabendo, através de seus assessores, que o prefeito quase teve um colapso após ler esta carta. Não sei porquê. Não lhe disse nada mais que a verdade. Ah! Talvez tenha sido pelo fato de eu enviar cópias desta carta para alguns jornais do Brasil e alguns outros países da América Latina. Isso fez com que nosso próprio dirigente ligasse lá para casa, a fim de falar comigo, tratar de negócios e coisa e tal. Tudo bem; pensei. E após falar com ele durante uma hora e meia chegamos a um acordo. Se cancelasse todo esse mal-entendido eu ganharia um cargo na prefeitura criado especialmente para mim. Ótimo! Pensei. Duas vezes ótimo; pensei novamente. Mas cancelei este acordo assim que vi a sala onde eu iria ficar. É um desaforado! Pensei por mais uma vez. Este cara pensa que sou o quê? Peço neste momento para que ninguém responda por ele. Obrigado! Continuando; fiquei incomunicável por alguns dias. Não quis saber de ninguém falando comigo. E depois que melhorei dessa crise fui pagar o conserto do meu carro, e em seguida continuar com essa idéia de propagar minha revolta, através da carta, contra essa contra-cultura gerada por essas pessoas que mandam na cidade, e conseqüentemente iludem o povo com esses pensamentos ufanistas de cidade exemplar. Na verdade ela é boa, mas sem essa gentalha no comando.



Responda-me, você aceitaria um cargo onde seu gabinete tivesse este tipo de assento? Acredito que não.
Mario Bourges 20:55 [+]
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Sábado, Maio 15, 2004


Nesta semana, mais precisamente na quinta-feira, enquanto fazia minha faxina de umbigo mensal, a Olga começou com um papo diferente pra cima de mim. Na verdade é um tipo de papo que já conheço, mas pelo longo tempo que não tocamos nesse assunto eu estranhei. Estávamos sozinhos em casa. Nem empregada, nem netos, sobrinha, genro; ninguém pra incomodar. Nem o cachorro nem o gato estavam lá. Apenas nós dois. O dia estava alegre, para mim é claro, mesmo depois de tanta chuva que caiu semana passada, o dia ainda estava um pouco quente. Eu sentia o calor queimando o resto de minha decência. Afinal, estava adequado para... Ótimo.

Com uma conversa um pouco mais intimista começamos a nos olhar e combinamos algo para mais tarde, pois naquele momento ela tinha que sair, ir ao mercado comprar umas coisinhas boas e diferentes para nós comermos. Foi aí que pensei numa coisa fundamental... Amendoim! Preciso disso urgentemente! Revirei a casa de cabeça para baixo para encontrar esse quitute de banguelas. Mas não sou um banguela. O quê? Eu disse energético? Não? Tudo bem. Por sorte encontrei o pacote do meu desejo, mas tive que descansar um pouco, essa procura me deixou exausto. Devo admitir que não sou mais o mesmo.

A partir daquele momento adotei uma nova tática para melhorar o ânimo. Usando palavras positivas do tipo: "É hoje Baltazar, é hoje que vai ter festa", eu, sentado em frente à tv, comia os amendoins vorazmente, de maneira quase animalesca. Não podia perder tempo. Nisso minha senhora chegou com uns pacotes de mercado, incluindo, amendoins. Disse-lhe que já havia comido esse tipo de coisa, havia encontrado na despensa. Imediatamente levei uma bronca porque isso estava com a data de validade vencida com mais de dois anos. Inclusive o pacote, por estar com o produto embolorado, estava separado para ser jogado fora, disse-me ela. Quero dizer, bradou ela. Então, o quê fazer? Pensei. Devo comer mais amendoim.

Com isso o dia foi passando, e eu estava ficando, digamos, animadinho, e porque não dizer; serelepe? Pois então. Depois de um "vá tomar banho" eu fui tomar banho, ficar cheiroso e tudo mais. Afinal de contas isso estava parecendo um grande acontecimento em nossas vidas. Quarenta minutos depois de ter entrado no banho eu já podia sair deste outro grande acontecimento; o banho em si. Assim que saí do banheiro me deparei com a minha senhora toda arrumada (claro que ela já tinha se banhado) com uma roupa provocante, toda cheirosa e rebolando na minha frente. Haja coração, pensei. E amendoim também, complementei o pensamento.

Após uma seção de rebolados e esfregações de mão por todos os lados a "coisa" começou a esquentar. Não demorou muito para a barriga, também, começar a avisar que tinha um "ser" estranho dentro dela. Algo como... Talvez não valha à pena comentar. Enfim, a festa estava começando, e ao mesmo tempo terminando, pois assim que o tal "ser" se manifestou em meu interior a nossa intenção se acalmou por completo. Como se tivessem jogado um balde de água fria em nós. A enorme quantidade de amendoins por mim ingerido foi o motivo para um pequeno desarranjo intestinal, algo como: Deixar o banheiro temporariamente interditado para limpeza. Só. Nada muito espantoso ou romântico para a ocasião. E assim terminou o dia, a Olga emburrada foi dormir no quarto da sobrinha, e eu fui terminar a faxina do meu umbigo na sala, enquanto assistia um programa estúpido na tv. Nossa! Podia dizer que estava impressionado com o tamanho da traça tirada por mim deste orifício tão cheio de pêlos, rugas e sujeiras variadas. Olha, posso dizer até que esse dia girou em torno do meu umbigo, ou, o meu dia foi o meu umbigo. Sei lá.



Imagine agora uma tetéia dessas rebolando na sua frente. Hum! Que loucura isso. Pena que não deu certo o nosso plano.
Mario Bourges 00:47 [+]
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Sexta-feira, Maio 07, 2004


Por esses dias me ocorreu uma coisa, no mínimo inusitada. Batendo palmas desvairadamente em frente à minha casa estava vizinha chamada Cleodete. E pelo que pude perceber através de sua cara, sempre medonha, que estava eufórica e provavelmente querendo pedir algum favor. Só para variar. Vizinhos só servem para reclamar de alguma coisa ou pedir favores. Mas nem dei bola, fiz de conta que não era aqui em casa, e voltei para meu chá com bolachas e geléia de pêssego. Uma hora essa mulher vai cansar das palmas e vai-se embora, pensei.

Dez minutos depois, aproximadamente, ela voltou com força total. Veio desta vez com as palmas e um apito, e ainda por cima me chamando pelo nome. Putz! Tive que atendê-la, só para não ter que ouvir meu nome saindo da boca daquela mulher. Bom, como estava quente naquela manhã fui até o portão com a mesma roupa que costumo usar em casa, ou seja, uma camiseta regata com dois pequenos furos nas costas, a tradicional cueca samba-canção branca, mas não tão branca assim, as meias pretas e os famigerados chinelos surrados e surradores de crianças e cachorros. Na verdade nem me preocupei em trocá-la (roupa) por outra melhor, ou mais decente. Afinal de contas, eu estava me sentindo bem à vontade.

Pois bem, utilizando toda a minha boa educação, que me é peculiar, perguntei: O que é que a senhora quer a essa hora do dia, não vê que estou num momento de grande ocupação? Sabem, não sei por que as pessoas me olham como se fossem brigar comigo. Talvez pelo fato de andarem estressadas, sei lá. Mas tudo bem. Ouvi o que ela tinha a me contar sem dar muita atenção. Claro, nada muito animador. Aliás, nada animador. Na verdade ela trouxe uma cartinha para que eu enviasse para aquele gordo do programa. Vocês lembram de quem estou falando? Então. Dizia-me ela com uma voz trêmula e chorosa sobre uma paixão devastadora que sentia por uma pessoa que trabalha lá com o gordão quando eu falei: Pare de chorar pô! Não vê que está encharcando a frente da minha casa? Mas para amenizar o clima de tensão instaurado em frente à minha morada disse: Ok! Mas o que é que ganho com isso? Estava louco para dizer um "não" bem grandão assim que ela me dissesse apenas um simples e nojento "obrigado" pelo enorme favor que estaria prestando para ela. Diante da minha pseudo-atenção me pediu para esperar um pouco.

Pensei um pouco e cheguei à conclusão que ela iria desistir do pedido. Ledo engano. Não demorou muito veio ela com duas grandes tigelas com pudim, e estavam bem cheirosos. Mesmo assim fiz cara de difícil. Então eu disse: Quer que eu mande tua carta fajuta hoje ainda? Respondendo-me sim com a cabeça peguei meu presente imediatamente antes que ela mudasse de idéia. Assim mesmo falei que não faria milagres quanto ao atendimento do pedido. A primeira coisa que fiz foi me sentar no sofá da sala para me deliciar com o pudim, e aproveitar para ler aquela porcaria. Talvez me fizesse rir um pouco.

A carta dizia o seguinte:
"Querido Osmar,
Desde os tempos mais remotos venho admirando sua beleza estonteante atrás dessa sua barba charmosa, que me faz lembrar da Rússia no tempo dos Czares. Não que eu seja desse tempo, mas conforme tenho assistido alguns filmes acabei fazendo uma pequena comparação. Pois bem. Sempre que posso fico apreciando seu desempenho enquanto maestro no programa do Jô, e posso dizer que é simplesmente encantador.

Gostaria de saber se fora do programa você também é encantador. Desculpe meu jeito, mas... Que tal um encontro? Assim poderei conferir seus dotes musicais. Você poderá demonstrar, através de toques pelo meu corpo, como se faz boa música. Para compensar a falta do teclado podemos fazer de conta que meu corpo é o próprio instrumento musical que costuma tocar. Quanto a música; pode deixar comigo, eu a produzirei conforme a pressão dos toques. Logicamente também vou querer conferir seus outros dotes, os caseiros, pois não vou querer lavar cuecas e meias de homem barbado nem louça para o resto da minha vida. Bom, acredito que essa pequena carta já dê para começar com um romance. O que me diz? Aguardo uma ótima resposta.
Beijinho.
Cleodete."

Diante dessa imbecilidade eu acabei me afogando com o pudim, cheguei até a me urinar de tanto que tossi. Além dos gases emitidos por mim mesmo. Mas como havia prometido que enviaria essa carta vou cumprir, mesmo contra a minha vontade. Só espero que ninguém veja esse programa quando a carta for ao ar, e se virem, que não façam associações comigo, pois eu posso morrer de vergonha se isso acontecer.


"Sei que não tenho o rosto muito bonito, mas sou carinhosa e bem simpática." Palavras da Cleodete.
Mario Bourges 14:22 [+]
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Sábado, Maio 01, 2004


Anno I

Como havia avisado a todos vocês, a festa comemorativa de um ano do blog aconteceu, só não me perguntem onde nem como aconteceu porque até agora não fiquei sabendo. "Como assim?", você deve estar se perguntando e me perguntando. Oras, eu simplesmente não sei. Tempos atrás uma porção de gente entrou em contacto comigo para marcar uma festa no bar de um, uma chopp e dança na casa de outro. O prefeito me ofereceu seu palanque para discursar, enviou-me até fotos de seu objeto de politicagem para me cativar. Deus me livre disso, pois não quero ser garoto-propaganda de político nenhum. Ainda mais nessas condições. E até um gordo, que tem um programa na tv me convidou para uma entrevista. Logicamente que não aceitei, pois não sei quem ele é.

Então, os convites foram feitos. Restava saber apenas onde eu deveria ir para aproveitar a ocasião. Veja bem o que aconteceu. O tempo foi passando e ninguém decidiu nada comigo. As únicas coisas que chegavam lá em casa eram cartões e mais cartões de auto-convite do prefeito para participar da minha festa, pois ele sabia que a bebida ia correr solta. Logicamente que o prefeito também enviou convites para eu discursar em cima de seu palanque. Claro que as fotos do palanque acompanhavam os convites. Ele dizia que era melhor assim, pois dava ao seu eleitorado a real potência de seu voto. Que sujeitinho descarado e chato esse.

Pois bem, no dia da comemoração, logo cedo, estava na frente da minha casa a escola de samba Unidos da Sapolândia batucando com toda a sua potência e seu contingente (dezessete pessoas), todos muito entusiasmados, pelo menos até a polícia chegar. Claro que a vizinhança reclamou do barulho. Na verdade não é todo mundo que gosta de acordar às seis da manhã ao som de batuques. Aliás, acredito que ninguém goste disso. Eu pelo menos odeio. Mas eles estavam felizes. Recitaram até versinhos. Logicamente que estavam bêbados, simplesmente eu não entendia nada do que diziam, ou pensavam dizer. Talvez nem eles mesmos tivessem entendendo. Mas tudo bem. Aquilo já tinha se resolvido por conta própria, ou seja, tinha terminado.

Lá pelas tantas da tarde o Pereirinha, o Azambuja e o chato do Adalberto passaram de táxi em frente à minha casa para me pegarem, conforme o combinado (diziam eles), mas eu não sabia o quê tínhamos combinado. Então entrei no carro, e em seguida partimos rumo para... Não sei para onde estávamos indo. Assim que partimos de casa vi, por acaso, a comitiva com cinco carros da prefeitura estacionando em frente ao meu lar. Esse povo está chateando, pensei. O pessoal de casa que se vire com essa gente. Pensei novamente. E enquanto passávamos pela Rua Mal Deodoro recebi um telefonema, quer dizer, o Pereirinha recebeu um telefonema da Silvia, uma moça adorável lá da Bavarium, perguntando se nós iríamos na festa que eles tinham organizado para mim. Falei-lhe que não sabia, mas assim que fosse possível retornaria a ligação. Muito bem. Não demorou muito meu velho conhecido Odil do Ao Distinto Cavalheiro ligou convidando-nos para uma festança. Também disse que ainda não sabia de nada.

O tempo foi passando, passando e passando, e ninguém sabia de nada. Nisso o Pereirinha sumiu, simplesmente assim. Depois foi o Azambuja. Já o Adalberto eu toquei de perto de mim. Ele é muito chato. Mas aí fui perceber que já estava tarde, e ainda por cima sozinho. Tentei procurar o pessoal. Comecei a caminhar para um lado da cidade. Sabem, receio ter de admitir, mas eu me perco fácil. E foi isso que aconteceu. Fiquei sem saber onde estava. A única posição que poderia dar sobre a minha localidade no momento era de estar no centro da cidade, o resto não saberia dizer mais nada. Então, após rodar pelas quadras encontrei um boteco para entrar, muito simples, do tipo pé-sujo. Querem saber o que fiz? Bebi. Bebi até cair. E após horas me debatendo dentro de um copo de cachaça consegui me livrar do balcão. Paguei a conta (assim espero) e fui embora.

Rodando pelas ruas sem direção acabei entrando num shopping center, mais precisamente no mais novo centro de convenções de Curitiba. Parecia interessante o encontro que estava acontecendo. Pelo que pude entender era sobre ufólogos e ufanistas de todos os gêneros possíveis. E após uns trinta minutos babando numa das poltronas descobri que o palestrante era um conhecido meu. O Francisco tinha atuado comigo num curso aí tempos atrás. Tentei pedir um emprego para ele em favor do meu neto, mas tive que debandar de lá, pois tinha identificado um outro palestrante; no mínimo estranho. Dizia ter vindo do planeta Kripton. Tentei criar um comparativo com aquele outro nome: Lipton. Mas descobri que isso era marca de chá. Tudo bem. O pavor foi tanto que nem me despedi do Francisco.

Enfim, tudo tinha se passado, e eu acordei de madrugada no quintal da minha casa com uma garrafa de desinfetante, com a metade de seu conteúdo apenas, e enfiada num dos bolsos das minhas calças. Simplesmente horrível. Meus sapatos estavam retorcidos, esfolados e se soltando em tiras. Pareciam até com as Havaianas quando ficam velhas. Bom, nem fiquei tão preocupado com isso, pois sabia que logo os jogaria fora. Só sei que o dia amanheceu, e eu acordei dentro da casinha do cachorro. Detalhe: a casinha parecia ser um pião rodando a mil por hora em seu próprio eixo. Que desgraceira foi esse dia. Não vou esquecer tão cedo o primeiro aniversário do tal blog. Quanto ao prefeito; ele voltou mais vezes na minha casa, mas não dei bola nem pra ele e nem para a equipe dele. Estão pensando o quê de mim? Estão querendo me transformar em seu cabo-eleitoral é? Nem pensar.



Durante minha caminhada acabei me deparando com a Loira Fantasma (ícone curitibano do pavor para os taxistas na década de 70). Mas não me lembro de ter passado por perto do Cemitério Municipal naquela noite. Pelo menos é o que penso. Não sei, mas me borrei assim mesmo.


No final da noite me senti como se fosse um objeto de uma história de conto de fadas no final de um encantamento. Ô situação deprimente.
Mario Bourges 21:42 [+]
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Sábado, Abril 24, 2004


Esta semana fiquei embasbacado com o prazer momentâneo e sem nexo que tive ao ver um programa de culinária pela televisão. O programa chamava-se Les Boboux Cuisine. Fantástico! Querem saber o que fiz? Com voz autoritária toquei todo mundo da cozinha. Disse-lhes que faria uma surpresa deliciosa para o lanche da tarde. Logicamente que perguntaram qual seria a tal surpresa, e em seguida tiveram a pachorra de dizer para eu tomar cuidado com o fogão, as panelas, cortinas, panos, talheres, e por aí vai. Para não me aborrecer logo no início das atividades falei que se a surpresa for revelada não é surpresa. Quanto as outras recomendações, falei apenas para não se preocuparem.

Pois bem, lá fui eu fazer a surpresa deliciosa, mesmo sem lembrar como é que começava a receita. Foi aí que pensei: quem precisa de receita, sendo que isso funciona apenas para principiantes. Para dar um clima especial a este tipo de trabalho, coloquei um disco de Charles Aznavour para ajudar a me inspirar ainda mais. Sabem, preferi este tipo de música para deixar o ambiente mais descontraído, além do mais não suporto ouvir os sons característicos da cozinha como: Panelas batendo, ou caindo, água borbulhando, aquele ruído detestável dos garfos se entrelaçando pelos dentes etc.

Para começar logo com a peleja larguei logo uma chaleira cheia de água para ferver, e em seguida fui procurar uma bacia na despensa para colocar a massa depois de preparada. Nisso acabei encontrando na prateleira uma revista que tinha perdido há muito tempo. Que bom! Pensei. Então aproveitei para folheá-la enquanto não tinha muita coisa para fazer, já que a água ainda estava fria. Lá pelas tantas, talvez isso não seja nenhuma grande novidade, mas, acabei esquecendo o que fui fazer na despensa. Após uns quinze ou vinte minutos me distraindo no tal cômodo resolvi ir à cozinha ver que barulho era aquele acontecendo no fogão. Claro! Era a chaleira sem água, e ainda por cima começando a deformar no fundo. A primeira coisa que fiz foi dizer: Puta merda! Depois veio o desespero acompanhado com uma grande dúvida: o quê estava aquela chaleira fazendo sem água no fogão? E uma outra pergunta clássica: Por quê diabos resolvi fazer isso? Mas consegui retomar o controle. Pelo menos foi assim que esperei ter acontecido.

Tudo bem, não tinha mais chaleira. Passei para o plano "B", peguei uma panela comum para colocar os ingredientes, que até o presente momento não tinha nem separado ainda. E também não sabia nem quais eram, mas... Tudo bem. No liquidificador coloquei uma colher de manteiga, dois tomates, morangos, presunto, geléia de amora e um resto de requeijão cremoso. Por um acaso tive que pegar uma outra colher para limpar o fundo do copo do requeijão, pois a colher que estava comigo simplesmente desapareceu. Ok! Pensei. Sem problemas. Liguei o aparelho para triturar esses ingredientes. Engraçado que, depois de funcionar este negócio acabei encontrando a colher que tinha sumido das minhas mãos momentos antes de bater tudo isso. A essa altura dos fatos o tal Charles Aznavour já estava me aborrecendo com suas músicas. Fui obrigado a desligar o aparelho de som para não precisar quebrá-lo.

O tempo se passou, e a fome surgiu... Para todos! Quando o povo resolveu entrar na cozinha para ver se já tinha algo para comer levou um baita susto. Das seis bocas do fogão, apenas duas estavam funcionando. A chaleira estava torta no fundo, duas panelas acabaram sem cabo, o liquidificador quebrado e alguns talheres tortos ou carcomidos pelas pás do próprio liquidificador. E além da bagunça deixada na despensa e na cozinha estava o chão desses dois cômodos cheio de gordura, panos, sementes e tudo mais. Ao ver minha "arte" a Olga imediatamente me passou o "sabão". E sob seus berros tive que limpar toda a sujeira, e ainda fui terminantemente proibido de ficar perambulando pela cozinha com a desculpa de querer inventar mais dessas minhas surpresas deliciosas. Tudo bem, nem liguei. Fui para o quarto trocar de roupa, pois esta que estava usando simplesmente ficou imprestável, de tanta gordura. Joguei meus sapatos na lata do lixo e entrei no meu fusquinha para dar uma volta pelo bairro. Só para não ficar em casa ouvindo reclamações.




Depois que isso tudo começou a acontecer ficou difícil de alguma coisa dar certo.
Mario Bourges 15:44 [+]
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Sábado, Abril 17, 2004


Dizem que depois de certa idade tanto o homem como a mulher tem que fazer alguns exames periodicamente. Sanar dúvidas sobre ter ou não alguma coisa estranha dentro de seus corpos. Sei que isso tudo parece papo de fresco, pois nós sabemos o quê, por ventura, pode-se encontrar no interior desses corpos. Note bem; da mulher poder ser encontrado uma criança, ou mais, nada mais que isso logicamente. Já no homem vai depender do estado de embriaguez do sujeito, e do valor da aposta também. Lembro-me de uma vez, que um conhecido meu, no tempo do quartel, chegou a engolir uma xícara de cafezinho. Com essa brincadeira ele ganhou a aposta e uma cirurgia para a retirada da xícara. Porém, não era bem desse assunto que decidi tratar. Então voltemos a ele.

Após muita insistência do pessoal aqui de casa resolvi (não sei onde eu estava com a cabeça) me consultar com um proctologista. Se por um acaso você não sabe o que esse especialista faz, então eu é que não vou dizer. Bom, na hora marcada cheguei lá acompanhado da Olga e minha neta. Mas elas não foram junto para me ajudar ou coisa parecida, foram para garantir minha permanência lá na clínica. Elas sabem muito bem que posso fugir dessa peleja sem pensar duas vezes. Nunca (desde que me lembro) me senti tão ansioso em toda a minha vida. Particularmente falando, não via a hora de escapar de lá. O que talvez tenha feito minha permanência durar mais que os dois minutos que tinha em mente foram as belas enfermeiras do local.

Apenas eu não percebi que aquilo era um engodo. Cai na armadilha fácil, nem me dei conta do momento em que o médico estava se aproximando. Chegou do meu lado feito um fantasma, rápido e silencioso. Depois repousou sua mão em meu ombro e perguntou: "Vamos?". Eu quis dizer que não, mas a Olga me empurrou para o médico. Foi aí que pensei; sou um homem. Não tenho do quê ter medo. Pelo menos até o momento que descobri quem iria fazer o exame em mim. Era um negão bem forte com um sorriso matreiro que estava encostado na porta de sua sala. Assim que percebi sua intenção (estampado em seus olhos) e o tamanho de suas mãos não quis nem saber. Em cinco ou seis largos passos (talvez um pouco mais que isso) eu consegui fugir de lá. Até minhas pernas pararam de tremer na hora. A Olga e a neta ainda tentaram me alcançar, mas só conseguiram me encontrar em casa. Detalhe: Eu já estava na cama todo enrolado nos cobertores quando elas chegaram, mas não falei com ninguém naquele dia. Nem nos dias seguintes da semana.

A sorte delas é que eu não guardo rancor. Talvez pelo motivo de estarem fazendo meus doces prediletos novamente. Não! Não me vendo por tão pouco assim. Eu simplesmente não briguei com elas porque sou uma pessoa que não gosta de violência. Apenas por isso. Quanto ao exame, não pretendo voltar lá tão logo. Aliás, não pretendo voltar nunca mais aquele lugar tenebroso, ou qualquer outro que cometa esse tipo de atrocidades. E para completar a semana, o prefeito agora fica me enviando auto-convites para participar da festa de um ano de existência do blog. Que sujeito mais sem caráter esse.



Garanto que se você visse um sujeito parecido com este teria fugido também.
Se quiserem saber o nome deste profissional, caso resolvam se consultar, por favor tomem nota: É Dr.Zóinho.
Ps: Com a proximidade do grande evento que promete parar Curitiba, logicamente que estou falando do 1º aniversário do blog, duas grandes empresas estão disputando no tapa quem é que vai realizar de fato a tal festa. De um lado está Ao Distinto Cavalheiro, e do outro está a Bavarium. Resta saber quem é que vai ganhar a parada.
Mario Bourges 19:04 [+]
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Sábado, Abril 10, 2004


Esta semana passei por momentos difíceis (isso é quase uma constante em minha vida), gostaria até de nem comentar. Vocês devem saber das dificuldades que tive com o computador do escritório. Como assim que escritório? Ora, do pessoal que trabalha para atualizar as minhas histórias na Internet. Na verdade eles relatam apenas meu cotidiano inútil, nada mais. Mas acredito que não seja um caso isolado meu, se souberem como procurar irão encontrar muitos outros Baltazares espalhados por aí. E não duvidaria se acabassem encontrando em suas próprias casas.

Bom, como ia dizendo, o negócio foi o seguinte: Primeiro a porcaria da máquina estragou, depois tive que mandar para o conserto. Claro! Agora pergunte a mim se o pessoal que usa a tal máquina pagou o conserto. Claro... Que não! Veja, o grande problema foi encontrar alguém confiável para executar o serviço. Nem consigo encontrar palavras para expressar a dificuldade que tive para descobrir alguém qualificado, mas depois de muito procurar pela cidade achei um. E assim mesmo... Olha, o cara fez o serviço, mas fiquei com dúvidas sobre a capacidade técnica do assim chamado técnico. Não sei o que aconteceu para gerar essas dúvidas, mas tinha algo de estranho no sujeito. Sei lá, talvez fosse apenas cisma. Mas especialista que é especialista não expõe os computadores na calçada para tirar fungos. Pelo menos é assim que penso. Enfim.

Depois de uma semana no conserto resgatei o equipamento lá "do lodijinha" mediante uma quantia um tanto quanto alta, mas tudo bem. Tudo bem nada, após duas horas de uso as meninas que usam o computador ligaram para mim avisando que o dito fumaçou por uns três minutos, e depois arrebentou em mil pedaços num grande estouro. Disseram-me ainda que o tal estrondo lembrou até um botijão de gás explodindo, de tão forte que e coisa aconteceu. Imediatamente (assim que consegui me levantar do sofá preguiçoso da sala) fui atrás desse técnico picareta, mas "seu lodjinha" tinha se transformado em uma farmácia. O detalhe é que a farmácia era de outro dono. Ou seja, tive que amargar com o prejuízo sozinho. Claro! É sempre assim que as coisas funcionam para mim.

A minha sorte, ou não, que tive apoio de um pessoal estrangeiro para solucionar meu problema. Comovidos com minha situação eles emprestaram o que puderam para me agradar. Um deles quis até que a agência espacial de seu país criasse um computador especial para mim. Só não sei porquê. Talvez tenha sido depois do episódio da denúncia que ameacei fazer sobre o prefeito daqui. E isso os deixou com um certo receio de que pudesse acontecer com eles também. Mas não posso confirmar esse pensamento. Enfim, acredito que tenha resolvido tudo afinal. Por isso vou encerrando por aqui, sem muita enrolação porque estou de saco cheio. Mas antes quero avisar que amanhã é Páscoa. Um dia muito especial para todos, pois neste dia podemos comer chocolates, muitos deles, e sem culpa. O que é melhor ainda. O único problema nessa história fica por conta da prisão-de-ventre causada pela enorme quantidade de chocolates que acabo consumindo, mas tudo bem. Um bom laxante resolve.



Veja a foto pra não dizer que estou inventando histórias.
E ATENÇÃO! Dia 30/04 Curitiba vai parar! O motivo? A coluna do Comendador Baltazar completa seu primeiro aniversário. O prefeito, apesar de ter subido a passagem de ônibus de maneira horripilante, disse que irá fechar algumas ruas, a fim de fazer um grande festejo para comemorar a data, e ainda disse que vai disponibilizar 35 ônibus para carregar o pessoal de graça para cima e para baixo. Até vomitarem todos. Está dado o recado.
Mario Bourges 00:14 [+]
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Segunda-feira, Abril 05, 2004


Esses dias resolvi sair pela manhã, fui ao centro da cidade resolver uns probleminhas, nada grave. Mas fui cedo para ver se conseguia aproveitar melhor o dia. Sabe como é, quando chego no centro à tarde vou direto para o café ou o bar. O que quero dizer com isso é que então não consigo fazer nada além disso. Consecutivamente, já perdi o dia. Ou talvez não, pois não costumo ter nada para fazer mesmo. Porém, dessa vez tinha que fazer umas coisas. Quando estava perto do meio-dia já tinha feito tudo o que tinha que fazer. Então era momento de almoçar, mas estava com preguiça de voltar em casa, para depois retornar para encontrar com o pessoal e tudo mais. Decidi que deveria comer algo pelo centro mesmo.

O restaurante mais próximo era um vegetariano. Particularmente falando nunca tinha me aventurado entrar em um desses, mas todo mundo diz que esse tipo de comida faz bem para o organismo. Então ficou decido por entrar. Ótimo. Mas isso depois de uns trinta minutos na porta do estabelecimento matutando se devia entrar ou não. Assim que peguei um prato para me servir (comida por quilo) passou por mim um sujeito com uma aparência estranha. Assim que pude perceber o que se tratava aquela aberração quase tive um chilique. O tal sujeito parecia um pé de alface, ou um outro tipo de mato qualquer. O prato caiu da minha mão e minhas pernas bambearam, por sorte estava perto de um balcão para poder me escorar. Alguns funcionários vieram me socorrer, mas prontamente me recuperei. E tratei de cair fora de lá.

O gerente veio perguntar se eu estava bem, mas a essa altura dos fatos eu já estava no meio da rua correndo entre os carros com as mãos para cima, agitando-as sem parar e gritando ao mesmo tempo. Parecia que estava à beira da loucura. Não sei muito bem, mas me parece que corri as várias quadras que separam este restaurante do café de minha preferência (cerca de duas ou três). De uma coisa eu tenho certeza... Talvez não, mas quando cheguei no lugar onde costumo ir estava com a língua de fora, e ainda, os sapatos desamarrados, a braguilha das minhas calças aberta, a camisa para fora das calças e meus cabelos espalhados. Um horror. Então entrei, sentei no primeiro lugar que vi desocupado para poder descansar. Parece até que cochilei um pouco, porque quando acordei já tinha anoitecido. Nossa! Como anoitece rápido agora. Pensei.

Fui até o banheiro lavar o rosto para despertar. Confesso que quase caí do susto que levei de mim mesmo. Parecia até aqueles mendigos que domem em portas de agências bancárias de tão bagunçado que estava. Decidi então que seria melhor ir para casa, mesmo sem encontrar com o pessoal mesmo. Seria melhor para mim e para eles não me virem dessa maneira. Já chega o que os funcionários de café viram. Tomei apenas um cafezinho e fui para o ponto de ônibus esperar minha condução. Louco de vontade de comer alguma coisa, pois estava sem almoço. E depois trocar de roupa e me jogar na cama. Banho? Não precisava. Fazia pouco tempo que tinha tomado banho. Ainda estava bem tolerável.



Responda-me uma coisa: Você gostaria de comer num lugar onde as pessoas do lugar tivessem esta aparência? Creio que não.
NOTA: Disse que o Primeiro Ministro britânico tinha oferecido um dos computadores do castelo, pois então. Para essa semana quem estava louco para emprestar um computador melhor era o George Bush. Sabe como é, eleições... Falando nisso, não aceitei essa prestação de serviço por causa daquele gordinho que ficou bocejando durante o comício inteiro do maioral americano. Aproveitando a deixa (que não tem nada haver), após milhares de cartas, fax, e-mails, passeatas, carreatas e buzinaços, tudo para pedir uma reformulada no visual da Coluna do Comendador Baltazar. E a coisa aconteceu. Especialistas do mundo inteiro passaram algumas semanas empenhados na melhoria da página. Particularmente quase nem mudou nada, mas já surtiu efeito. O mesmo pessoal que pediu mudanças na página percebeu, quase que instantaneamente as tais mudanças. E está todo mundo rindo à toa.
Mario Bourges 19:15 [+]
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Segunda-feira, Março 29, 2004


Vocês devem saber o quanto eu gosto de doces. Ah, como eu gosto de doces! Então, estava eu passeando pelo bairro onde moro para ver o que tinha de diferente na região, mesmo eu odiando tudo e todos daquele lado da cidade. Aliás, aquilo deve ser o pior lugar que conheço. Bom, lá pelas tantas me deu vontade de comer um docinho, pois minha reserva natural tinha se esgotado. Resolvi entrar numa banquinha de doces para comprar algum e satisfazer meus desejos. Pensando melhor, tenho que encontrar uma palavra mais adequada para substituir essa, "desejo". Hum...Sei lá, mas isso soa tão feminino. Prosseguindo com o assunto. Olhar aquela variedade de doces me deixou com vontade de comer todos, e ao mesmo tempo de tomar um antiácido para combater a azia que começava a surgir. Mas após ter escolhido os doces de minha preferência a dona da banca perguntou se eu não era o Baltazar, irmão do Roberval. Assim que confirmei ela disse que há algum tempo atrás foi namorada de meu irmão no tempo que ele era motoqueiro. Para me situar disse que era conhecida como Analúcia Highway, ou Freeway, ou Anyway, sei lá, não me lembro bem agora. Mas consegui recordar da época em que eles namoravam. Para ser sincero digo que seria melhor não ter visto essa Analúcia nos dias de hoje, e sim ter ficado com a sua bonita imagem dos tempos idos. Porque hoje em dia ela...Sabe, é melhor nem comentar, muito menos entrar em detalhes. O efeito que as drogas causaram em sua beleza era de assustar, mas sou suspeito para dizer isto, pois passei a usar um novo calmante, e seu efeito ainda me deixa atordoado por quase o dia inteiro. Sei que não é aconselhado tomar os medicamentos com cerveja, mas tomar esse tipo de coisa com água é pedir demais. Enfim, só sei dizer que conversamos por algum tempo, lembramos das aventuras vividas, mais por eles do que por mim, porque eu costumava ficar (quando jovem) enchendo o saco da vizinhança. Isso pelo menos até eu entrar nas Forças Armadas. Depois acabei tendo uma vidinha chata, onde só podia incomodando, digo, testando a paciência dos jovens soldados, e de alguns outros subordinados também. Bem, e depois de todo esse papo furado resolvi voltar para casa, tomar o restante dos meus remédios. Além do quê, todo essa conversa estava me deixando nauseado. Era muita lembrança para mim num único dia. Então nos despedimos, e aí dei o fora de lá antes que ela resolvesse me levar para sua casa, talvez para me apresentar à sua família. Mas pelo que pude perceber, é capaz de ter apenas gatos e cachorros para compor sua família, e claro, todos espalhados pela casa cagando e mijando por tudo quanto é lugar. Nada mais que isso.


Enfim, depois de alguns dias sem imagem aqui está a dona de quem estava falando. "Gatinha".
Mario Bourges 19:47 [+]
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Sábado, Março 20, 2004


Esta semana fui convidado a comparecer em uma formatura. Era de uma prima minha. O local da cerimônia era pequeno e aconchegante. Apropriado para a turma de formandos. Confesso que gostei por que não tinha o pessoal que costuma levar para esse tipo de coisa aquelas bexigas, cornetas, buzinas de caminhão ou fogos de artifício. Afinal de contas, todos que lá estavam eram adultos. Claro, tinha na platéia velhos e crianças também. Quer dizer, tinha umas crianças também. Isso mesmo, adultos e crianças. Se bem que tinha um sujeito lá que era velho mesmo. Cheirava a naftalina. Devia ter pelo menos o dobro da minha idade. E se não me falhe a memória, já vi uma fotografia dele ao lado de D.Pedro II abraçados como dois amigos. Bem, estava no corredor do pequeno teatro, em pé, parado, e em posição de sentido. Talvez esperando só um toque de recolher para poder se sentar em uma das poltronas e tirar um lonnngo cochilo. Continuando. Começou afinal a dita formatura, e por azar eu me sentei em uma poltrona que qualquer um do palco poderia me avistar, pois nenhuma outra pessoa se aventurou ficar sentado na minha frente ao longo das dez poltronas existentes. Não sei porquê. Nem fiquei fazendo porquice para que me evitassem. Enfim, tive que ficar comportado para não ficarem me medindo lá de cima. Voltando à formatura. A solenidade estava interessante, muitas pessoas falaram, como de costume, mas estava bom. Então procurei me ajeitar melhor na poltrona, a fim de tirar o máximo de proveito do que acontecia no evento. Lá pelas tantas a visão começou a falhar, e a audição também. Pude perceber que numa piscadela de olhos um pouco mais demorada o ponteiro de minuto do meu relógio escorregar por uns vinte minutos. Pensei em mandá-lo consertar no outro dia sem falta, mas percebi que a falha não fora dele, e sim de minha atenção. Por este motivo resolvi pegar uma bala do bolso do meu paletó para ajudar a me manter acordado. Era uma bala Soft (sempre gostei dessa bala). Descasquei-a e enfiei na boca. No começo ela estava um pouco melequenta, mas tudo bem. Assim que aquela camada grudenta da bala derreteu eu me engasguei. Bem na hora do Paraninfo falar. Foi uma situação constrangedora, pois eu não parava de tossir. Parecia até que ia explodir de tanta tosse. Estava vermelho, ou melhor, estava roxo. Chegou a me faltar ar, até babei nas calças, poltronas etc. As poucas pessoas que estavam sentadas perto de mim deram um jeito e caíram fora, sentando amontoadas em qualquer outro lugar. Tentei dizer que já ia passar, mas não conseguia falar nada, apenas tossia. Não me lembro muito bem, mas parece que encerraram a formatura com uma certa antecedência, mas não posso confirmar. Só sei que teve um momento que alguém ficou reclamando do meu lado. Dizia que eu tinha cuspido uma bala no colo dela enquanto estava sentada. Que mentira! Pensei. De uma coisa posso confirmar, que eu tossi muito, tanto é que a maldita bala saiu pelo ouvido, e não sei onde foi parar, pois eu procurei por todo o maldito lugar. Mas isso foi assim que recuperei a consciência e o ar. Disseram-me que eu estraguei a cerimônia. Outra grande mentira, provavelmente de alguém que não gostava de mim. Puro complô. Enfim, as coisas terminaram e fomos embora. Perguntei do baile que aconteceria do dia seguinte, fizeram de conta que não eram com eles (formandos). Insisti na pergunta. Então um deles disse que o baile seria apenas para os formandos, ninguém mais participaria. Tudo bem, pensei comigo. Da próxima vez que alguém me convidar para esse tipo de coisa me farei de desentendido e não aceitarei. Mas pelo que pude perceber ninguém vai se atrever em me convidar novamente para coisa alguma. Tanto faz. Não gosto mesmo.
Mario Bourges 21:23 [+]
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Sábado, Março 13, 2004


Esses dias eu resolvi arrumar o sótão de casa com meu neto. Dava a impressão que iria cair o forro por causa daquela bagulhada a qualquer momento. Claro que ele foi na frente ver se poderia ser transitável lá em cima. Sabe como é, aranhas, baratas ou qualquer outra coisa desse tipo me deixa nervoso. E ao sinal de tudo livre eu subi. Começamos a revirar tudo, caixas, sacolas e baús foram nossos alvos. Em um certo momento encontrei uma carta que estava dentro de um pequeno baú cheio de bugiganga. Na verdade esta carta pode ser considerada um fato histórico, pois era do meu avô, e foi escrito enquanto fazia a viagem inaugural de um navio. Um tal Titanic. Pois bem, a carta dizia o seguinte: "Caríssimo amigo Epaminondas, Encontro-me num enorme navio que saiu a poucos dias da cidade ingleza de Liverpool. Um dia vais ficar á par de tudo o que acontece, e aconteceu neste hemmisfério. Eu tenho esta impressão. Olha, aqui faz muito frio, ainda mais depois do que acabou de acontecer. Enfim, não quero me desviar do assumpto, pois o tempo me parece curto. Gostaria de pedir um favor. Perdoe-me, um não, alguns favores. Antes disso diga-me, aí fez sol por esses dias? Ah que boas lembranças tenho desta terra brasileira. Aliás, não só deste logar como de qualquer outro logar que haja terra. Voltemos ao temma que resolvi tratar. Sinto que darás pulos de allegria após as novidades que tenho para vos contar. Lembra-se do meu automóvel? Ora como sou esquecido, se não me engano elle é o responsável pelas longas lamurias de não poder comprar um igual, não é mesmo? Então. Agora é seu. Mas você tem que prometer que ainda vae fazer os favores pra mim. Um delles é não me perguntar por que estou fazendo isso, creio que nunca saberá, vindo de mim, o motivo que me levou a fazer tal doação. Sabe, eu sinto o mundo desaparecer sob meus pés. Mas isso não importa neste momento. Gostaria que avisasse meu filho sobre minha casa, estou deixando para elle e sua esposa. Se por um acaso perguntarem o motivo diga-lhes apenas para aceitarem, ou melhor, diga-lhes que fiquei acammado pela ação de uma forte grippe, e resolvi ficar por essas paragens, vendo o mar como sempre quis ver. Porém, de maneira um pouco diferente. Então por este motivo resolvi dar-lhes minha casa. Mas do jeito que eu os conheço, nem vão perguntar nada. Avise-lhes que terão que lavar o lavatório da creada semanalmente (pois esta se encontra em ferias) para não liberar certos odores que não vale á pena mencioná-los agora. Para minha netta adorada, a Ignacia, deixo uma respeitável quantia monetaria que está sob a responsabilidade do banco, e ella só poderá retirar após completar a maioridade. Pois bem, penso que isso seja só. Não! Espere. Lembrei que tenho que deixar algo para o meu outro neto, o... O, puxa vida, como é o nome daquelle menino chato e ranheta? Ah, lembrei! Para o Baltazar deixo aquelle meu relógio de bolso. O que está com a corda quebrada. Diga-lhe um dia qualquer que este objeto foi doado por mim com a mais profunda emoção. Ou se descobrir algo melhor para dizer não sinta receio algum, tens a minha permissão e total liberdade para dirigir-lhe algummas palavras. Mas também se preferir não dizer nada não tem importância. Se quiser entender muito que bem. Agora, se não quiser entender, azar o delle. Puxa, a essa altura dos factos começo a sentir meus pés umidos, isso sem contar que não paro de ouvir uma gritaria fora do commum por aqui. Fiquei impressionado com a atitude dos inglezes, sempre pensei que fossem contidos. Enfim. Por sorte tem uma orquestra animada que não pára de tocar um só instante. Em se tratando de música, tive a honra de conhecer o grande músico que, até este dia tocou e compôs as mais belas valsas, mas por infelicidade ele resolveu desistir da arte. Bem n¿este dia. Agora meu amigo, creio que já está chegando a hora que devo me aprontar para uma atividade nova. Escuto o commandante dizer algo, mas a algazarra me impede de entender o que diz. Bem, é chegado o momento. Devo me despedir. Então até um dia. Transmita meu afetuoso abraço aos meus familiares. Adeus". Ah! Então foi assim que sumiu meu avô heim! Miserável. A única que aquele velho metido me deu foi um relógio quebrado. Mas não tem importância, hoje em dia a moda é ter coisas velhas. E se as pessoas compram até cocô petrificado da era jurássica por uma boa quantia, imagine só por este relógio o que vão querer pagar. Ainda mais depois que souberem que o primeiro dono dele sumiu no mar junto com o navio que o transportava há quase um século. Mesmo assim prefiro não me desfazer dele. Pelo menos por enquanto. Vou esperar que isto se torne ainda mais valioso.


Dentro deste pitoresco navio meu avô sumiu do mapa. Quanto a aparência dele não será possível mostrar devido a ausência de fotografias. Sabe, ele tinha o costume de levar todas com ele para poder distribuir entre as mulheres que ia conhecendo.
Mario Bourges 19:34 [+]
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Sábado, Março 06, 2004


A minha senhora veio com a idéia (mais uma vez) de comprar um carro só para ela. Disse que estava sem atrações emocionantes para suas tardes. Pensei em dizer para se acostumar com essas ausências de atrações, pois isso para mim é uma constante. Porém, se fizesse isso ficaria sem os meus doces e as minhas comidinhas preferidas. Pensei um pouco e disse que poderíamos dar umas voltas por aí, visitar algumas concessionárias de automóveis para ver uns modelos e coisa e tal. Mal terminei de dizer isso ela já estava pronta para sair, e ainda por cima me esperando no carro fazendo aquela sutil pressão: "Como é, você vem ou não? Só estou esperando você". Claro que fui, afinal ela foi muito delicada ao proferir tais palavras. Parecia até com a música (se é que pode ser chamado aquilo de música. Ai, ai! Aquela gritaria toda naquele som alto realmente me incomoda) que os filhos de um vizinho meu bem "bacana" escuta. Pois bem, circulamos por uma hora aproximadamente, e num passe de mágica lá estava o automóvel no pátio de uma loja. Bom, segundo a concepção que a Olga tem sobre carros, aquilo era um carro. Mas para mim ainda era apenas um automóvel. Ah! Falando em automóvel e coisas assim, o assunto da semana passada era sobre a inauguração da minha estátua, vocês lembram? Então. Fiquei sabendo através de telefonemas, cartas e do correio eletrônico que viria para cá (Curitiba) uma caravana do Paraguai, outra do Suriname, Guatemala e até do Canadá para fotografar a peça cedida pela prefeitura a mim. Logicamente que todo esse pessoal aproveitaria o momento para fotografar o prédio do antigo museu, constatar a denuncia que fiz. E sabem de uma coisa? Até uma caravana de senhoras dos Estados Unidos se prontificou em fazer uma visita, mas devido a exigência que estamos fazendo aos americanos eles desistiram. Qual exigência? Ora, além de ter que tirar a impressão digital de todos os dedos das mãos, os pés e as nádegas também precisam ter um registro. Além de fotos dessas regiões. Na verdade eles só desistiram mesmo porque os registros seriam feitos na base da almofada com tinta de carimbo, e as fotos seriam no melhor estilo lambe-lambe. Porque se fosse tudo isso com equipamento digital eles até topariam de vir. Mas voltando ao assunto do qual queria tratar. Tem coisas que acontecem que nos deixam horrorizados. Provavelmente irão lembrar do receio que eu estava de que roubassem a estátua do Barão do Rio Branco para derreter, não lembram? Então, o que aconteceu foi o seguinte: quase no final da semana acordei com um pronunciamento abatido na televisão do prefeito aos moradores da cidade que algo estranho e pavoroso tinha acontecido com o patrimônio de todos os curitibanos, e até dos brasileiros. Aquilo tinha atraído minha curiosidade. Então me levantei da cama depois de soltar o tradicional gás matinal, assim poderia checar os detalhes na televisão da sala. Com muita demora descobrimos todos que a minha estátua tinha sido roubada da praça, incluindo o seu pedestal. Sem dúvida que aquilo era terrível, pois eu tinha quatros excursões chegando a qualquer momento na cidade para conhecer a peça. E não tinha como avisar porque estavam vindo de carro de seus respectivos países. Diabos. Será que vou ficar sem o dinheiro das autorizações para as fotografias? Foi a primeira coisa que pensei. Logo após esses pensamentos perturbadores recebi um telefonema do prefeito dizendo que iria providenciar uma nova estátua, mas não teria os cinco metros de altura como tinha a anterior, seria um pouco maior. Assim ficaria difícil de acontecer um futuro desaparecimento da nova peça. Tudo bem. Pensei. Então pude me acalmar, e até soltar mais um gás. Dias mais tarde encontrei uma das mãos na frente de